Homossexualidade: um tema difícil e polémico
Há vários temas de que é muito difícil falar em público. A carga emotiva associada a eles é tão grande, que facilmente a sua menção pode levar a discussões bem acesas ou, no lado oposto, a reações de embaraço. Uma e outra situação não é boa para ninguém, pois ninguém sai minimamente esclarecido. Tal resulta muito frequentemente em incompreensões, recriminações e condenações sem sentido ou, no lado oposto, que tudo é inócuo, permitido ou “não faz mal, pois eu não estou a fazer mal a ninguém.” Qualquer situação extrema de que falo seria uma traição aos ensinamentos de Cristo e dos Seus apóstolos. Amar alguém é dizer a verdade, mesmo que isso custe a quem fala e a quem ouve, embora com caridade e respeito pelo outro.
Tema que interessa aos jovens
A razão porque falo sobre o tema da homossexualidade é porque é frequentemente mencionado pelos jovens, tanto no âmbito de grupos mais restritos, como em grupos mais alargados, como nas Jornadas Diocesanas da Juventude. A pergunta é sobre o que a Igreja Católica diz acerca da homossexualidade e porque a Igreja, ao contrário de várias igrejas protestantes, embora não todas, continua a considerar a homossexualidade como algo negativo ou “desordenado”. Tal é bem claro nos parágrafos 2357-2359 do Catecismo da Igreja Católica (CIC §2357-2359). No entanto, é preciso qualificar o que a Igreja considera “desordenado” e porquê. Sem entendermos as razões porque a Igreja defende o que sempre defendeu, parece algo injusto, persecutório e casuístico.
Conhecimentos pessoais
Em primeiro lugar, quero referir que conheço várias pessoas que são assumidamente homossexuais, de ambos os sexos. Tenho um grande respeito por elas, humanamente falando. Mais ainda, amo-as como meus irmãos e irmãs em Cristo. Rezo por eles, como rezo por outros irmãos em Cristo que são heterossexuais. Não falamos abertamente sobre a sua orientação sexual, porque não veio ao caso, mas caso viesse poderíamos falar sobre o assunto. Apenas houve um momento em que um dos meus amigos declarou-se abertamente homossexual quando me apresentou o seu companheiro. No entanto, o local não era o mais apropriado para falarmos sobre o assunto, pois foi no meio de uma festa barulhenta.
O Verdadeiro Amor
Com isto quero dizer que o verdadeiro cristão não pode, nem deve, afastar ou condenar quem quer que seja. Se condenas o teu irmão, é muito provável que tu sejas condenado primeiro. Se declaras que alguém vai para o inferno, o mais provável é que tu próprio chegues lá primeiro. Só Deus é juiz e sabe o que se passa no íntimo de cada um de nós e sabe as verdadeiras razões e as graças que cada um recebeu ao longo do seu caminho. Porém, isso não significa que não se deva dizer qual é o Caminho, a Verdade e a Vida, com Oração e Jejum, Amor a Deus e ao Próximo.
Aspectos científicos da sexualidade humana
Existem muitas discussões se a orientação sexual é algo genético ou deriva do meio e educação. Existem evidências científicas que, em geral, os cérebros de homens e mulheres homossexuais reagem a estímulos visuais (entre outros) de maneira diferente dos heterossexuais. Por exemplo, em certas situações, cérebros de mulheres homossexuais têm respostas muito semelhantes às do cérebro de homens heterossexuais. O programa molecular que define o sexo de um ser humano é algo que é desencadeado tardiamente no desenvolvimento embrionário. Por outras palavras, inicialmente o sexo do embrião é indefinido, adquirindo uma diferenciação sexual mais tarde durante a formação do embrião. Assim, é possível que haja variações no desenvolvimento cerebral de cada um de nós que é, sem dúvida, definido geneticamente. No entanto, existem também evidências científicas que a orientação sexual tem também uma componente que depende da experiência de vida de uma pessoa. Muito provavelmente ninguém consegue escolher a sua orientação sexual, tal como ninguém pode realmente explicar porque prefere alguém moreno em vez de alguém louro ou vice-versa.
Dimensão sobrenatural do agir de um Cristão
Se ninguém consegue realmente explicar ou escolher a sua preferência sexual, humanamente falando, parece realmente injusto que seja negado aos homossexuais os mesmos direitos que um casal heterossexual. Tal se aplica quando se fala do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a adopção de crianças por tais casais. De facto, se alguém não acreditar verdadeiramente numa dimensão sobrenatural, espiritual, tal negação não faz qualquer sentido. Porém, um cristão que acredita em Deus e quer ser fiel a Ele tem que considerar que o mundo material em que vivemos não é tudo. Um cristão, para o ser verdadeiramente, acredita que Cristo é Deus e que Ele veio à terra nos ensinar a Sua Palavra. Cristo é bem claro que estamos no meio de uma batalha espiritual em que temos que escolher entre Cristo e os nossos inimigos (Mt 13, 36-43). Sem termos um entendimento porque eles são nossos inimigos e que eles nos odeiam com um ódio inimaginável, qualquer explicação do que é um “pecado” cai por terra. Para quem ainda não entendeu, os nossos maiores inimigos não são seres humanos, mas são espíritos puros (porque não têm uma componente material ou um corpo), malignos, chamados por vezes por “anjos caídos” ou simplesmente “diabo” ou “demónio”.
Mas então um cientista como tu acredita numa coisa como essa?
Existe a ideia errada que um verdadeiro cientista não pode acreditar em Deus, tem de ser ateu. Eu respondo que, cientificamente falando, ninguém pode provar que Deus existe, mas também ninguém pode provar que Deus não existe. Nós, cristãos, acreditamos que Deus não pode ser conhecido directamente pela ciência, mas que acreditar em Deus é uma questão de fé. No entanto, isso não quer dizer que a fé tenha que ser cega ou que não pode ser questionada pela razão. Há muitas razões porque acredito em Cristo como uma Pessoa Divina, a 2º Pessoa da Santíssima Trindade. A primeira razão é porque essa fé foi me transmitida pelos meus pais. A segunda razão é porque tenho visto vários sinais ao longo da minha vida e de outros que a fé em Deus é muito poderosa, no sentido de nos dar sentido à vida, nos dar uma alegria interior inexplicável (quando estamos bem com Deus!). A terceira razão é porque houve um acontecimento que se deu há 2000 anos atrás que fez com que centenas, depois milhares e depois milhões e milhares de milhões de pessoas terem acreditado na Ressurreição de Cristo e que muitos preferiram a morte a negar Cristo e o Evangelho. Este é um facto inegável, pois caso contrário não haveria cristãos hoje em dia, e não haveria a Igreja Católica. Se Cristo ressuscitou e se o que está escrito nos evangelhos deriva de factos históricos, então das duas uma: ou Cristo era um louco quando não negou que era Deus, ou é Ele é Deus que veio à terra para nos salvar. A quarta razão deriva do facto, irónico, que está relacionado com manifestações dos nossos inimigos na terra. Os evangelhos estão cheios de relatos que Cristo expulsou demónios de várias pessoas afligidas. No entanto, a tendência actual é considerar estes relatos como apenas “curas” de pessoas com aflições psiquiátricas, que nada tem a ver com o maligno. Porém, eu respondo: se alguém falar com um padre exorcista, verá que, embora várias destas aflições sejam realmente derivadas de desequilíbrios mentais, há outras que desafiam qualquer explicação natural, pela força inusitada que pessoas possuídas podem ganhar e o conhecimento de línguas que nunca aprenderam, entre outros fenómenos.
Mas o que isso tem a ver com a homossexualidade?
Sem um conhecimento do que se passa nos “bastidores” da nossa vida, é impossível ter a noção de “pecado” e sem esta noção não há razão para que haja uma Moral Cristã. Tudo passa ser, basicamente, permitido, pois se não há uma batalha entre o “Bem” e o “Mal” absolutos, então deixa de haver verdades absolutas entre o que é “bom” e o que é “mau”. O “bom” e o “mau” passam ser definidas por cada pessoa, e assim o que hoje é “Mau” pode passar a ser “Bom” no futuro e vice-versa. Porém, se existe um “Bem” absoluto, que é Deus, e um “Mal” absoluto, que é o diabo e os seus sequazes, então as definições do “Bem” e do “Mal” são absolutas e eternas, não podendo ser alteradas jamais, por mais que queiramos, tal como 2 + 2 nunca será 5.
Mas então a homossexualidade é um mal?
Sim e não. A Igreja Católica não define uma Moral Cristã diferente para homossexuais e heterossexuais. A Moral Cristã é uma só e TODOS NÓS sem excepção temos o dever de a conhecer. Quanto a cumpri-la, isso já depende das nossas escolhas pessoais, e como qualquer escolha pessoal tem as suas consequências. A Igreja chama à santidade todos os homens e mulheres independentemente das suas condições sociais, raciais, familiares, afectivas, etc. A homossexualidade como orientação sexual não é um mal nem um bem em si, tal como ser heterossexual não é bom nem mau por si só. Porém, o que cada um faz dessa orientação, então isso já é algo diferente. Dou um exemplo: um homem heterossexual pode usar a sua sexualidade tanto para amar uma mulher, como para violentá-la. Ou seja, não é o “ser” que é o problema, mas sim o “fazer”. Assim, a Igreja abre os seus braços para todos, quer pecadores, quer “santos”, incluindo homossexuais e heterossexuais que têm relações sexuais que a Igreja não aprova. No entanto, essas pessoas não poderão comungar, pois tecnicamente essas pessoas estão em “pecado mortal“.
A sexualidade humana como um reflexo da Santíssima Trindade
Quando era mais jovem e me explicavam que nós somos feitos “à imagem e semelhança de Deus”, eu nunca percebia isso lá muito bem. De facto, conhecer Deus não é algo que se faça do pé para a mão e o que é Deus será sempre um mistério para nós, seres humanos, pois somos seres limitados e com uma inteligência também limitada. Porém, penso não estar muito errado ao pôr a questão da nossa semelhança com Deus com o facto de Deus ter uma personalidade, tal como nós temos a nossa. Uns são mais introvertidos, enquanto outros são mais extrovertidos. Uns gostam de rir e fazer os outros rir, enquanto outros são mais sisudos. Então qual é a “personalidade” de Deus? Podemos sabê-lo da maneira como Jesus caminhou na Terra. Jesus, claramente, tinha uma personalidade forte, direta e sem rodeios. Ele mostrava o Seu Amor pelos “pequeninos”, para os humildes, pelas pessoas que tinham fé n’Ele, pelos que O aceitaram e também pelos que O rejeitaram e O mataram, revelando o Infinito Amor que Ele tem por nós. No entanto, Jesus mostrou ser duro quanto baste, avisando das consequências (eternas) do pecado, em particular da hipocrisia e da cegueira espiritual, isto é, quando nós vemos claramente que algo é verdadeiro, mas que nos recusamos a aceitá-lo porque não nos convém. Foi isso que aconteceu com os fariseus e é o que acontece com tantos de nós, a começar por mim. Jesus mostrou também um pouco o que é a Santíssima Trindade. É uma comunidade de Amor em que o Pai gera o Filho e que o Espírito Santo resulta do Amor Infinito e de uma Profundidade Incompreensível entre o Pai e o Filho. Se nós estivéssemos no seio da Santíssima Trindade a nossa alma se despedaçaria completamente, pois não aguentaríamos a quantidade de amor que nos trespassaria como milhões de espigões de luz.
A sexualidade humana é um reflexo da Santíssima Trindade pois tem também a capacidade de gerar vida, uma nova pessoa, tal como acontece em Deus. É por isso que o Plano de Deus considerou a existência do homem e da mulher para se unirem e gerarem uma nova vida (ou mais). É por isso que os corpos do homem e da mulher são complementares, tanto a nível físico, como a nível genético (por ex., “imprinting”), fisiológico e psicológico. Esta complementaridade é tão forte que até, por vezes, mas nem sempre, é mimetizada em casais do mesmo sexo, em que um dos parceiros adopta uma personalidade mais “masculina” e o outro adopta uma personalidade mais “feminina”.
Em termos biológicos, podemos até dizer que o fim último da sexualidade de todo o ser vivo é obter descendência. Tal é verdade para uma bactéria, alga, fungo, planta ou animal. No entanto, a Igreja também nos ensina que os seres humanos são algo de especial no meio da criação. E porquê? Porque temos uma alma imortal e é pelo facto de termos uma alma imortal que nos também torna semelhante a Deus, pois tanto a alma como Deus são espírito e não algo material. A nossa semelhança com Deus ainda se tornou mais óbvia quando Jesus encarnou e assumiu um corpo humano e uma alma humana.
A sexualidade humana como algo sagrado
É pelo facto da sexualidade humana ter a capacidade de gerar uma nova vida humana, com um corpo e uma alma, que aquela se torna sagrada. Porquê? Porque a Igreja sempre defendeu que a Vida Humana é também Sagrada. É por isso que a Igreja declarou que o Matrimónio é um Sacramento, especialmente a partir do século XII. É por este facto que a Igreja sempre defendeu que qualquer acto sexual fora deste sacramento é “desordenado”. Assim, inclui tanto o acto heterossexual como o acto homossexual. Por isso, a Igreja continua a classificar o “viver juntos” (coabitação) como algo “desordenado” também. Ou seja, não há uma Moral Cristã para homossexuais e heterossexuais, pois tal seria injusto e persecutório. A Moral Cristã é a mesma para todos nós e ela é eterna e não pode ser modificada, porque a natureza humana também não pode ser modificada, por mais que queiramos. É por essa razão que nenhum papa, nem a própria Igreja, poderão um dia modificar a sua doutrina em relação ao matrimónio cristão, tal como um casal do mesmo sexo nunca poderá gerar nova vida, porque a biologia assim não o permite. Infelizmente, muitos de nós, a começar por mim, somos muito pouco humildes, e tornamo-nos rebeldes, pois não queremos aceitar os bons conselhos dos nossos pais. Queremos fazer o que nos dá na nossa “real” gana e não queremos que alguém nos aguce a nossa consciência. Nós sabemos quando fazemos algo de mal, bem lá no fundo, mesmo quando cobertos de pecados, mas só encontraremos a verdadeira felicidade, quando verdadeiramente nos entregamos a Ele e cumprimos a Sua Vontade, que é o Supremo Bem e, que é, sem dúvida, o melhor para nós.