IV. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo I

 

É preciso morrer para todos os desejos e as más inclinações da sensualidade.
Sobre a estreita vigilância dos sentidos

 

Não consintas em ler nem escutar rumores, novidades, histórias divertidas, nem coisas semelhantes que não servem à compunção, mas apenas satisfazem a curiosidade do espírito e imprimem no coração uma multitude de imagens e uma infestação de desejos.

Foge do trato familiar; do afecto e das conversas dos homens mundanos, ou seja, daqueles que amam as coisas do mundo—cujas palavras e feitos não edificam—e morre para o amor sensual a qualquer criatura.

Tem sobre o teu estômago um tal domínio que o dês apenas o necessário; não busques o prazer na comida, mas apenas o sustento da natureza por amor a Mim, pois se te faltam as forças não poderás servir-Me. Mais ainda, renuncia aos manjares requintados, que não são necessários nem úteis ao corpo.

Assim, pois, afasta-te, foge e sente horror de todas as delicadezas, prazeres e regalos da carne; esmaga em ti a concupiscência, mas não destruas a natureza.

As coisas que são necessárias e que, no entanto, não podem ser possuídas sem deleite, basta com que não busques nelas o prazer, mas que o faças por amor e obediência a Mim, que arranjei para o cuidado do teu corpo. Em consequência, atende às tuas necessidades corporais, mas não como quem quer obter prazer por meio delas, mas apenas como quem unicamente busca cumprir as suas necessidades mais elementares.

Em resumo: sujeita todos os teus sentidos de tal maneira de modo a que nem sequer se movam para coisas inúteis ou ociosas. Não queiras ver nada, nem sentir nada, excepto no que seja útil para a tua alma e para a Minha glória.

Cada vez que o homem segue o seu próprio apetite e o satisfaz voluntaria e livremente, seja na comida, ou na bebida ou outra qualquer necessidade natural, ou até no prazer do consolo espiritual, não pode estar isento de culpa, porque em todas estas coisas ele se busca a si mesmo e essa busca egoísta levanta uma barreira entre ele e Eu.

Assim, pois, não permitas que brote em ti nada que seja procedente do amor próprio e da própria vontade, por mais bom que pareça. Pelo contrário, convém que morras para todo o afã de possuir, de maneira que apenas a simples e nua caridade, junta à pura intenção de agradar-Me, sejam as únicas motivações da tua conduta.

III. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Breve Prefácio

Regra para viver segundo o espírito

Visto que, minha filha, os teus ouvidos e o teu espírito começam a prestar atenção às Minhas palavras, continuarei a falar-te sobre o que te faz tanta falta. Persevera, pois, na escuta e volve-te totalmente para Mim, para que Eu te encontre sempre disposta a obedecer-Me em todas as coisas. Reveste-te de um espírito novo e aceita a Minha vontade sobre ti. Quando a tua virtude não for suficiente, recorre à oração e pede com ela tudo o que necessitas. Diz:

«Livra-me, Senhor, dos meus inimigos, em Ti me refugio; ensina-me a fazer a Tua vontade, porque Tu és o meu Deus.[1] Não me abandones, Senhor, Deus meu, não fiques longe de mim, não me desprezes, Deus meu salvador. Vem em minha ajuda, Senhor Deus, minha salvação.[2] Desejo voltar para Ti. Leva-me após Ti[3] e não permitas que me volte a separar ou afastar do Teu lado.»

Escuta agora, filha, o conselho que dei, faz algum tempo, a um dos meus servos e dispõe-te também a cumpri-lo. O conselho era:

Arrepende-te, sê silencioso, humilde e manso, sereno.

Não há dúvida de que este verso não vale muito; mas a minha intenção não é fazer poesia, mas antes oferecer um remédio aos males da tua alma. Por isso, eu te digo:

Arrepende-te, sê silenciosa, humilde e mansa, serena.

Neste verso está resumido tudo o que necessitas; assim, poderás retê-lo facilmente na memória e meditar nele continuamente.

Eu quero que te vaques à santa compunção[4] e que cultives uma vida interior intensa. Afasta-te de tudo, entra em ti mesma e permanece aí comigo. Guarda o silêncio da tua boca e a pureza do teu coração. Sê mansa e humilde. No trato com os teus semelhantes, sê bondosa e serena. Para começar, examina-te a ti própria, olha para os cantos mais recônditos da tua alma, para que saibas que obstáculos encontra a Minha graça em ti, ou seja, o que há em ti que Me desagrada, a fim de que o corrijas e o faças desaparecer.

Vigia os movimentos do teu coração, onde vão e donde vêem, e onde descubras que a tentação é mais forte e mais frequente, opõe-te a ela com todas as tuas forças. Nas tentações em que te sintas mais débil, emprega remédios mais enérgicos. Evita, como pedras de escândalo, as ocasiões que te induzem ao pecado ou te impedem de avançar na virtude.

Esforça-te para Me ofereceres um coração puro, livre, incontaminado de todo o amor desordenado às criaturas, indiferente às coisas do mundo. Que o teu único desejo não seja senão unir-te cada vez mais a Mim. Por isso te exorto ao contínuo arrependimento, para que ele te guarde dentro de ti mesma. Porém, tens de saber que o dom da compunção só é obtido por um espírito recolhido, e este só é atingido por meio de uma vida retirada e interior. Vigia em ti, pois, os vícios, as concupiscências, as más inclinações, persegue-os com um esforço infatigável e morre para todos os desejos e afectos desordenados.

Muitos se queixam de que não são aptos para a vida espiritual e contemplativa, mas são a sua própria negligência e acédia[5] os principais obstáculos para a contemplação. Pois, com efeito, não só não querem combater o homem velho e fazê-lo morrer para as suas paixões, como também as fomentam e dissimulam em vez de as destruir. Por isso levam sobre as suas costas o pesado fardo dos seus trabalhos e penas.

Em troca, tu, Minha filha, se desejas possuir-Me, não faças paz com os teus vícios. Põe fim a toda a tua distração, inquietude e ocupações inúteis; deixa tudo o que não é proveitoso para a tua alma, para que te ocupes apenas de Mim. Não apliques ou impliques o teu espírito se não no que respeita à Minha honra e ao proveito da tua alma ou a do próximo.


 

[1] Sal 142, 9-10.

[2] Sal 34, 22-23.

[3] Cant 1, 4.

[4] Arrependimento de ter pecado (N. da T. Portuguesa).

[5] Falta de vontade ou preguiça espiritual (N. da T. Portuguesa).

II. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Jesus Cristo, Salvador de todos os homens, Rei do céu e da terra, sempre disposto a acolher nos Seus paternais braços aqueles que suspiram pela Sua graça e verdade, à Sua esposa, a alma que O ama, pela qual, querendo fazê-la Sua, Se entregou à morte: FELICIDADE VERDADEIRA.

Amada filha, Eu te falo frequentemente ao coração por meio de secretas inspirações, mas tu te mostras surdas a elas. Por este motivo, como geralmente a tua reposta às minhas palavras é de uma fria indiferença, o grande amor que sinto por ti Me obriga a escrever esta carta para que, ao menos lendo-a, recebas a mensagem que não te dignas a escutar. Pois o mesmo amor que noutro tempo me levou a entregar-me totalmente por ti não me permite agora omitir nada que contribua para a tua salvação. E embora te mostres completamente indiferente ao meu amor—pois o teu coração está inclinado ao exterior, a tudo o que é caduco e passageiro, e excessivamente apegado às criaturas—, Eu, porém, não posso deixar de te manifestar o Meu amor, amor muito maior que o de todos os pais do mundo juntos. Eu não me limito a oferecer-te somente a Minha graça e a Minha amizade, mas desejo ter-te por esposa e prometo cobrir-te, todos os dias, caso o queiras, dos bens mais preciosos.

Porém, tu, Minha filha, não prestas atenção às Minhas visitas e fechas os teus ouvidos às Minhas inspirações interiores, pois vives numa constante extroversão. Este é o motivo por que não sentes o mal que fazes e sejas alheia a ti mesma. Por isso, quanto menos choras o teu estado, com mais veemência deves ser chorada.

Que posso dizer-te, filha? Tu deverias ser a mestra das almas e a tua vida um exemplo para os errantes; o aroma da tua virtude devia ser medicina para os enfermos; as tuas palavras, como fogo devorador, deveriam inflamar os corações dos que te escutam. Em vez disso, tu, definhando no meio de banalidades, ocupada com uma multitude de coisas e apanhada numa rede de paixões nocivas, tens o coração disperso e inundado de imagens alheias. O amor próprio, no entanto, tem profundas raízes em ti; porém, recorda bem isto: se não morreres para ele, nunca entrarás no meu tálamo. Vês? Tu mesma precisas de aprender o que deverias ter ensinado aos outros.

Não tomes as minhas palavras como um sinal de rejeição. Tudo o que pretendo ao te escrever é fazer-te ver o quanto tu te afastaste de Mim e a que perigos e males te expões. Esta carta não é apenas um convite a que regresses, mas também um aguilhão para a tua consciência.

Onde quer que estejas, faças o que faças, te ocultes onde queiras, os Meus olhos, que escutam e conhecem todos os projectos, todos os movimentos e todas as intenções do teu coração, não se apartam de ti, e se descubro alguma infidelidade em relação a Mim, que tão fiel te tenho sido, tenho todo o direito de me sentir ferido. Como não me deveria sentir assim, se por tua salvação sofri amorosa e pacientemente tantas injúrias, insultos, penas e tormentos? Diz-me, filha Minha, quem suportou por um amigo, não apenas cruéis tormentos, mas tantas incontáveis e profundas humilhações que suportei por ti? Quando ainda me tinhas inimizade e nada de bom tinhas feito; quando ainda não me amavas e não me conhecias; mais ainda, quando ainda nem sequer existias, Eu já te amava e sofria por ti penas sem limite. Diz-me: Porque então tu Me rejeitas? Porque buscas a paz fora de Mim? Eras débil e inconstante. Se te abandono, quem se interessaria por ti? Quem cuidará de ti? Minha filha, porque te empenhas em te destruir?

Procura em toda a parte, fixa o teu espírito no objecto que queiras; Eu te asseguro: não encontrarás a paz, nem gozo, nem descanso, senão em Mim. Os teus sentidos te confundem, os teus amantes são-te infiéis e até tu te enganas a ti própria. Desprezas o antídoto e amas o veneno. Ai, minha filha, esposa minha! Bem sei que tantas vezes a beleza artificial e a vã fascinação deste mundo, com o seu atractivo amargo—pois te prometem um amor e fidelidade fingidos—turvam os teus sentidos e captam os teus afectos. Também não me escapa a facilidade com que eles se impõem e te afastam de Mim.

Amada filha, recorda que és minha esposa e que o teu coração me pertence por inteiro e que não deverias ter outro desejo a não ser exibir a tua formusura perante o teu Esposo, comprazeres-te e deixares-te amar por Ele. Eu estou aqui, desejando-te e esperando-te. Volve o teu coração e vira as tuas costas à vaidade, transpira devoção e exercita-te na humildade para que eu te julgue digna dos meus íntimos colóquios e te visite com as mais puras delícias.

Não te peço que demonstres o teu amor com uma multitude de obras. Não se trata disso. Apenas pretendo de ti o que um esposo apaixonado espera da sua esposa: um coração casto, fiel e puro, que me busque a Mim e não a si mesmo. Eu desejo um amor sincero, uma devoção fervorosa, ou seja, uma vontade pronta para Me servir livremente, e uma intenção sincera e pura de Me agradar em todas as coisas. Eu desejo um coração puro e livre de todo o amor alheio. E se Me desses essa oportunidade, encher-te-ia de graças e consolos maiores dos que tu te atreverias a pedir ou poderias imaginar. Eu sou um Esposo tímido que não Se atreve a aproximar-Se de ti quando te encontra ocupada com assuntos alheios e inúteis. Por isso, é preciso que estejas só.

Vê como Me apresento diante de ti: débil, como um despojo humano, estou à tua porta e te chamo [1]. Tremo de frio e de medo, como pouco antes de ser libertado da coluna a que me ataram e na qual, por amor a ti, fui flagelado e ferido sem compaixão. E, ao adoptar esta atitude, não tenho outra intenção que não seja gravar as Minhas chagas no teu coração, fundir-Me a ti num abraço de amor e, finalmente, aquecer-te no fogo das Minhas feridas ainda ardentes de amor por ti.

Oh, se Me reconhecesses como Esposo, se de verdade Me amasses! Não abririas de imediato, ansiosa por me acolheres, as portas do teu coração? Não cobririas a Minha nudez com o melhor dos vestidos? Não Me darias calor, qual verme a tiritar de frio? Se o fizesses, tornar-te-ias digna de experimentar de novo a ternura dos Meus doces abraços e o sabor puríssimo do Meu espírito.

Como gostaria que tivesses uma firme e verdadeira confiança em Mim, e que desejasses estar comigo como Eu desejo estar contigo! As minhas delícias é estar com os filhos dos homens [2]. Deste modo, experimentarias como se aumenta em ti a fortaleza de espírito e a autêntica doçura da mente. Esta confiança, no entanto, só pode subsistir através da desconfiança de ti mesma, e ambas—a confiança em Mim e a desconfiança de ti—nascem da mais preciosa de todas as pérolas: a pobreza de espírito. Porém, sei o que te mantém afastada deste precioso bem.

O teu coração, corrompido pelo amor a este mundo, está tão frio que despreza o alimento da alma: o Verbo de Deus. E se queres avançar na virtude, se queres fortalecer o teu espírito, deverias comer este alimento, digeri-lO e fazê-lO parte de ti. Mas como estás saciada pelo frio manjar deste mundo, das suas conversas e suas vaidades, como terás fome da Minha justiça? Em tais condições, diz-Me: como poderás sentir atraída por algo que respire devoção e piedade?

A simplicidade é para ti um incómodo e a santa meditação, uma perda de tempo. Mas deves saber que uma alma entorpecida pela sua fixação no que é terreno não pode elevar-se a Mim, pois por mais estímulos que lhe sejam dados, voltará imediatamente aos seus gostos terrenos. E que ganhas com isso? Que as vigílias te sejam amargas e o sono inquieto. Como não poderia ser assim para quem tem um coração disperso, um espírito inconstante, uma mente errante e um afecto profundamente enraizado no que é terreno?

E, entretanto, filha, queixas-te que, sem o Meu consolo, te sentes árida e estéril. Se isso se passa contigo, não é por negligência tua, mas por disposição Minha, como aconteceu a muitos dos Meus amigos. Não te deves inquietar caso não sintas a minha graça sensível. Porém, agora, por causa da tua preguiça e negligência, definhas numa aridez estéril. Se desejas gozar da Minha presença e do Meu consolo, se desejas unir-te a Mim, é preciso que deixes de buscar a tua felicidade fora de mim, que te vaques apenas a Mim[3], sempre atenta a discernir o que Me agrada e qual é a Minha vontade perfeita[4]. Ama-a com todo o teu coração e com todas as tuas forças, e deseja que ela se cumpra em todas as criaturas. Apenas procures fazer a minha vontade e unir-te a Mim. Se o fizeres, sentirás mais frequentemente a minha presença, e ela, por vezes, te fará experimentar a ebriedade espiritual, a alegria da boa consciência, a paz do coração e o dulcíssimo sabor da contemplação.

Se entrasses uma só vez na Minha adega! Como desejarias voltar a ela para saciar a tua sede! Porém, ninguém pode entrar nela a não ser aquele para quem Eu sou o objecto mais desejado, mais amado, mais valioso; aquele para quem Eu sou tudo em todas as coisas[5]; aquele que não sente nenhum consolo fora de Mim e que, ao mesmo tempo, se julga indigno do meu consolo; mais ainda, aquele que não crê que tenha qualquer direito a receber um tratamento favorável e se mostra constante, tanto na adversidade, como na consolação; enfim, aquele para quem, fora de Mim, todo o gozo é tormento e que, por isso, põe nas Minhas mãos o seu espírito e só em Mim descansa.

Estes, filha minha, são os Meus verdadeiros amigos. Se soubesses como me agrada bater à porta dos seus corações! Assim que me a abrem, Eu entro e me apresento a eles alegremente e lhes revelo os Meus segredos. É frequente Eu Me manifestar a eles de diversas formas, conforme seja necessário para estimular a sua devoção e amor.

Às vezes apresento-Me em seus corações completamente coberto de chagas, nu, ferido em todos os Meus membros e, para maior consolo do seu amor, permito-lhes tocarem nas Minhas feridas, lavando-as, enxugando-as, beijando-as, e aliviando-as com o seu calor. Esta devoção parece ridícula para os amigos deste mundo, porque não a conhecem; no entanto, ela Me agrada de sobremaneira e para os Meus amigos é muito proveitosa, porque então Me esqueço dos pecados da Minha esposa e os padecimentos que sofri para redimi-la, e aplico o Meu espírito a consolá-la e a iluminá-la.

Apesar de nada necessitar, desejo intensamente descobrir que a fidelidade da Minha esposa é tão grande que Me ama mais que as minhas criaturas, incluindo mais que a si mesma. Porém, tal como a fidelidade Me é agradável, a ingratidão é-Me odiosa, sendo a pior de todas as coisas. A ingratidão, até onde seja possível, renova as dores da minha Paixão e a angústia da Minha alma, provocando em Mim o sentimento da inutilidade de todos os Meus trabalhos, feitos com imenso amor. Por isso, em todas as tuas tribulações, sejam exteriores ou interiores, não recorras a pequenos consolos humanos, mas sim refugia-te em Mim. Não demonstres a tua dor aos homens, mas apenas a Mim, pois que podem eles oferecer-te senão palavras? Se tens um director espiritual ou confessor, longe de Mim proibi-lo, recomendo-te que exponhas todos os segredos do teu coração a ele e te deixes guiar pelo seu conselho; porém, não procures consolo exterior nisso, vencida pela paixão da impaciência, nem tentes fingi-lo perante os outros. Diz-Me em silêncio as tuas queixas que desejas expressar perante os homens; tem confiança e deixa tudo nas Minhas mãos; sê livre e sem preocupações, confia em Mim e encontrarás a verdadeira paz—que não se encontra onde a procuras e onde crês—e o verdadeiro consolo. Deste modo conformarás a tua vontade à Minha.

Ai, minha filha! Se em todas as situações difíceis da vida te deixasses instruir pela experiência e te acostumasses a dirigir os teus olhos apenas para Mim, a refugiar-te em Mim, a esperar em Mim pacientemente, a apoiar-te em Mim e a compreender, ao mesmo tempo, que te envio essas adversidades com um coração de Pai que ama o seu filho e que quer para ele o melhor, aceitarias confiadamente todas as tribulações, sabendo que procedem das minhas mãos paternais, e as preferirias a toda a alegria, incluindo a todo o consolo espiritual. E ainda que a alma não tirasse outro proveito que não seja o sentir que a Minha vontade se cumpre nela, bastaria esse sentimento para fortalecê-la e a encheria de gozo. À alma fiel é sempre mais consolador o cumprimento da Minha vontade, que o seu próprio interesse, ainda que a minha vontade jamais se realize se não para o maior proveito da alma.

Se queres guardar a paz do coração no meio da adversidade, ser-te-á uma grande ajuda ter sempre ante os teus olhos os padecimentos da Minha vida terrena, e conservar viva a sua recordação em teu interior. Se levasses esta recordação gravada em ti, todo o amargo tornar-se-ia doce. Por isso, medita na minha paixão e pede-Me com insistência e grandes gemidos que as feridas e a memória da Minha paixão se gravem no teu coração tão poderosa e eficazmente, que sempre que possas contemplar-Me cravado na cruz e identificares-te com a Minha dor: e que esta imagem te expulse do teu coração todas as outras.

Se com esta prática recuperares o teu olhar interior; se contemplares dentro de ti os padecimentos da minha crucifixão; se coberto de opróbrio e amargura me ouves gritar Elí, Elí, e vês que Meu Pai não me responde, então inflamada pela virtude da Minha paixão, conceberás o desejo de imitar-Me, sofrer por Mim e, privada de todo o consolo, servir-Me no desprezo e abandono. Queres saber quais são os Meus amigos mais fiéis, os Meus eleitos? Aqueles que Me servem com esse espírito de desprendimento, unindo-se a Mim por pura e simples caridade e perseveram na fidelidade com o único desejo de agradar-Me e que a Minha vontade se cumpra neles plenamente. E ainda que às vezes pareça que estejam no meio da mais absoluta aridez, assaltados por violentas tentações, inclusive desprezados e abandonados por Mim, é, no entanto, precisamente nessa altura que são verdadeiramente Meus, porque lutam por Mim sem receber salário, por puro amor, e não retrocedem ainda que os golpeie.

Porém, nem sempre os deixo neste abandono. E é pelo facto deles se terem despojados de seus afectos, por terem renunciado por Mim a todos os seus desejos e se terem renunciado por completo a si mesmos para entregarem-se a Mim, submetendo-se ao meu beneplácito, Eu não posso deixar de derramar nas suas almas e enchê-los da Minha presença, cuidando-os e infundindo-os com o meu consolo, o qual é cem vezes melhor, mais puro e mais suave que o consolo deste mundo, que eles desprezaram por amor a Mim. Isto—como te disse várias vezes e não me canso de recordar—não pode ser percebido por aqueles que buscam e recebem fora de Mim outros consolos distintos dos Meus. O Meu consolo é muito delicado e não se concede a quem admite outros. O Meu consolo é, de igual forma, puríssimo e, por isso, não pode misturar-se com os consolos que procuram as criaturas.

No entanto, porque te repito tantas vezes a mesma ideia? Para que sejas mais prudente, mais vigilante, mais circunspecta; para que não te deixes seduzir pelos corruptos prazeres terrenos; para que não te esqueças de Mim. Eu, porém, não posso esquecer-Me de ti, apesar de não ser Eu que necessite de ti, mas seres tu que precisas de Mim.

Desejo que estejas comigo e que desfrutes na minha companhia a felicidade plena. Porque não o faço—perguntar-Me-ias—se está em Meu alcance conceder-te essa graça para sempre? Respondo-te que é para teu próprio bem, para que cresças em virtude e em méritos, para maior proveito da tua alma e para que te tornes digna de uma glória maior. Com a ajuda da Minha graça, todas as ocasiões são oportunidades para crescer e enriquecer-te de méritos.

Que cegos e dignos de compaixão são aqueles que não empregam o tempo tão precioso da graça para honra minha e seu proveito, desperdiçando a sua vida e agravando a sua própria condenação! Se soubesses o quanto tu poderias crescer no espírito e quantos méritos poderias acumular a qualquer hora com a ajuda da minha graça! Se soubesses quão precioso é o tempo e quão condenável é o seu desperdício, estou seguro que o empregarias bem melhor, evitando que ele passe em vão sem qualquer fruto. Cada novo dia, até ao pôr-do-sol, experimentarias um gozo renovado perante a oportunidade que te é dada para Me prestares culto.

Assim, pensa a todo o momento e diz a ti mesma: «O Senhor, no Seu amor por mim, me concedeu esta hora, este momento. Prolongou até agora a minha vida para que, ao menos a partir deste instante, comece a converter-me a Ele e me esforce para O agradar.»

Filha minha, tem sempre a convicção que não fizestes mais que começar e que tudo o que fizestes até agora foi um puro nada. Todas as ocasiões, todas as ocupações, todo o tempo livre, qualquer circunstância que se apresente a ti são momentos únicos que podes empregar para glória Minha e proveito da tua alma.

Isto é suficiente. Até aqui te tenho exortado a renunciar às vaidades humanas, a fechar as portas dos sentidos, a recolher-te no teu interior e a virares-te para Mim. Não me resta mais que acrescentar mais uma regra de vida espiritual, regra que tu tens desejado muito por inspiração Minha.

Até ao dia de hoje conservas esse pudor que Me agrada e que te leva a ruborizar perante as tuas debilidades, quedas e negligências, assim como a sentir um profundo arrependimento por ter usurpado indignamente, durante tanto tempo, o nome de minha esposa. Porém, como vejo em ti um propósito sincero de recuperar a Minha graça, deves saber que é precisamente isso o que mais desejo. Pois que outra coisa poderia causar-Me maior alegria que conceder a minha graça aos pecadores? E quanto mais desejarei Eu recuperar a Minha esposa, apesar de se ter extraviado por entre suspeitas e receios? A Minha sede de te possuir é tão grande que Me digno a mostrar-te o caminho que deves seguir até à Minha morada. Vem a Mim, então, e dá-Me uma nova alegria com o teu regresso.

[1] Cf. Apóc. 3, 20.

[2] Prov. 8, 31.

[3] A expressão latina vacare Deo, “vacar a Deus”, denota uma atenção e uma entrega absoluta a Deus; estar vazio de tudo para dedicar-se “ao que é necessário” (cf. Lc 10, 42): a união com Deus (N. do Trad.).

[4] Cf. Rom 12, 2.

[5] Cf. Col. 3, 11.

I. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Escrita por Lanspergius no século XVI, esta obra encontra-se originalmente em Latim, traduzida mais tarde para o castelhano por Salvador Sandoval, fala de uma maneira intensa de como o Senhor Jesus poderia falar à nossa alma. Lendo-a, devido a uma penitência sugerida pelo meu guia espiritual, achei que todos deviam ter acesso a estas palavras e assim iniciei a sua tradução com a permissão da editora que publica a versão traduzida original. Assim, vou colocar aqui a primeira secção desta obra escrita por este monge cartuxo que é de uma inspiração de cortar a respiração. Parece que é mesmo Jesus que fala connosco. As restantes partes irei colocando neste blogue à medida que tiver tempo de as traduzir.

Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

por Johannes Justus von Landsberg (Lanspergius, Séc. XVI)

tradução para português da versão em castelhano realizada por Salvador Sandoval e editada por San Sebastian Editorial e realizada com permissão do editor

À Venerável Madre e Priora da Ordem Premonstratense em Herschberg, a todas as suas filhas e a toda a alma fiel,
carta ou colóquio de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

Espero, ó virgens, consagradas a Deus, que não haja ninguém com tanta falta de juízo que considere este colóquio, escrito em nome de Jesus Cristo, como pronunciado realmente pela boca do Senhor durante a sua vida mortal sobre a terra na companhia dos homens. No entanto, foi dado um tão glorioso título a este opúsculo, porque contém ensinamentos que procedem verdadeiramente de Jesus, como nos testemunha todos os dias a Sua divina inspiração. Estas inspirações, não só a alma as sente como se fossem sussurradas ao coração pela boca de Deus, como também podemos lê-las aqui como uma carta em que Deus se dirige a ela.

A mente do homem está mais disposta a escutar e a seguir estes ensinamentos quando os sente e os recebe, não da parte do homem, mas de Deus, dos quais verdadeiramente procede. Quem duvida que um ensinamento, seja ele qual for, é tanto mais persuasivo e facilmente aceite pelo leitor quanto maior for a dignidade de quem o transmite? Deste modo, sendo o nosso único desejo que os corações dos que lêem estas instruções sejam iluminados pelo espírito de Cristo, recomendamos a todos os que as lêem as considerem como verdadeiramente escritas por Ele, e não pela mão do homem. Assim, as receberão com a dignidade que merecem.

O espírito do homem, quando está unido ao seu invólucro carnal, necessita de ser estimulado no seu caminho para Deus por meio de formas sensíveis mais adequadas ao afecto humano. Penso que este é o motivo pelo qual a Igreja tem permitido uma tal variedade de cerimónias no culto público, cantos, ministérios e uma variada decoração dos templos. Além disso, pela mesma razão, não faltam nestes últimos imagens de Cristo e dos santos para que o povo, por meio delas, possa expressar a sua devoção e piedade diante de Deus. Estas imagens não são mais que sinais que nos convidam a recordar os benefícios de Cristo ou a imitar os exemplos de santidade que contemplamos, ou ainda para que, elevando a alma a Deus, adoremos, não um pedaço de madeira ou pedra, mas Aquele que se encontra nele representado.

Leiam, pois, esta carta com o mesmo sentido, isto é, como se o próprio Jesus Cristo a tivesse escrito, apesar de saberem que realmente não foi escrita, nem ditada por Nosso Senhor. De facto, tudo o que aqui se ensina, Jesus Cristo o sussurra interiormente, todos os dias, à alma fiel, a qual tem por esposa.

Deste modo, vós, virgens consagradas a Cristo, e vós, almas sedentas de Deus, ignorem o bulício do mundo, desprezando todo o saber profano e, como esposas de Cristo, leiam esta carta que o Esposo, por secreta inspiração, caso permaneçam atentas, vos dirige a todo o momento ao vosso coração. Nela, pois, podereis ler as palavras que escutam no vosso interior sempre que entram no mais profundo do vosso ser e aguçais bem os ouvidos da alma. Ela vos ensinará a viver em Deus recta e santamente, mostrando o caminho para a vida interior do espírito.

Quero escrever e dedicar este escrito à vossa santa Congregação, imitando o nosso bem-aventurado padre Dionísio Cartuxo, monge de outro tempo na Cartuxa de Roermond, varão não menos insigne pela sua santidade, que pela sua erudição, o qual escreveu na sua época vários tratados dirigidos às virgens consagradas a Deus e, de modo especial, às religiosas da vossa ordem. Estes são alguns dos títulos: Sobre a profissão das monjas, Sobre a mortificação vivificadora e transformadora do interior, Sobre o proveito espiritual e a guarda do coração. Também eu, como ele, experimentei as vossas mostras de afecto em várias ocasiões.

Portanto, como o vosso desejo é receber algum ensinamento santo e espiritual—pois de aí advém o vosso interesse em relacionar-vos com todos os espirituais que tenham alguma instrução—, quis satisfazer esse desejo na esperança de que o vosso pensamento, longe dos homens, se centre em Deus.

Assim, pois, pedi a instrução de Cristo e pensai que é Ele que nestes colóquios vos fala por meio de uma carta.