Capítulo III
Sobre a vida retirada e a sua necessidade para a vida interior.
Sobre a conveniência de não julgar os defeitos alheios
Evita o trato e a familiaridade com outras pessoas e, caso seja necessário o contrário para a Minha glória ou a salvação do próximo, permanece só. Na solidão revelar-Me-ei a ti.
Na solidão, no silêncio, na nudez e na simplicidade do coração prepara um lugar para Mim. Vive, pois, retirada de tudo, no silêncio e na solidão do coração, indiferente à próprias inclinações e ao ir e vir dos pensamentos e desejos. A vossa natureza quer sempre gozar de alguma consolação, e por isso se afadiga a procurar—umas vezes fora, outras vezes dentro—o seu descanso em outras criaturas. Daí vêm as distrações e a sua contínua dispersão.
Tu, pelo contrário, combate todas as inclinações da sensualidade e mantém-te só, apartada de todas as criaturas—sempre que a discrição, a obediência e a caridade ao próximo assim o permitam—, permanecendo constante na solidão exterior e interior.
Na medida do possível, procura não dar aos demais ocasião de um trato familiar, pois, ao fazê-lo, obstruirás em grande medida a vida espiritual, que apenas com o afastamento das pessoas e ocupações pode desenvolver-se com proveito.
Em contrapartida, onde quer que te encontres, entre as pessoas ou longe delas, permanece em teu interior, sozinha coMigo, apartada de todas as criaturas, incluindo de ti mesma, ou seja, do teu amor próprio e de toda a inquietude contigo mesma.
Imagina que estás só no mundo e que não há nada em que pensar. Não ocupes o teu pensamento em criatura alguma, nem fales com ninguém, excepto coMigo. Não examines o que fazem os outros, nem apliques o teu espírito em assuntos alheios. Se vês uma boa acção, deixa-te edificar por ela; se a acção é má, não a julgues. Não investigues, nem examines, nem julgues as palavras, feitos e costumes das pessoas cuja santidade não te edifica; mais ainda, prefere nem sequer ouvi-los ou conhecê-los, simplesmente ignora-os. E se os ouves da boca de outros e, como consequência, temes que a tua caridade diminua ou que a boa reputação e a tua estima pelo próximo se reduza, expulsa-os imediatamente do teu coração e da tua memória.