VI. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo III

 

Sobre a vida retirada e a sua necessidade para a vida interior.
Sobre a conveniência de não julgar os defeitos alheios

 

Evita o trato e a familiaridade com outras pessoas e, caso seja necessário o contrário para a Minha glória ou a salvação do próximo, permanece só. Na solidão revelar-Me-ei a ti.

Na solidão, no silêncio, na nudez e na simplicidade do coração prepara um lugar para Mim. Vive, pois, retirada de tudo, no silêncio e na solidão do coração, indiferente à próprias inclinações e ao ir e vir dos pensamentos e desejos. A vossa natureza quer sempre gozar de alguma consolação, e por isso se afadiga a procurar—umas vezes fora, outras vezes dentro—o seu descanso em outras criaturas. Daí vêm as distrações e a sua contínua dispersão.

Tu, pelo contrário, combate todas as inclinações da sensualidade e mantém-te só, apartada de todas as criaturas—sempre que a discrição, a obediência e a caridade ao próximo assim o permitam—, permanecendo constante na solidão exterior e interior.

Na medida do possível, procura não dar aos demais ocasião de um trato familiar, pois, ao fazê-lo, obstruirás em grande medida a vida espiritual, que apenas com o afastamento das pessoas e ocupações pode desenvolver-se com proveito.

Em contrapartida, onde quer que te encontres, entre as pessoas ou longe delas, permanece em teu interior, sozinha coMigo, apartada de todas as criaturas, incluindo de ti mesma, ou seja, do teu amor próprio e de toda a inquietude contigo mesma.

Imagina que estás só no mundo e que não há nada em que pensar. Não ocupes o teu pensamento em criatura alguma, nem fales com ninguém, excepto coMigo. Não examines o que fazem os outros, nem apliques o teu espírito em assuntos alheios. Se vês uma boa acção, deixa-te edificar por ela; se a acção é má, não a julgues. Não investigues, nem examines, nem julgues as palavras, feitos e costumes das pessoas cuja santidade não te edifica; mais ainda, prefere nem sequer ouvi-los ou conhecê-los, simplesmente ignora-os. E se os ouves da boca de outros e, como consequência, temes que a tua caridade diminua ou que a boa reputação e a tua estima pelo próximo se reduza, expulsa-os imediatamente do teu coração e da tua memória.

V. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo II

 

Há que dominar a língua para não ofender a Deus e ao próximo.
Há que guardar um redobrado silêncio

 

Filha minha, vigia atentamente a tua língua. Não digas nada, salvo quando seja necessário e quando tenhas meditado sobre isso previamente. E quando falares, emprega palavras justas, com modéstia, amavelmente e sem levantar a voz.

Na medida do possível, foge das ocasiões em que possas falar: evita, como se tratasse de um pecado mortal, todo o comentário pernicioso, difamador, murmurador, impudico ou polémico. Abstém-te, além disso, de piadas frívolas, de entretimentos inúteis, de gargalhadas estrondosas. Não pronuncies palavras ociosas e, caso te seja possível, nem sequer as escutes.

Para que possas evitar o vício da maledicência proponho-te que jamais fales dos ausentes, salvo para edificar os que te escutam. Quando veres que se fala de outros na tua presença, interrompe habilmente a conversação para outro tema, antes que as línguas daqueles que falam deslizem para a murmuração ou a crítica.

Evita principalmente de falar sobre aqueles que te ofenderam ou contra aqueles pelos quais não sentes uma caridade perfeita, nem permitas que alguém o faça na tua presença, pois é muito fácil cair na murmuração quando outros, para te consolar, te adulam e criticam os teus ofensores.

Por isso, tenta, sempre que possas, permanecer em silêncio. Digo silêncio não apenas de boca, mas também de todo o coração, para que o estrépito das concupiscências, a gritaria das paixões e a inquietude de todos afectos imperfeitos e das inclinações desordenadas não perturbem o teu interior. Igualmente não dês motivo a fantasias, imagens e representações interiores das coisas; pelo contrário, mantém-te em quietude e silêncio como se, esquecida de tudo, não pertencesses ao mundo, e ali fala somente coMigo, escuta-Me.

Não discutas com ninguém, nem tentes impor as tuas opiniões. Se vês que não consegues expor sossegadamente o teu ponto de vista, deixa a cada um o seu próprio juízo. Insisto: não discutas com ninguém e deixa em paz os pensamentos. Confia-los em Minhas mãos. Tu vive em silêncio.