VII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo IV

Não se deve julgar o próximo

Não tenhas má opinião de ninguém; mas caso vejas que uma má ação é cometida, pensa antes que ela foi permitida por uma secreta disposição minha, para que o seu autor possa adquirir por meio dela uma maior humildade e, no fim, o mal se torne num bem para a sua alma. Assim, não julgues, nem condenes, mas antes chora pela tua ingratidão, porque é unicamente por graça Minha que te impeço, quase à força, que cometas pecados bem mais graves que os dos teus semelhantes.

Quando presenciares uma má ação, acostuma-te a dizer: «Se essa pessoa tivesse recebido tantas graças como eu, certamente que serviria a Deus com maior fervor e ela seria bem mais grata que eu.» Pensa que, apesar disso, Eu a olhei com olhos de misericórdia e que prontamente ela se arrependerá e reparará a sua falta; ou talvez ela já se tenha arrependido e seja mais santa que aqueles que a condenam. Assim que penses mal do teu próximo, culpa a tua temeridade e repreende-te severamente.

O rancor, o ódio, a indignação e a inveja se dissimulam frequentemente sob a aparência de zelo. Por isso, quando o olhar está turbado pela paixão, não só se condenam rigorosamente os defeitos e negligências dos outros, mas também até as suas virtudes são consideradas vícios.

Quando estiveres furiosa, tem muito cuidado em não corrigires o teu próximo, de acusá-lo de alguma falta, de denunciar as suas negligências ou de escutar outros que o façam. Mais ainda, livra-te de feri-lo, confundi-lo ou entristecê-lo com palavras ou gestos mordazes. Não o humilhes com as tuas repreensões, nem mostres que a sua ação é manifestamente repreensível. Sobretudo, não o corrijas enquanto conservares em teu coração esse sentimento de desagrado, indignação, zelo desmedido contra ele e um vivo desejo de atirar-lhe à cara as suas faltas perante os outros. Pois o zelo da caridade e da pureza de intenção são incompatíveis com esses sentimentos. De facto, se tivesses esse zelo e essa pureza, te compadecerias do teu irmão e da tua irmã, e o desculparias ou ocultarias a sua culpa perante os outros. E mesmo quando a falta cometida fosse grave, sentindo uma viva dor, o corrigirias em segredo e rezarias por ele com um coração cheio de amor e misericórdia.

Filha minha, pensa mais no que te falta para se tornares digna de seres minha esposa, e no que respeita aos pecados alheios permanece surda, cega e muda. Como estaria uma rapariga casta ante um rei, sabendo que os olhos deste estavam continuamente fixos nela? Também Eu—recorda-o bem—estou presente em toda a parte e os Meus olhos jamais se apartam de ti, escutando e penetrando em cada um dos teus actos, pensamentos, afectos, palavras, movimentos, intenções e segredos do teu coração. Assim sendo, com que modéstia, com que pureza de vida e respeito deverás conduzir a tua vida na Minha presença?

Não tenhas a ousadia de fazer perante os Meus olhos o que não te atreverias a fazer perante uma pessoa de grande reputação e santidade. Sempre deves ter reverência e sentir em tua consciência a presença da Minha omnipotente majestade, para que ela te inspire o amor e o respeito que Me são devidos, e faça que te voltes solícita perante o Meu olhar. Assim agradar-Me-ás em todas as coisas.

Não deixes que a tua paz—a paz que tanto desejas—dependa das circunstâncias externas a ti, como por exemplo que ninguém te contradiga; funda antes a tua paz em mim e no testemunho de uma consciência limpa. Mortifica em ti esse apetite desmedido de seres amada e a satisfação que experimentas quando alguém te ama. Preocupa-te apenas em amar-Me e de tornares digna do Meu amor; e a tua relação com o próximo, vive justamente e ama-o em Mim.

Não andes preocupada pensando se os outros te amam ou não. Deixa isso em Minhas mãos. Foge de toda a familiaridade, especialmente com aqueles do sexo oposto. Filha minha, se tivesses tanto interesse—ou pelo menos um interesse não menor—em agradar-Me como tens em não desagradar os homens, a tua consciência experimentaria um gozo maior que caso o mundo inteiro buscasse a tua amizade.