Capítulo V
O combate contra os vícios e o
remédio contra as tentações
Sê forte e sagaz em combater e arrancar os defeitos da tua alma, por insignificante que te pareçam. Pois, se Me amas perfeitamente, qualquer coisa que Me possa desagradar parecer-te-á importante. Recorda-te do amor que Me professavas tempos atrás. Por amor a Mim deixastes e abandonastes pai e mãe, irmãos, irmãs, amigos, riquezas, honras e tudo o que o mundo costuma admirar; e depois a ti mesma, na flor da idade. Como, então, agora te deixas vencer pela mais leve tentação e por uma desagradável concupiscência? Sabes, por experiência própria, que és débil e negligente a combater as tuas imperfeições, a evitar os perigos para a tua alma, a fugir das ocasiões e do aguilhão do pecado, a renunciares à atração dos teus sentidos e à tua própria vontade. Em geral, resistes a corrigir os teus defeitos.
Apesar de tudo, arma-te de valor e com firmeza declara guerra aos teus vícios. Opõe dura resistência a tudo o que seja contrário à Minha vontade e não deixes de aproveitar qualquer ocasião para Me agradares. Igualmente, põe o máximo empenho em não interromperes ou protelares as obrigações próprias do teu estado; pelo contrário, cumpre-as assim que te peçam e põe nelas todo o teu esforço, atenção, fidelidade e devoção.
Mais ainda, sempre que te descubras em ti qualquer movimento de ira, inveja, luxúria, ou outras paixões semelhantes, cuida-te de não as exteriorizar com palavras ou gestos; resiste-lhes, domina-as, calca-as a teus pés, e assim as farás desaparecer.
O remédio mais eficaz contra todos os vícios consiste em permanecer prostrada a meus pés com profunda humildade em reconhecimento do teu próprio nada; entrega-te a Mim com plena confiança; invoca-Me com uma oração incessante, tendo consciência que, fora de Mim, não encontrarás nenhuma ajuda. Assim, fortalece-te a toda a hora e renova continuamente o teu propósito e considera-te sempre um principiante que apenas deu os primeiros passos.
Quanto mais a carne sente repugnância pelo trabalho, pela luta contra os vícios e os demais meios que, ainda que desagradáveis e adversos, são necessários ao exercício das virtudes; quanto mais se rebela a acédia frente ao esforço ascético, tanto mais energicamente terás de combater para vencer e mortificar as tuas paixões. Não te canses, nunca baixes a tua guarda, de modo a que o influxo da Minha graça não cesse também em ti.
Teme que, caso te dês por vencida e cedas à acédia, a Minha graça te abandone, e então vivas como um escravo, dando satisfação às tuas paixões e aos teus vãos desejos de uma paz aparente, e já não sintas o aguilhão da consciência e o sentimento de culpa. Tudo isto te acontecerá se a Minha graça te abandonar. Aqueles que vivem assim encontram-se numa situação gravíssima, pois no momento em que dizem “Paz” é quando lhes repentinamente virá a morte.
Por esta razão, luta com todas as tuas forças contra ti mesma. Com este combate que irás suster, deseja corresponder, na medida das tuas possibilidades, às penas e amarguras que sofri por ti durante a Minha vida e a Minha morte.
Não desfaleças na luta contra as múltiplas tentações, não cedas, não te tornes tíbia, não te deixes vencer nem pela cobardia, nem pelo desespero; antes persegue em ti todos os vícios com um ódio implacável. Cada vez que caíres do teu firme propósito, levanta-te e recomeça.
Filha minha, há em ti uma coisa que te prejudica gravemente e que Me desagrada. Olha—às vezes, por causa das tuas quedas e negligências, tornas-te tão pusilânime que começas a vacilar e quase a desesperar do teu nobre propósito inicial. Depois, sentando-te sozinha a um canto, sentes-te envolvida por uma grande tristeza e amargura, e em vez de te voltares para Mim, clamando que Eu te levante, dás como perdido tudo o que tinhas feito até então. Esta atitude é um sintoma evidente que, quando estavas de pé, confiavas excessivamente nas tuas próprias forças. No entanto, quando vês que a tua esperança não se cumpre e que as coisas não correm como tinhas previsto, sentes-te completamente confundida. Quero que me entendas bem—desejo que uses as tuas próprias forças, mas não confies demasiado nelas.
Por conseguinte, se não modificas o teu modo de ser no que respeita a isto, cairás frequentemente, até que entendas que quando alguém se apoia em si próprio é o mesmo que se apoiar numa cana meio partida.
Não desesperes nunca de Mim; antes, apoia-te em Mim com uma esperança firme e uma confiança inquebrantável. Porém, quando te digo para não confiares em ti mesma, não penses que te convido a renunciar à prudência, ao esforço, ao trabalho e a coisas semelhantes; muito pelo contrário, faz tudo o que esteja ao teu alcance, usa todos os teus recursos, mas—insisto—sem pôr nelas a tua confiança. Além disso, não atribuas nada a ti ou ao teu zelo, pois tu sozinha não consegues corrigir o mais pequeno dos vícios sem o auxílio da Minha força e da Minha graça.
Não será ao primeiro gemido e por causa de um simples combate que te infundirei imediatamente as Minhas graças, virtudes, dons, um rápido progresso e toda a santidade. Eu te exijo esforço, consciência da tua miséria, uma fidelidade inquebrantável na luta, esperança e confiança em Mim e uma insuperável e infatigável constância.