Capítulo VI
Sobre a necessidade da humildade e oração na luta contra os vícios.
Sobre a tentação da carne e como se pode lutar contra ela.
A tudo o que disse anteriormente, deves adicionar uma profundíssima humildade, que te levará ao verdadeiro conhecimento de ti mesma. Pela humildade, reconhecerás o teu próprio nada, não concederás mérito algum ao teu esforço e fervor, e considerarás como nada tudo o que fazes. A tua sede de santidade e todas as tuas boas ações atribui-as apenas a Mim. Se não estiveres consciente disso, cairás com frequência, até que aprendas o que podes esperar de ti mesma e o que podes obter da Minha graça.
Ainda que tenhas tentado tudo, filha Minha, não confies em qualquer remédio ou artifício fora de Mim. Eu jamais te abandonarei, não pelos teus méritos, mas somente pela Minha benevolência e caridade. E como te dei a vontade e a força para o combate, também te darei a coroa da luta, o triunfo e um fim glorioso. Isto é o que deves esperar, pedir e crer.
Deste modo, estejas em paz ou em guerra, em tudo o que faças e em qualquer situação em que te encontres, clama a Mim com uma oração incessante e espera perante as portas da Minha Misericórdia. A tua oração não desaparecerá da Minha presença sem ser atendida, ainda que sintas que nada recebestes. Frequentemente, a oração humilde e perseverante é-te mais proveitosa que receberes ou teres o que tu pedes. Não duvides: é-te mais útil confiar e esperar em Mim que sentir ou possuir.
Sê nisto constante, crescendo em todo o bom desejo e em amor ao bem; porém, se caíres, espera e confia no auxílio da Minha graça, que imediatamente te levantará. E não abandones a luta até que tenha passado o tempo de combater e receberes o fruto glorioso dos teus trabalhos.
Além disso, filha, os teus inimigos diminuirão na tua vida, o poder dos que te atacam se debilitará, e a Minha graça e a tua constância na luta te fortalecerão. Deste modo, o que a princípio te custava um enorme esforço em polir com uma lima, bastará depois um sopro da tua boca para fazê-lo desaparecer.
Enfim, no que respeita às tuas faltas, segue esta regra: cada vez que caíres, por maiores que sejam as tuas quedas, refugia-te em Mim imediatamente, atira-te aos Meus pés, desabafa comigo, e assim apoiada em Mim, levanta-te. Sobretudo, toma de novo a resolução firme de te emendares e de não voltar a cair nessa falta, e confia no Meu poder. Não desconfies de Mim, não tenhas medo; vem a Meu lado com toda a confiança. Sabes que Eu mostrarei todo o Meu amor, sairei ao teu encontro, te acolherei paternalmente e jamais te atirarei à cara os teus pecados. Conheço bem a debilidade do género humano; também conheço a tua, e sei que cair é próprio da fragilidade humana, como é próprio da maldade diabólica não querer permanecer em pé, nem querer levantar-se da queda. Esta última atitude não só não tem desculpa, como também será merecedora de uma condenação maior e não terá perdão.
Olha, minha filha, apenas desejo de ti uma boa vontade. Nada há mais precioso que a boa vontade. Por isso, se vês que te faltam as forças, a capacidade e o tempo para fazeres o bem, não desanimes, pois apenas a boa vontade Me basta. Conserva-a sempre. Na tua debilidade, ela remedeia tudo, repara tudo. Quando mais longe pensares que estás de Mim, é precisamente então que mais perto de ti estarei.
Assim, pois, minha filha, logo que a tua consciência te acuse das tuas faltas, reconhece-te culpada, e corre junto a Mim, e acusa-te na Minha presença. Entre o teu arrependimento e o meu perdão não há nem um segundo de intervalo. Porque então tardas tanto em voltar para o meu lado, esposa Minha? Não é fugindo de Mim, mas apenas refugiando-te em Mim, que alcançarás a salvação.
Surpreendes-te em teres-Me ofendido gravemente? Tens caído com maior frequência ultimamente? Enfim, encontras-te nos antípodas da virtude? Então clama com mais força, derrama ante Mim lágrimas fervorosas, suplicando o Meu perdão e a Minha proteção.
Não cedas à influência das tentações, antes resiste-as sempre até ao limite das tuas forças e não dês facilmente o teu braço a torcer. Enquanto opores resistência, não serás vencida.
Não te culparei por tudo o que sentes ou por tudo o que te vejas obrigada a sofrer, desde que, como te disse, o sofras contra a tua vontade, opondo resistência. Por isso, não julgarei o teu sentimento, mas sim o teu consentimento. O sentimento é a carne; o consentimento, por sua vez, é a vontade. A carne e os sentidos poderão sofrer o aguilhão da tentação, mas a vontade não pode ser obrigada a consentir.
Na tentação, temos que distinguir as coisas. Em primeiro lugar, os pecados e os defeitos a que te induzem a tentação não deverão ser consentidos de modo algum, pois perante tais tentações não te poderás resignar, mas sim combater firme e afincadamente. Em segundo lugar, está a fadiga, a aflição e a adversidade que hás de suportar como consequência da luta. Neste caso, arma-te com paciência e dispõe-te a sofrer durante o período de tempo que Eu julgue oportuno que sejas tentada. Não deves resistir a Mim, mas antes abandonares-te ao Meu beneplácito. É aos perigos da tentação que deves resistir.
Conheço, Minha filha, o que pensa o teu coração, pois não ignoro os teus padecimentos, nem qual a origem da tua aflição. Por isso, para que creias que é de Mim que receberás remédio e consolação, vou-te dizer o que tu não te atreves a confessar. A tentação da carne te oprime, já não em cada dia, mas a quase cada instante. Resiste-a sem desânimo. Sei que é difícil para ti; mas sem luta é impossível escapar.
Não julgues que largos anos de batalhas te tornam imunes às feridas. Isso seria muito difícil, quase um milagre. O inimigo está em nossa casa[1], e os levamos connosco aonde quer que vamos. Não o podes destruir; pelo contrário, até sentes em ti uma certa inclinação para o alimentar. As suas armas são muito diferentes; os seus ataques, muito variados; os seus assaltos, muito violentos. Alguns sentem o fogo e a irresistível atracção das paixões, a ânsia e a incitação convulsa ao prazer, como verdadeiras fúrias infernais. Juntam-se a estas fantasias, imaginações e deleites que assaltam violentamente quase todos os sentidos.
Em certas ocasiões, a instabilidade e a inconstância do coração são tão grandes em alguns que, quase no momento em que se preparam para a luta, são novamente arrastados para fora de si, e como se tivessem perdido a memória, pensam em coisas que antes não queriam pensar.
No meio de tantos perigos, me dizes: — Quem escapará? Quem fugirá imune ao pecado? — Sem dúvida, uma vontade boa e humilde, pois contra ela de nada serve a violência. Sintas o que sentires, a castidade não pode ser manchada sem o consentimento da alma: isto é, qualquer movimento que sintas na carne, se a alma não o consente, não te será imputado como pecado. Pois o pecado tem de ser voluntário para ser pecado[2].
Deste modo, sentes-te oprimida por grandes tentações? Encontras-te imersa na carne e cativa dos sentidos? Sentes na carne a atracção da sensualidade? Se o teu espírito, isto é, a tua vontade racional, se mantiver firme e não consentir, nada te fará mal. Grita com força, expressa com a tua voz e espírito da mais absoluta repulsa e horror, e diz: — Eu não quero, eu não quero. — Volta-te para Mim com todo o fervor do teu coração e repete amiúde esta jaculatória: Deus meu, ajuda-me[3]. Jesus meu, eu não quero, socorre-me.
Se ainda assim a fúria da tentação tornar-se mais forte, não te inquietes por isso. Assim que ela apareça, expulsa-a, que se vá por onde entrou, sem levar nada mais que o mal e a impureza que possa ter encontrado em ti, deixando a tua casa limpa.
Assim sucederá se te humilhares profundamente no conhecimento de ti mesma e se Me invocares somente com confiança e humildade, sem fazeres concessões a ti mesma, e sem deixares de perseguir os inimigos da tua alma.
Assim que sintas o assalto da tentação, toma imediatamente plena consciência do teu próprio nada e impotência, e refugia-te em Mim de todo o coração, pedindo o auxílio das Minhas chagas, aquelas que tanto teme o inimigo de longa data. Asseguro-te que não há remédio mais seguro para combatê-la.
Acredita, filha, não te inquietes pelo que sentes na carne e na tua sensualidade, nem pelo ímpeto dos pensamentos e da imaginação; se a razão superior os combate e a vontade racional se mantém firme e não consente, não perdestes o Meu amor e a Minha graça.
Interpreta esta opressão e aperto do coração que suportas na luta contra a tentação como um sintoma que ainda não consentistes plenamente. Este pensamento deve ser para ti motivo de consolo. Pois, efectivamente, se cedesses à tentação, ou seja, se sentisses o que sentes com a aquiescência da tua vontade e te deleitasses, também voluntariamente, nos teus pensamentos que se insinuam em ti, já não sentirias a pressão do combate, mas o sopor e a quietude de teres consentido.
Escuta, Minha filha, este exemplo para consolo teu. Imagina um soldado que, ao ser surpreendido em plena batalha pelo inimigo, é vencido e golpeado. Pois bem, se o tal soldado estivesse tão ferido que mal se pudesse mover, mas apesar disso, longe de se dar por vencido, continuasse a lutar com toda a sua força para se opor ao seu cativeiro, não poderíamos dizer que tivesse sido derrotado. Do mesmo modo, quando fores tentada pela carne e pelo demónio, não serás julgada como vencida, a não ser que consintas no teu espírito e deixes de opor resistência.
Não podes evitar que os sentimentos andem à volta do teu coração. Porém, não os consintas, ou seja, não os sintas voluntariamente e com agrado.
[1] Cf. Mt 10, 36.
[2] Cf. Santo Agostinho, De vera religione, XIV, 27.
[3] Sl. 108, 26.