Capítulo VII
As tentações são incómodas para uma vontade boa.
Sobre o prémio para quem resiste à tentação.
Como enobrece ser tentado de diversos modos.
Custa, me dizes, perseverar numa luta sem fim; custa renunciar aos desejos e aos pensamentos agradáveis; custa, enfim, de renunciar ao que se ama.
Filha Minha, a tua natureza compõe-se de dois princípios: carne e espírito. Daí procede a contradição que tem lugar em ti, pois tudo aquilo que deleita a carne repugna o espírito. Por isso, caso a carne resista a fazer violência e a odiar-se a si mesma, então que o espírito tome as rédeas e a domine, pondo o freio e subjugando aquele que é o seu inimigo.
A constância na luta torna simples e fácil o que ao princípio era penoso. Assim, pois, quanto mais resistência ofereceres, tanto mais forte ficarás e debilitarás o inimigo. Não sabes que o Reino do Céu sofre violência e os violentos apoderam-se dele à força? [1] Luta energicamente, pois quanto maior for o teu empenho e a constância do teu combate, tanto mais fácil se tornará cada vez que a tentação voltar.
Acrescenta ao ponto anterior o facto que tanto a luta, como a tentação, se acabarão num dia e que, em contrapartida, o vencedor receberá uma coroa que permanecerá eternamente. E quanto mais dura for a luta, mais gloriosa será a coroa da vitória. Por isso, se vences a tentação, terás um duplo prémio; pelo contrário, se não fosses tentada, receberias apenas um simples prémio.
Além disso, as tentações, quanto mais fortes forem, mais te purificarão dos teus pecados, sempre que te mantenhas firme em relação a elas e as não consintas. Tem em conta que num combate como este, quando a tentação, sobretudo a da carne, se torna mais forte, costumam-se cometer muitos pecados veniais, que são como feridas leves que recebem os soldados no campo de batalha. Apesar disso, a pena que se sofre na luta contra os vícios mortais apaga a pena devida a essas faltas veniais.
Igualmente, essa caridade que te leva, por amor a Mim, a defender-te das feridas mortais e a pelejar pela aquisição das virtudes não só sara as tuas feridas menores, como também, quando a tua vitória chegar a ser perfeita, as converte numa fonte de méritos e de glória para ti. São como as cicatrizes das feridas que um soldado exibe com orgulho, após ter participado num duro combate e ter alcançado a vitória.
Assim, pois, Minha filha, não tenhas medo se a luta se prolonga durante demasiado tempo e a tentação mantém todo o seu vigor. Ainda que a sensualidade não se deseje submeter ao império da razão, tu, em contrapartida, resiste, nunca cedas, nunca assines a paz com ela. Esta luta, este combate, será considerado por Mim como uma vitória. E não só é bom ter vencido o mal, como também ter resistido a ele com todas as forças. Mais ainda, às vezes é mais nobre e útil ter suportado por muito tempo os insultos dos homens e a dureza do combate, que ter obtido uma vitória rápida, especialmente quando a luta se prolonga por disposição minha — pois sempre tenho em conta o que é melhor para ti — e não por tua negligência ou preguiça. Eu, que sou a justiça e a sabedoria, observo atentamente tanto o esforço como a virtude dos meus soldados, e valorizo mais neles o querer do que o poder.
Com efeito, alcançar a vitória é dom da Minha graça; pelo contrário, querer vencer depende da tua vontade, ainda que necessite para isso da cooperação da graça. Portanto, ainda que para ambos os casos é necessário a ajuda da graça, querer o bem está, no entanto, mais ao alcance da tua vontade que poder realizá-lo. Esta é a razão porque valorizo mais o que queres do que o que tu podes. Pois é digno e justo que tu, que lutastes tanto tempo e entre grandes dificuldades, recebas um prémio proporcional aos teus trabalhos, e que não só esse prémio seja reservado para a vida futura, como também aqui em baixo recebas graça sobre graça.
[1] – Mt 11, 12.