Capítulo VIII
Deve-se fugir das ocasiões de tentação.
Os sentidos e os membros do corpo devem-se
manter afastados de toda a curiosidade.
Vigia-te estreitamente a ti mesma e não te exponhas ao perigo da tentação, pois, caso contrário, abririas caminho ao inimigo e te converterias na causa da tua própria perdição. Para evitar isto, foge de tudo o que estimula as tentações, refreia a deambulação dos sentidos e renuncia à familiaridade e amizades particulares com pessoas de ambos os sexos, pois o demónio disfarça-as muitas vezes com uma falsa aparência de devoção e amor espiritual. Essas relações trazem com elas tentações muito nefastas, como suspeitas, inquietudes, distrações e escândalos de um amor impaciente.
Se diante da tua casa tivesses um inimigo disposto a tirar-te a vida, por acaso o deixarias entrar? Não lhe fecharias a porta e lhe impedirias a entrada? Pois bem, quando imagens, pensamentos e afeições carnais ou viciosas pretendem entrar no teu coração e apagar a vida da tua alma, abrir-lhe-ias as portas? De modo nenhum! Expulsa esses inimigos da tua alma com força e aversão, exceto Eu.
Volta o teu coração para Mim, e quando sentires a tempestade a levantar-se na tua carne, afasta-o daí. Mortifica a tua carne ávida de prazer com a abstinência e a sobriedade da bebida e comida. Foge de pessoas, lugares e ocasiões que podem ser para ti motivo de tentação. Especialmente, tem cuidado em não utilizar os teus membros como armas de iniquidade[1]. Sujeita o teu corpo a uma disciplina tão rígida e a uma modéstia tal que, por zelo ao pudor e castidade, apenas te atrevas a tocar na nudez dos teus pés e das tuas mãos. Além disso, expulsa os pensamentos impuros e nefastos com santas meditações e com a recordação da Minha Paixão, tal como um cravo pode expulsar outro. O pensamento nas Minhas feridas e padecimentos dão à alma uma força extraordinária. Se dei a ervas, pedras e raízes propriedades para curar enfermidades, quanta eficácia não terei dado às Minhas chagas e padecimentos para curar e santificar a alma?
[1] – Cf. Rom 6, 19.