Capítulo IX
Como vencer as tentações espirituais e as blasfémias.
Filha Minha, é possível que no teu espírito apareçam pensamentos impuros e indignos contra Mim e os santos, assim como blasfémias e infidelidades; porém, se não lhe deres o teu consentimento, não te inquietes por isso, nem te deixes abater. Também não te deves preocupar em confessar tais coisas, pois te provocam mais pena que deleite, e as sofres mais com tristeza do que as recebes com bom grado. Além disso, uma boa consciência, uma alma límpida, não deve temê-las nem confessá-las, pois ela não escarnece ninguém, mas é escarnecida por elas.
Esses sentimentos obscuros causam, às vezes, uma enorme tristeza ao coração devoto da Minha esposa, que se vê obrigada a sentir no seu coração imagens e pensamentos contra Mim de tal maneira que encheria de horror os maiores pecadores. No entanto, essa aflição, em vez de manchar a alma, a purifica.
O diabo, ao ver que renunciastes a tudo para somente te unires a Mim, tenta perturbar a tua paz, lançado contra ti fantasias horríveis, com o fim de impedir que vivas unida a Mim. Por esta razão, quando mais sagrado for a ocasião, quanto mais ferverosamente te entregares aos exercícios de piedade, quanto mais perfeitamente tentares unir-te a Mim, tanto pior e mais inoportunos serão esses pensamentos, seja por instigação do diabo, seja por um temor desmedido. Com efeito, assim que o medo se apodera de um homem, este sente de imediato aquele que lhe provoca temor, pois o medo e a fraqueza geram e provocam a imagem do que se sente.
Outra cilada que o diabo prepara é a seguinte: à medida que dás luta e te opões a esses sentimentos, ele tentar privar-te das delícias do Meu amor, inspirando-te um falso sentimento de culpa que te impede de aproximar de Mim. Ele assim faz porque te vê envolta numa nuvem de escrúpulos e de inquietudes que perturbam o teu descanso.
Porém, não faças caso, não tenhas medo, não respondas a essas sugestões, não lhes oponhas resistência, não lhes prestes atenção; pelo contrário, persevera nos teus exercícios devocionais, como se não sentisses nada, como se o teu espírito não tivesse reparado nelas, e deixa passar todas essas funestas distrações como se fossem latidos de cães ou grasnados de ganso, aos quais não se deve prestar a mínima atenção, nem gastar um único segundo a lutar contra elas. Se fizeres o que te digo, escaparás facilmente e esquecerás essas imagens. Pelo contrário, se te empenhares em lhes fazer frente, temendo-as, analisando-as e escutando-as, elas ficarão cada vez mais impressas na tua memória e te envolverá uma grande inquietude. Pois não é combatendo-as, mas sim desprezando-as, que se alcança vitória sobre elas.
Vela para que a tentação não te vença pela sua importunidade ou pelo tédio provocado por uma grande resistência. Esta é uma maquinação do diabo para atormentar com uma grande tentação aqueles a quem ele não consegue enganar com a sua astúcia, nem seduzir com o prazer. O diabo insiste até que por astúcia e tédio ele consegue vencer a alma.
Nesse caso, necessitas de te armar com longanimidade, perseverança e paciência. Pois, por um lado, deves abominar essas blasfémias que o diabo sugere contra Mim e que não são mais que um puro artifício de sedução; por outro, não recebas com desgosto a aflição que tens de suportar por desígnio da Minha Providência, nem tentes fugir do esforço que supõe a luta contra a tentação; antes, sim, suporta pacientemente por amor a Mim, sem que nenhuma queixa saia da tua boca.
Já deves saber que a melhor maneira de vencer as tentações da carne, como a gula e a luxúria, não é lutar com elas, mas sim evitá-las; as tentações espirituais, no entanto, não podem ser vencidas se não com uma forte resistência e por meio de atos de virtude opostos a elas.
Assim sucede com a soberba, que não se debilita nem se consegue vencer se foges das ocasiões de te humilhares, ou seja, se não enfrentas a tentação da soberba com atos de humildade. Por isso, se queres vencê-la, insiste e não percas a ocasião de te humilhares.
Também vencerás a inveja se reagires prontamente contra o que te ela sugere, isto é, se falares com o teu irmão, se o servires e se te humilhares perante ele.
O mesmo acontece com a preguiça, que não se vence fugindo do trabalho ou do culto divino, nem evitando que recebas ordens para trabalhares; antes obriga a ti própria a realização de obras divinas e virtuosas.