Capítulo XV
Quão necessária é a discrição em todas as coisas;
como temos que fazer tudo de acordo com a discrição dos superiores;
com quanta discrição tem de ser governada toda a natureza e
como alguns, por falta de discrição, a destroem
Que a humildade e discrição dirijam e moderem todos os teus exercícios. Isto evitará que te condenes e te tornes inútil, e que não evites os melhores bens do espírito por outros exteriores, corporais ou menos nobres. Procura não prejudicar a caridade por te exercitares numa só virtude. Atende também a debilidade do teu corpo, ao esgotamento das tuas forças, e submete os teus projetos, afãs e exercícios à direção de alguém que seja temente a Deus, o do teu superior, deixando-os, diminuindo-os, aumentando-os ou moderando-os segundo o seu critério e vontade. Por isso, se o teu superior, que é o pastor da tua alma, atuar em Meu lugar e em Meu nome, te proibir de jejuar ou fazer qualquer outra coisa de sua vontade, desde que não seja pecado, obedece-o incondicionalmente, confiando em quem, por te conhecer, julga com retidão o que é nocivo ou necessário para a tua salvação. E se oito vezes ao dia te mandar comer, e tu lhe obedeceres, não Me ofendes. No entanto, que não diminua em ti o teu desejo de jejuar quando te seja permitido fazê-lo por tua própria vontade. E se comes por obediência, ao comer terás dupla recompensa; casos jejuasses, terias apenas recebido uma recompensa simples. Pois a vontade de jejuar e o fruto da boa vontade não se perdem, caso comas por obediência, enquanto que pela observância da obediência terás um duplo prémio: o da vontade e o da obediência. E o mesmo sucede em todas as coisas que se desejam de boa vontade, mas somente aquelas de que nos abstemos por obediência
Busca, ama, cumpre e promove, quando e onde possas, a Minha glória e a Minha graça. Não descuides nenhuma boa obra que possas fazer, mas antes esforça-te por progredir, crescer continuamente e aproveitar a vida do espírito. Mas no meio de todos estes esforços e desvelos, no meio das tuas boas obras, não fiques satisfeita nem te consoles a ti mesma como se tivesses, fosses ou pudesses fazer algo por teus próprios meios; fixa antes sempre os olhos na tua insignificância, atribuindo a Mim todo os bens.
Há quem não se conforme em suportar o que lhes imponho, mas antes se carregam com abstinências e penitências indiscretas, com as quais não só se tornam incapazes e débeis para Me obedecer e seguir o Meu caminho, e para afrontar a luta espiritual, mas também, fatigados e abatidos pela sua indiscrição, se vêm obrigados a interromper os exercícios que tinham empreendido para atender aos desejos da carne. Assim, pois, modera os teus exercícios e fatigas de acordo com as tuas forças, para que não te destruas a ti mesma ou te debilites em excesso.
Por este motivo, para que não te descuides o teu sustento, agrada-Me que cuides do teu corpo e restaures as tuas forças, não pelo desejo do prazer, mas, como te disse, para fortalecer a natureza e servires-Me nela. Deste modo, tornas-te num instrumento da Minha graça, estando apta para o Meu beneplácito e para o Meu serviço. No entanto, está sempre disposta a aceitar a abundância e a penúria, a saúde e a doença, segundo a Minha vontade.
Contudo, desde que a tua enfermidade não te obrigue, por discrição, a cuidar do teu corpo, vencida pela impaciência, a tibieza ou o amor próprio, não procures subterfúgios para te escapares ou te livrares das adversidades e das provas que te envio, mas antes abraça-as com alegria, suportando-as com paciência, sem queixas, sofrendo-as de ânimo constante e esperando-Me. Deixa tudo em minhas mãos para que a Minha graça opere algum bem por meio da tribulação que se tenha abatido em ti. Esta é bastante melhor e mais frutífera que aquela que te impões a ti mesma pela tua própria vontade. Quero te assegurar, filha Minha, que jamais permitirei que caia sobre ti tribulação alguma que não te trague algum bem e que te renove o espírito, sempre que tenhas confiança e te abandones em Mim, suportando-a em silêncio e esperando-Me pacientemente. Pois venho continuamente, não estando nunca longe de ti, mas antes estou muito próximo, sempre a teu lado e inclinado para ti. Por isso, procura não recusar o que te envio. Eu te dirigirei; confia na Minha direção e providência, e apoia-te em Mim e não na tua própria vontade. Deixa-te crucificar por Mim e pelos teus semelhantes; porém, não castigues em ti a carne, mas apenas os vícios e suporta com paciência tudo o que te acontece.