XVIII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XV

Quão necessária é a discrição em todas as coisas;
como temos que fazer tudo de acordo com a discrição dos superiores;
com quanta discrição tem de ser governada toda a natureza e
como alguns, por falta de discrição, a destroem

Que a humildade e discrição dirijam e moderem todos os teus exercícios. Isto evitará que te condenes e te tornes inútil, e que não evites os melhores bens do espírito por outros exteriores, corporais ou menos nobres. Procura não prejudicar a caridade por te exercitares numa só virtude. Atende também a debilidade do teu corpo, ao esgotamento das tuas forças, e submete os teus projetos, afãs e exercícios à direção de alguém que seja temente a Deus, o do teu superior, deixando-os, diminuindo-os, aumentando-os ou moderando-os segundo o seu critério e vontade. Por isso, se o teu superior, que é o pastor da tua alma, atuar em Meu lugar e em Meu nome, te proibir de jejuar ou fazer qualquer outra coisa de sua vontade, desde que não seja pecado, obedece-o incondicionalmente, confiando em quem, por te conhecer, julga com retidão o que é nocivo ou necessário para a tua salvação. E se oito vezes ao dia te mandar comer, e tu lhe obedeceres, não Me ofendes. No entanto, que não diminua em ti o teu desejo de jejuar quando te seja permitido fazê-lo por tua própria vontade. E se comes por obediência, ao comer terás dupla recompensa; casos jejuasses, terias apenas recebido uma recompensa simples. Pois a vontade de jejuar e o fruto da boa vontade não se perdem, caso comas por obediência, enquanto que pela observância da obediência terás um duplo prémio: o da vontade e o da obediência. E o mesmo sucede em todas as coisas que se desejam de boa vontade, mas somente aquelas de que nos abstemos por obediência

Busca, ama, cumpre e promove, quando e onde possas, a Minha glória e a Minha graça. Não descuides nenhuma boa obra que possas fazer, mas antes esforça-te por progredir, crescer continuamente e aproveitar a vida do espírito. Mas no meio de todos estes esforços e desvelos, no meio das tuas boas obras, não fiques satisfeita nem te consoles a ti mesma como se tivesses, fosses ou pudesses fazer algo por teus próprios meios; fixa antes sempre os olhos na tua insignificância, atribuindo a Mim todo os bens.

Há quem não se conforme em suportar o que lhes imponho, mas antes se carregam com abstinências e penitências indiscretas, com as quais não só se tornam incapazes e débeis para Me obedecer e seguir o Meu caminho, e para afrontar a luta espiritual, mas também, fatigados e abatidos pela sua indiscrição, se vêm obrigados a interromper os exercícios que tinham empreendido para atender aos desejos da carne. Assim, pois, modera os teus exercícios e fatigas de acordo com as tuas forças, para que não te destruas a ti mesma ou te debilites em excesso.

Por este motivo, para que não te descuides o teu sustento, agrada-Me que cuides do teu corpo e restaures as tuas forças, não pelo desejo do prazer, mas, como te disse, para fortalecer a natureza e servires-Me nela. Deste modo, tornas-te num instrumento da Minha graça, estando apta para o Meu beneplácito e para o Meu serviço. No entanto, está sempre disposta a aceitar a abundância e a penúria, a saúde e a doença, segundo a Minha vontade.

Contudo, desde que a tua enfermidade não te obrigue, por discrição, a cuidar do teu corpo, vencida pela impaciência, a tibieza ou o amor próprio, não procures subterfúgios para te escapares ou te livrares das adversidades e das provas que te envio, mas antes abraça-as com alegria, suportando-as com paciência, sem queixas, sofrendo-as de ânimo constante e esperando-Me. Deixa tudo em minhas mãos para que a Minha graça opere algum bem por meio da tribulação que se tenha abatido em ti. Esta é bastante melhor e mais frutífera que aquela que te impões a ti mesma pela tua própria vontade. Quero te assegurar, filha Minha, que jamais permitirei que caia sobre ti tribulação alguma que não te trague algum bem e que te renove o espírito, sempre que tenhas confiança e te abandones em Mim, suportando-a em silêncio e esperando-Me pacientemente. Pois venho continuamente, não estando nunca longe de ti, mas antes estou muito próximo, sempre a teu lado e inclinado para ti. Por isso, procura não recusar o que te envio. Eu te dirigirei; confia na Minha direção e providência, e apoia-te em Mim e não na tua própria vontade. Deixa-te crucificar por Mim e pelos teus semelhantes; porém, não castigues em ti a carne, mas apenas os vícios e suporta com paciência tudo o que te acontece.

XVII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XIV

Com quanta devoção e reverência deve-se receber
o Sacramento da Eucaristia; da presença real de Cristo nela;
como os eleitos de Deus são provados acerca de isto

Quando te aproximares para receber o Sacramento da Eucaristia, não tenhas receio se não sentires uma devoção sensível, ainda que sejas assediada por tentações horríveis, sejas elas quais forem. A devoção sensível não é necessária, mas apenas a racional, a qual te proporciona uma fé clara acerca deste sacramento. Deste modo, apesar dos pensamentos blasfemos que acossam a tua mente, poderás mostrar a reverência devida, incluindo contra o que o teu coração sente, e encontrarás a tua vontade pronta a sujeitar-se a Mim, conforme à Minha graça. Filha minha, se tiveres uma devoção racional, pela qual o teu coração se arrepende dos seus pecados e se mostra firmemente disposto a não voltar a pecar e submeter-se em tudo à Minha vontade, então aproxima-te com confiança deste Sacramento, aproxima-te de Mim sem medo. Pois a devoção—seja racional ou sensível—, a virtude e a graça não se obtêm fugindo de Mim, mas aproximando-te de Mim.

Quanto mais triste e abatida te encontrares, incluindo no momento em que te dispões a confessar-te e a comungar, tanto maior deverá ser o teu empenho em acercares-te de Mim. Basta ter, como te tinha dito antes, a consciência limpa e uma boa vontade para te tornares mais forte, mais constante e mais fervorosa.

Não te inquietes se no instante da comunhão te invade um tal ataque de terror ou espanto que sejas incapaz de tomar a Hóstia e engoli-la, ou se sentes uma amargura como fel; não são estes os sinais seguros que te aproximastes do Sacramento indignamente. São a pusilanimidade e o medo arraigado em ti que dão origem a esta sugestão, que é muito forte nas mulheres. Sentes isso como se fosse real, mas que é apenas a consequência do teu medo. Porém, se afastares de ti essa pusilanimidade e essa agitação fantasiosa, desapareceriam a dificuldade e a opressão que te oprimem.

Eu poderia te libertar, sem dúvida, de todas estas tribulações, mas permito-as em ti e nalguns dos meus eleitos, porque sei que não há melhor maneira para os guardar da soberba—que é um vício muito comum nas mulheres—e mantê-los em humildade. Tem, pois, um ânimo forte e constante, afasta toda a pusilanimidade e as insinuações sibilinas da tua imaginação e, com a consciência tranquila e elevada a Mim, deseja-Me no Sacramento, procura-Me e recebe-Me como o amante mais bondoso, mais clemente, o mais misericordioso e o mais fiel; como protetor, redentor, libertador e salvador teu.

Para que em ti aumentem a veneração, o amor e o desejo, tem consciência que o Sacramento é o Meu corpo que te é dado a comer sob a forma de pão. Este é o Meu próprio corpo, o mesmo que possuo glorificado no Céu, não outro semelhante, mas o mesmo. E como não tenho um corpo sem sangue e sem alma, é necessário que neste corpo estejam a alma, o sangue, as graças e as minhas virtudes. E como a todas elas está unido o Verbo, isto é, uma Pessoa da Trindade, inseparável das outras duas, então podes concluir que toda a Trindade está presente neste Sacramento, não menos verdadeiramente que no Céu, ainda que escondida sob a espécie sacramental. O mesmo pensamento é verdade para o Sacramento do sangue.

Vê, pois, com quanto amor e devoção deves receber-Me neste Sacramento. Nele tens a verdadeira salvação e me possuis perfeitamente, fonte da tua felicidade; e Eu, para que um excessiva reverência ou o temor não te afastassem de Mim, ordenei-te que aproximasses e me tomasses em memória de Mim.[1] Eu disse que as minhas delícias é estar com os Homens[2], que a Minha alegria é lhes fazer o bem, e que chamo à porta do vosso coração e, entrando, cearei convosco[3] e vos fortalecerei, dando a Mim mesmo como alimento. Porque faço todas estas coisas se não para que tenhais esperança, confiança e desejo de vos aproximarem de Mim? Não quero que vos priveis do Sacramento tão rico e necessário, cujo fruto é infinito, por coisas que sentis contra a vossa vontade e, portanto, sem pecado.[4]

[1] – Cf. Lc 22, 19.

[2] – Prov. 8, 31.

[3] – Cf. Ap 3, 20.

[4] – Cf. Santo Agostinho, Da Verdadeira religião, PL 34 123.