XX. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XVII

Sobre a pobreza de Cristo; como deve ser meditada
e imitada; e que coisas há que se opõem a ela

Contempla agora mesmo a Minha pobreza e como sendo rico Me fiz pobre por ti[1]; como vim ao que era Meu, e os Meus não me receberam[2]; como fui estrangeiro e pobre sobre a terra; como a Minha mãe, desterrada em terra estranha, Me deu à luz num estábulo[3] e, ali recostado no feno, só a respiração dos animais me protegia do frio; fui redimido com a oferenda dos pobres[4], e quando ainda menino fui forçado ao exílio[5] e fui criado com o trabalho dos Meus pais; depois fui mantido por esmolas e não tinha casa nem morada própria. Várias vezes passei a noite nos montes[6]; na Minha Paixão fui despojado das Minhas roupas[7] e morri nu na cruz, sem que houvesse uma gota de água com que, na minha ardente sede, pudesse aliviar a secura da Minha língua[8]; depois da morte fui enterrado num sepulcro emprestado[9].

Além disso, quantas vezes crês que padeci de fome, sede, frio e outros desconfortos do corpo? Os alívios corporais, que a maioria julga indispensáveis, eu os recusei, escolhendo viver numa pobreza absoluta. Porém, tu que tens à tua disposição todas as coisas orgulhas-te de ser pobre; e tendo tudo, ainda te queixas quando te faltam algumas coisas que são mais supérfluas que necessárias. Por isso, contempla a Minha pobreza e deixa de te entristecer, deixa de te indignares se vês outro que é preferido a ti, ou que lhe é dado mais abundantemente. Porque não te entristeces antes—o que seria uma santa emulação—ao ver que há outro mais pobre que tu, como fazia São Francisco, ou quando ouves que algum é mais conforme que tu à Minha vida e à Minha pobreza, sentimento que deves ter de todos? Que santa emulação seria esta se não te afligisses pelo bem que tem o outro, não que seja melhor que tu, mas antes porque tu não és boa e que isso te sucede por tua culpa?

Por isso, alegra-te e recebe como sinal certo da Minha graça, como grande benefício e dom singular, se te carrego com uma enfermidade, pobreza, humilhação e desprezo. Todos estes são os meios que uso para te tornar mais semelhante a Mim. Alegra-te se te faltam as coisas necessárias ou se te abandonam, não te queixando de ninguém. Antes, com o coração tranquilo e silencioso abraça a cruz da Minha pobreza, negando-te a ti mesma e permanecendo silenciosa.

De que te serve, filha, ter deixado o mundo, riquezas e amigos, se por causa de uma agulha perdes a calma, por ainda não te teres libertado do amor ao que vale tão pouco? De que te serve se, por possuíres essas coisas de somenos importância, em vez de as deixares, guerreias, entristeces-te, discutes, não te importando com a paz e a caridade ao próximo? Por isso, escolhe já e propõe-te firmemente a desprezar tudo isso por amor a Mim, não querendo possuir nada a não ser o que seja estritamente necessário. Suporta com amor a pobreza, a humilhação e a penúria para que possas Me possuir, pois como sou melhor e mais útil que mil mundos, assim devo ser mais desejado.

Porque te demoras, filha? Conforta-te com o Meu exemplo, incendiando-te de amor por Mim e, em tudo o que a Mim respeite, guarda zelosamente a pobreza e a penúria de todas as coisas. Além disso, considera todos os homens dignos de consolo, como servos fiéis meus, melhores que tu e não tão ingratos como tu. E com o estímulo da caridade e urgência da compaixão, daquilo que de ti dependa, para que nada falte a ninguém, ajuda a todos com o teu trabalho, serviço e favor. Tudo o que tens considera como alheio, de forma a que não o possuas, ou que não sintas dor caso o percas. Considera que tudo o que tens te foi dado para o uso dos demais.

[1] Cf. 2 Cor 8, 9.

[2] Cf. Jo 1,11.

[3] Cf. Lc 2,7.

[4] “Quando terminar o tempo da sua purificação, para um filho ou para uma filha, [a mulher] apresentará ao sacerdote […] um cordeiro de um ano, como holocausto e uma pomba ou uma rola, como sacrifício pelo pecado. […] Se não tiver meios para oferecer um cordeiro, tomará duas rolas ou duas pombas, uma para o holocausto e outra para o sacrifício pelo pecado (Lev 12, 6-8). Cf. também Lc 2, 24.

[5] Cf. Mt 2, 13-15.

[6] Cf. Lc 6, 12.

[7] Cf. Mt 27,28.

[8] Cf. Jo 19, 28-29.

[9] Cf. Mt 27, 59-60.

XIX. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

 

Capítulo XVI

De que modo e em que coisas a esposa fiel deve
conformar-se a seu Esposo Jesus Cristo

A esposa fiel tem de amar tanto o seu esposo que nunca deseje estar sem Ele ou longe d’Ele. Em tudo deseja se conformar a seu esposo e é feliz quando se assemelha a Ele. Assim deves fazer também. Examina atentamente a Minha vida, os meus atos, as minhas virtudes, e aprende com eles, pois é o que amo e que me compraz em ti. Se queres ser a Minha esposa, ó alma, nada deves desejar tanto como Me agradares e conformares-te a Mim. Aonde que Eu vá, acompanha-Me; qualquer coisa que faça, esforça-te por a imitares; em qualquer coisa que tenha padecido, se a ocasião for propícia, alegra-te por te tornares conforme a Mim. Examina agora cada uma das Minhas virtudes, ou ao menos as principais, para estimular-te a imitá-las. Ao princípio, será árduo o labor de mortificar e extirpar tudo o que é contrário à Minha vida: os vícios, as más inclinações, os hábitos corruptos. Mas como te disse antes, com tenacidade e perseverança, conseguirás arrancar de raiz, como através de um leve sopro, o que poderias apenas apagar com uma lima de ferro.