XXIII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XX

Sobre a indiferença ante os elogios, críticas e juízos dos homens; o que se deve fazer com eles e as características dos amigos de Deus

Não percas tempo ao estar preocupada com a opinião que os homens têm sobre ti e como te julgam. Se, segundo as tuas possibilidades, atuas sabiamente e não te tornas para eles um escândalo, que seria motivo de uma justa censura, não deves temer o seu juízo. Pois nem os elogios te tornam melhor, nem as críticas pior; tu és o que és aos Meus olhos. Por isso, não te exaltes com o elogio alheio, nem te entristeças com a crítica. Que te aproveita o elogio alheio? Absolutamente nada, pois na maioria das vezes o dano que te causa é maior, pois faz-te crer que és algo de especial e tua vaidade não tem limites. Pelo contrário, que mal te podem causar o desprezo, a injúria, a humilhação, a censura, a condenação e a perseguição por todos os homens? Nada, certamente. Muito pelo contrário, são-te altamente proveitosos porque te empurram para o conhecimento de ti mesma e contribuem um pouco na aquisição da humildade e emenda de vida e dos costumes. Deste modo, aprenderás a viver mais cauta e prudentemente entre os homens, e a não depositar a tua esperança neles, mas antes em Mim.

Portanto, os juízos dos homens não te devem preocupar, tanto aqueles que são feitos em tom elogioso, ou em tom de crítica. Deixa-os falar, deixa-os opinar. Dirige-te, antes, ao Meu coração, examina a tua consciência, e se não Me ofendestes, nada temas.

Se vês que me ofendestes, chora, mas não porque os homens te desprezam — pois tal deves suportar e desejar como algo merecido —, mas antes por Me teres ofendido e teres dado ocasião aos teus semelhantes de pecarem. Porém, se te elogiam ou criticam por uma ação inocente, recebe os elogios ou as críticas como se fossem dirigidos a outro. Se os homens te elogiam, considera que eles estão errados ou são benevolentes demais para contigo; se te acusam ou condenam, não estranhes isso. Que há de estranho se os homens censuram a tua vida, a desprezam e a condenam, quando condenaram a Minha vida inocente, limpa de toda a mancha, em que nada havia de repreensível, e desprezaram a Minha doutrina? Alegra-te, antes, de teres chegado ao caminho da humilhação e abjeção, e de sofrer perseguição por parte dos homens. Deixa-os maquinar o mal contra ti, que Eu o converterei em bem; limita-te a ser paciente e a guardar silêncio.

Em todas as coisas, procura agradar-Me e não aos homens. Se agradas aos homens, pensa que a sua opinião sobre ti é falsa, porque te não conhecem como Eu te conheço, mas antes te julgam pelas aparências e com ingenuidade. Se os desgostas, atribui-o aos teus deméritos e aproveita para te humilhar ainda mais. E se te desprezam pela tua insignificância, que sucederia se os homens te conhecessem verdadeiramente, se vissem os teus pecados e defeitos como Eu os vejo?

Ama, pois, de seres tida por vil e desprezível, e nunca julgues que és mais desprezada do que deverias ser. Deves, antes, considerar-te a mais miserável, a mais indigna, a mais ingrata de todas as criaturas e a mais necessitada da Minha graça e da Minha misericórdia; reconhece que, sem Mim, não és senão um puro nada e que todas as tuas obras carecem de valor. Pensa que não há ninguém tão mau que não seja melhor e mais digno do Céu que tu. Persuade-te que os outros realizam ações com mérito e que tu és tolerada por Mim apenas pela Minha misericórdia.  Por isso, não ouses a te comparar com ninguém, mas antes crê que és a mais pecadora de todos os homens, e a mais vil e ingrata a Mim; porque tudo o que vem de ti, ou não vale nada, ou é pecado.

Crer estar acima dos outros ou preferir-se a si próprio aos outros pelos dons que de Mim recebeu é próprio de uma soberba intolerável e insolente. Para te protegeres dela, retiro-te os dons mais sensíveis, pois não sabes fazer uso deles a não ser para te ensoberbeceres, quando nada deverias te atribuir, mas antes deverias tudo imputar a mim. Vela, pois, para que nada desejes por egoísmo, mas apenas por amor a Mim, de modo a evitar que, por soberba, Me sejas ingrata ou abominável pela tua negligência. Olha para o teu nada, e com que rapidez és vencida, pois se não te defendo, se não luto por ti, és incapaz de suportar a mais leve adversidade ou fazer frente à mais débil tentação, não podendo evitar de corromper com o teu pecado todo o bem.

És demasiado inclinada a criticar os outros, o que é indício seguro de arrogância, como se tu fosses melhor que aqueles que criticas. E, talvez, seja verdadeiro que não tens o vício do qual acusas os outros, mas tens outros. Por isso, de modo nenhum te consideres melhor que ninguém; mais ainda, te tornas muito mais detestável pela tua língua, que é sinal manifesto da tua arrogância invejosa. Os Meus verdadeiros amigos acusam-se a si mesmos e não olham para os pecados alheios, mas antes olham para os seus. Olham as suas obras e para eles mesmos com suspeita; não confiam em si mesmos, pois sabem por experiência que se têm enganado em muitas ocasiões. Temem sempre em não Me procurar com pureza absoluta; além disso, admiram e louvam as obras dos outros e negam-se a alimentar suspeitas sobre o próximo. Com essa mesma disposição, limita-te a louvar os outros ou dando desculpas por eles; ou, ao menos, guarda silêncio, tendo imediatamente presente a teus olhos a tua baixeza e ingratidão, admirando-te de não seres detestada e desprezada por todos os homens.

Filha Minha, não podes adquirir a humildade se não amas ser humilhada, pois a humilhação precede a humildade. Tudo aquilo que te acontece recebe-o da Minha mão como humilhação tua. Ama ser humilhada e desprezada pelos outros. Deixa que murmurem contra o teu bom nome. Permanece em silêncio e confia em Mim. Eu defenderei a tua honra melhor que tu. Se defenderes a ti mesma, não necessitarias da Minha proteção; se te calas humilde e pacientemente, Eu responderei por ti no momento oportuno. Não te antecipes a Mim, dando desculpas. Eu lutarei por ti, e tu guardarás silêncio.

XXII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

 

 

Capítulo XIX

Em que consiste a verdadeira humildade, e como se obtém;
quais são as causas da humildade e quão necessária ela é

 

Para obter a humildade, contempla a Minha majestade, omnipotência, sabedoria e bondade. Apenas Eu sou imortal imenso, infinito, inabarcável, inefável, incompreensível. De Mim, todas as criaturas recebem a sua existência. Com um gesto da Minha vontade, posso reduzi-las a nada com toda a máquina do universo, e de novo, com uma ordem Minha, restituiria à existência cada uma delas. Na Minha grandeza, não por necessidade ou indigência, mas antes por Meu amor e liberalidade, as criei criaturas racionais à Minha imagem, para cobri-las com a Minha bondade e dar-lhes a Minha beatitude. Por vós, que afastastes da Minha graça pelo pecado e tornastes indignos da vida eterna e réus do fogo do Inferno, encarnei e durante trinta anos padeci fome, sede, frio, calor, fatigas, penas, perseguições, desprezo, insultos, açoites, feridas, dor e, por fim, a cruz e a morte, tudo isto para vos resgatar da morte eterna.

Filha Minha, vivi na terra, não como Deus, não como um poderoso, não como um triunfador; vivi como o mais pobre, o mais vil, o último e o mais desprezível de todos os homens, exposto ao sofrimento e aos insultos, até que atingi o fim dos Meus dias com a morte mais desonrosa, da que o mundo me achou digno, como se a Minha vida e a Minha doutrina fossem para todos — tal era a opinião do mundo — uma forma de peste que tinha de ser apagada da memória dos homens; e tudo isso na presença de uma multidão que proferia insultos contra Mim.

Como a corça suspira pelas águas correntes[1], filha Minha, assim Eu corri para a morte, ébrio de amor por ti. Não Me poupei a nenhuma fadiga, dor ou pena. A nada Me poupei que fosse conveniente para ti, pois eras para Mim tão nobre, tão preciosa, que por ti ardia de desejo de entregar a Minha alma à morte e oferecer o Meu corpo às feridas. Além disso, como tinha uma sede ardente da tua salvação, quis derramar o Meu sangue até à última gota.

Que Me dás em troca disto, filha? Que Me ofereces em troca de tanto amor? Não és tu a mesma ingrata que Me despreza há tantos anos? Que tem aversão à Minha Palavra, que sente fastio de cantar os Meus louvores, que transgride os Meus mandamentos? Sendo tu tão arrogante para Mim, tão imunda e vil, tão suja e cheia de abominações, como te permites expulsar-Me do teu lado, desprezando as Minhas inspirações, prostituindo-te com as criaturas, e abusando dos Meus dons? Depois de te libertar tantas vezes dos teus pecados gravíssimos e até mesmo da condenação eterna, na qual justamente terias ardido há já muito tempo se a Minha misericórdia não tivesse intervindo; depois de te preservar ainda de tantos delitos e do abismo do pecado, porque Me desprezas e abandonas? Porque o fazes, sabendo que sem Mim não eras se não vil, miserável, um nada? Como te atreves a levantar o rosto para Mim, a quem tantas vezes ofendestes, e durante tanto tempo desprezastes? Digo-te isto para que te conheças a ti mesma.

Considera o quão vil e imundo está o teu corpo, quão suja está a tua alma e impuro o teu coração; enfim, quão indignas são as tuas obras, malvados os teus pensamentos, imundos e impuros os teus afetos. No entanto, ainda assim te suporto, ainda derramo sobre ti os Meus bens, ainda te amo. Porém, durante quanto tempo? Até quando aguentarei? Quando te conhecerás a ti mesma? Quanto mais tempo demorarás a voltar a Mim? Porque não te humilhas? Não vês que não posso manter por mais tempo a Minha misericórdia? Não vês onde te chamei, e onde te estabeleci? Onde estão os teus frutos? Não te dás conta de como dissimulo todas as tuas maldades e ingratidões? Porém, não te digo isto em tom de censura, mas antes como se morresse de amor por ti, como se tivesse falta de ti — apesar de nada precisar —, como se não pudesse viver sem ti. Apenas pela Minha bondade e Meu amor te convido a que correspondas com amor ao Meu amor. Deste modo, amando, sentirás o que és tu e o que Eu sou, o quanto Eu fiz por ti e com quanta ingratidão me tens pago.

Considera, ainda, que no Inferno há um sem número de almas que teriam merecido menos a condenação que tu se não tivesses sido prevenida pela Minha graça, pois se aquelas almas tivessem recebido uma graça igual à tua, te venceriam em gratidão. Se tornasses consciente da Minha majestade e da tua baixeza, se medisses a soberba com que exibes a tua baixeza e a humildade que há na Minha majestade — pois por humildade Me rebaixei por amor a ti —, seria-te menos penoso ser humilde. Se refletisses, insisto, em que estado de pobreza, abjeção e desprezo, Eu, sendo tão poderoso, rico e excelso, imenso em majestade e infinito em bondade, te servi, pobre e vil homenzinho, com tanto amor, fidelidade e desejo, nasceria no teu coração tal reverência por Mim e tal veneração à Minha majestade que não poderias expressar por palavras.

Além disso, nasceria em ti um desejo insaciável e uma sede ardente de honrar-Me, venerar-Me, exaltar-Me e, ao mesmo tempo, de te humilhares, te desprezares, e por amor a Mim, de te submeteres a todas as criaturas, suportando os insultos, o desprezo e as injúrias de todos. Por muito que te humilhasses, por muito que suportasses, estimarias em nada o teu sofrimento, devido à sede e ao desejo que terias de te humilhar e de Me exaltar; mais ainda, amarias de forma especial aqueles que mais te oprimem e desprezam, porque ao humilhar-te serviriam o teu desejo de humildade.

Filha Minha, se ainda não tens em ti estes sentimentos, reconhece quanta é a tua ingratidão perante Mim e quão longe estás da verdadeira humildade, que é uma profunda inclinação do coração ante a Minha divina majestade, a que segue o desprezo de si mesmo e o desejo de ser considerado como nada e de ser desprezado por todos.

Te exorto de novo, filha, a que fixes os teus olhos na Minha humildade e a tomes como modelo. Vê como o mundo desprezou, caluniou e reprovou a Minha vida e a Minha doutrina; como menosprezou as Minhas palavras; quantas injúrias, zombarias, desprezos e escárnios tive que suportar, como se fosse um malfeitor, por parte dos mais vis entre os homens e a favor das mais vis e ingratas criaturas; escarnecido e tratado como o opróbrio dos homens, não desprezei ninguém, não arranjei desculpas, não Me defendi. Vê também tu que eras digna de ser desprezada, pela tua dureza, negligência, pecado, ingratidão, inconstância, vileza e insignificância. Geme, chora, acusa-te antes com lágrimas constantes.

Todo o que te ocorra converte-o em humildade. Não te compadeças de ti mesma; pelo contrário, admira-te que possas agradar a alguém que te conheça bem. Dirige constantemente os olhos do teu coração ao teu não ser e ao teu não ter; considera que nada és, e o que deverias ser, não és; igualmente, que não tens e que não podes, quantas coisas te faltam e que longe estás da verdadeira e perfeita caridade e da perfeição dos santos, dos quais existe um abismo que te separa deles; considera também que nada tens de bom, mas antes que é de Mim que recebes todos os bens.

Além disso, isto é tudo o que podes esperar de ti: pecar, fazer o mal, desfalecer, passar necessidades, destruir e arruinar todos os Meus dons e os Meus bens. Pois há uma coisa certa: se eu abandonasse a natureza humana na sua liberdade e inclinações, nada de bom seria de esperar dela. E assim é, pois apesar das Minhas advertências e proibições, a mente humana se precipita para o mal. E o que é a natureza humana? Nada. Nada tem de si e ao nada tende. Se tivesses sempre presente este pensamento, bem te ajudaria a adquirires a virtude da humildade.

Apesar disso, deves ter uma humildade não menor por esses defeitos ocultos e desconhecidos para ti, que muitas vezes são graves, ainda que não os vejas. Por causa deles, atira-te aos pés da Minha misericórdia e chora, com o coração, a debilidade e a irrefreável inclinação ao pecado que há em ti. E não tenhas outro sentimento sobre ti a não ser o facto de estares coberta de pecado, sendo cega e a mais ingrata de todas as criaturas.

[1] – Sl 41, 2.