Capítulo XX
Sobre a indiferença ante os elogios, críticas e juízos dos homens; o que se deve fazer com eles e as características dos amigos de Deus
Não percas tempo ao estar preocupada com a opinião que os homens têm sobre ti e como te julgam. Se, segundo as tuas possibilidades, atuas sabiamente e não te tornas para eles um escândalo, que seria motivo de uma justa censura, não deves temer o seu juízo. Pois nem os elogios te tornam melhor, nem as críticas pior; tu és o que és aos Meus olhos. Por isso, não te exaltes com o elogio alheio, nem te entristeças com a crítica. Que te aproveita o elogio alheio? Absolutamente nada, pois na maioria das vezes o dano que te causa é maior, pois faz-te crer que és algo de especial e tua vaidade não tem limites. Pelo contrário, que mal te podem causar o desprezo, a injúria, a humilhação, a censura, a condenação e a perseguição por todos os homens? Nada, certamente. Muito pelo contrário, são-te altamente proveitosos porque te empurram para o conhecimento de ti mesma e contribuem um pouco na aquisição da humildade e emenda de vida e dos costumes. Deste modo, aprenderás a viver mais cauta e prudentemente entre os homens, e a não depositar a tua esperança neles, mas antes em Mim.
Portanto, os juízos dos homens não te devem preocupar, tanto aqueles que são feitos em tom elogioso, ou em tom de crítica. Deixa-os falar, deixa-os opinar. Dirige-te, antes, ao Meu coração, examina a tua consciência, e se não Me ofendestes, nada temas.
Se vês que me ofendestes, chora, mas não porque os homens te desprezam — pois tal deves suportar e desejar como algo merecido —, mas antes por Me teres ofendido e teres dado ocasião aos teus semelhantes de pecarem. Porém, se te elogiam ou criticam por uma ação inocente, recebe os elogios ou as críticas como se fossem dirigidos a outro. Se os homens te elogiam, considera que eles estão errados ou são benevolentes demais para contigo; se te acusam ou condenam, não estranhes isso. Que há de estranho se os homens censuram a tua vida, a desprezam e a condenam, quando condenaram a Minha vida inocente, limpa de toda a mancha, em que nada havia de repreensível, e desprezaram a Minha doutrina? Alegra-te, antes, de teres chegado ao caminho da humilhação e abjeção, e de sofrer perseguição por parte dos homens. Deixa-os maquinar o mal contra ti, que Eu o converterei em bem; limita-te a ser paciente e a guardar silêncio.
Em todas as coisas, procura agradar-Me e não aos homens. Se agradas aos homens, pensa que a sua opinião sobre ti é falsa, porque te não conhecem como Eu te conheço, mas antes te julgam pelas aparências e com ingenuidade. Se os desgostas, atribui-o aos teus deméritos e aproveita para te humilhar ainda mais. E se te desprezam pela tua insignificância, que sucederia se os homens te conhecessem verdadeiramente, se vissem os teus pecados e defeitos como Eu os vejo?
Ama, pois, de seres tida por vil e desprezível, e nunca julgues que és mais desprezada do que deverias ser. Deves, antes, considerar-te a mais miserável, a mais indigna, a mais ingrata de todas as criaturas e a mais necessitada da Minha graça e da Minha misericórdia; reconhece que, sem Mim, não és senão um puro nada e que todas as tuas obras carecem de valor. Pensa que não há ninguém tão mau que não seja melhor e mais digno do Céu que tu. Persuade-te que os outros realizam ações com mérito e que tu és tolerada por Mim apenas pela Minha misericórdia. Por isso, não ouses a te comparar com ninguém, mas antes crê que és a mais pecadora de todos os homens, e a mais vil e ingrata a Mim; porque tudo o que vem de ti, ou não vale nada, ou é pecado.
Crer estar acima dos outros ou preferir-se a si próprio aos outros pelos dons que de Mim recebeu é próprio de uma soberba intolerável e insolente. Para te protegeres dela, retiro-te os dons mais sensíveis, pois não sabes fazer uso deles a não ser para te ensoberbeceres, quando nada deverias te atribuir, mas antes deverias tudo imputar a mim. Vela, pois, para que nada desejes por egoísmo, mas apenas por amor a Mim, de modo a evitar que, por soberba, Me sejas ingrata ou abominável pela tua negligência. Olha para o teu nada, e com que rapidez és vencida, pois se não te defendo, se não luto por ti, és incapaz de suportar a mais leve adversidade ou fazer frente à mais débil tentação, não podendo evitar de corromper com o teu pecado todo o bem.
És demasiado inclinada a criticar os outros, o que é indício seguro de arrogância, como se tu fosses melhor que aqueles que criticas. E, talvez, seja verdadeiro que não tens o vício do qual acusas os outros, mas tens outros. Por isso, de modo nenhum te consideres melhor que ninguém; mais ainda, te tornas muito mais detestável pela tua língua, que é sinal manifesto da tua arrogância invejosa. Os Meus verdadeiros amigos acusam-se a si mesmos e não olham para os pecados alheios, mas antes olham para os seus. Olham as suas obras e para eles mesmos com suspeita; não confiam em si mesmos, pois sabem por experiência que se têm enganado em muitas ocasiões. Temem sempre em não Me procurar com pureza absoluta; além disso, admiram e louvam as obras dos outros e negam-se a alimentar suspeitas sobre o próximo. Com essa mesma disposição, limita-te a louvar os outros ou dando desculpas por eles; ou, ao menos, guarda silêncio, tendo imediatamente presente a teus olhos a tua baixeza e ingratidão, admirando-te de não seres detestada e desprezada por todos os homens.
Filha Minha, não podes adquirir a humildade se não amas ser humilhada, pois a humilhação precede a humildade. Tudo aquilo que te acontece recebe-o da Minha mão como humilhação tua. Ama ser humilhada e desprezada pelos outros. Deixa que murmurem contra o teu bom nome. Permanece em silêncio e confia em Mim. Eu defenderei a tua honra melhor que tu. Se defenderes a ti mesma, não necessitarias da Minha proteção; se te calas humilde e pacientemente, Eu responderei por ti no momento oportuno. Não te antecipes a Mim, dando desculpas. Eu lutarei por ti, e tu guardarás silêncio.