Nove maneiras de ser cúmplice do pecado

(adaptação livre e parcial de uma conferência
do Pe. Chad Ripperger, SMD)

 

Definição de pecado e os seus efeitos objetivos e subjetivos

O pecado é uma ofensa a Deus, uma violação da Lei de Deus. A Lei de Deus corresponde aos Dez Mandamentos.

Numa das passagens do Evangelho (Mt 19, 16-22), um jovem perguntou a Cristo: — O que devo fazer para obter a salvação?

Cristo respondeu ao jovem enumerando os Dez Mandamentos. Isto é importante referir, porque há pessoas que dizem que Cristo mudou os Dez Mandamentos, e que eles já não são válidos, mas isso não é verdade.

O pecado tem efeitos objetivos e subjetivos.

O pecado tem sempre consequências objetivas e, neste caso, não importa se temos consciência ou não de que estamos a fazer mal. Por exemplo, se provocarmos a morte alguém, mesmo que não tenha sido essa a nossa intenção, devido a um ato imprudente ou negligente da nossa parte, o efeito objetivo do nosso pecado mantém-se. Devido à nossa imprudência ou negligência, alguém morreu.

O pecado, porém, tem também consequências subjetivas, pois o pecado pode ter atenuantes, dependendo do grau de consciência de que estamos a fazer algo de mal.

Cumplicidade no pecado

Segundo S. Tomás de Aquino, nós podemos ser cúmplices do pecado por nove maneiras:

  1. Conselho – Se aconselharmos alguém a fazer algo que não devem, estamos a ser cúmplices do pecado. Por exemplo, se aconselharmos a alguém a viver junto com outa para verificar a compatibilidade do namorado ou namorada, torna-se cúmplice desse pecado por mau conselho.
  2. Ordem – Uma pessoa torna-se responsável quando ordena alguém a praticar um pecado. Por exemplo, se alguém ordenar o assassínio de outra pessoa, torna-se cúmplice desse pecado. O mandante poderia arguir que a pessoa que seguiu as suas ordens não estava obrigada a cumprir a ordem. Porém, esse argumento é inválido, porque tal ordem resultou no efeito objetivo da morte de alguém.
  3. Consentimento – Tornamo-nos cúmplices do pecado quando damos consentimento a alguém para fazer algo que sabemos que está errado ou que não é bom para essa pessoa. Hoje em dia, isso acontece muito frequentemente entre esposos e pais e filhos. A tentação é conceder algo a uma pessoa que está sob a nossa autoridade, porque ela assim o deseja. Nunca se deve fazer isso. A regra de ouro do nosso consentimento nunca deve ser baseada no que o outro quer, mas sim se isso é bom para ela e se isso a fará verdadeiramente feliz. Relacionado com isto está o pecado da “triangulação” cometida pelos filhos. É frequente, hoje em dia, um filho pedir algo ao pai ou à mãe e, se ele não obtiver o seu consentimento, vai pedir o mesmo ao outro progenitor, jogando os pais uns contra os outros. Outro pecado cometido pelos filhos é a “culpabilização” dos pais por estes não consentirem em algo. Por exemplo, acontece com alguma frequência os pais darem o conselho aos filhos de não se casarem com alguém que não é bom para eles. Os filhos respondem frequentemente que “se me amasses verdadeiramente, serias feliz por mim e aceitarias essa pessoa com quem quero casar”. Esta culpabilização dos pais visa a aceitação de algo que os pais sabem que está errado e que, por isso, não devem consentir. Quando consentimos algo que está errado, perdemos a nossa autoridade sobre a pessoa pela qual nós somos responsáveis. Por exemplo, se uma criança faz birra e insiste em querer algo, mas que pela sua insistência obtém finalmente o nosso consentimento, é nesse momento que perdemos a nossa autoridade sobre ela, pois ela saberá o que fazer no futuro para obter o que quer.
  4. Provocação Quando provocamos alguém a enfurecer-se, estamos a ser cúmplices desse pecado. Isso acontece frequentemente entre esposos e entre pais e filhos. O conhecimento mútuo permite-nos tocar nos pontos sensíveis da pessoa e enfurecê-la. A provocação é um pecado contra a caridade, porque em vez de querermos o bem dessa pessoa, estamos a provocá-la, sendo uma manifestação da nossa má vontade.
  5. Louvor ou bajulação Quando louvamos alguém por algo que está errado, ou pelo seu comportamento desregrado, tornamo-nos cúmplices desse pecado. Este pecado agrava-se pelo facto de nós estarmos a jogar com o orgulho e o respeito humano dessa pessoa. O respeito humano é quando nós nos importamos mais pelo que as pessoas pensam de nós do que a opinião que Deus tem de nós, em particular quando queremos algo dessas pessoas. Jesus é o exemplo máximo de alguém que não se importa com o que pensam d’Ele, mas sim sobre o que é a verdade e a justiça, de modo a que a pessoa se salve. A salvação do nosso irmão é mais importante do que ele poderá pensar de nós.
  6. Ocultação – Quando escondemos um pecado de outrem quando temos o dever de o divulgar, tornamo-nos cúmplices deste pecado. Isto não significa que esse pecado deva ser divulgado a toda a gente, mas somente às pessoas que têm o direito de o saber. Por exemplo, se uma pessoa comete adultério contra uma outra pessoa, esta última tem o direito de saber que essa injustiça está a ser cometida contra ela. Se essa pessoa falar contigo, e tu ocultares esse facto, negando-o após uma pergunta direta, tornas-te cúmplice desse pecado.
  7. Participação – Se alguém praticar algo errado e se nós nos juntarmos a essa pessoa nesse ato, tornamo-nos cúmplices desse pecado. Por exemplo, isso acontece quando participamos em atos de maledicência.
  8. Silêncio – Quando alguém comete um pecado à nossa frente e nada dizemos, tornamo-nos cúmplices desse pecado por omissão de conselho. Por exemplo, tal acontece quando alguém diz algo à nossa frente que não está correto, ou é uma blasfémia contra Deus, ou ataca Cristo e a sua Igreja, e nada dizemos. Porém, isso não significa que devamos ser precipitados, principalmente se não soubermos como responder naquele momento. Caso isso aconteça, devemos estudar o problema, formar a nossa opinião e depois falar com a pessoa, mas com caridade. Isto é importante, porque temos a obrigação moral de intervir, em especial quando alguém defende um mal. Por exemplo, se alguém disser à nossa frente que “basta duas pessoas se amarem para poderem casar”, temos o dever de intervir e corrigir isso. O fundamento do Matrimónio não é o amor entre duas pessoas, mas antes baseia-se na Lei de Deus e na Lei Natural, à qual a biologia humana adere. Isto não significa que não deva haver amor no casamento. Claro que sim, mas não deve ser a única razão porque duas pessoas se devam casar. S. Tomás de Aquino definiu algo muito importante para combater o silêncio culposo: a correção fraterna. Quando realizamos uma correção fraterna, devemos ter em conta os seguintes pontos:
  • Frequência – Não devemos estar constantemente a corrigir, porque se o fazemos vezes demais, essa correção torna-se ineficaz e essa pessoa deixará de nos ouvir; porém, se o fizermos vezes de menos, podemos tornar cúmplices desse pecado, especialmente se o pecado for grave.
  • Conhecimento da questão em causa – Nunca devemos corrigir alguém se não estivermos cientes de todos os factos; caso o façamos, podemos cometer um pecado contra a justiça.
  • Caridade – A correção fraterna deve ser sempre feita por caridade, pelo amor que temos pelo nosso irmão em Cristo, e não porque estamos zangados com ele ou que queremos que ele faça a nossa vontade.
  • Temperança e justiça – A correção fraterna não deve ser feita por perfecionismo. O importante não é que tudo esteja “perfeito” externamente, mas que o interior da pessoa esteja também bem ordenado. A correção fraterna deve ser feita com temperança e com sentido de justiça.
  • Pedagogia – Um controlo exagerado dos nossos filhos ou dependentes é algo errado. Este controlo exagerado é uma das causas mais importantes porque muitos filhos, hoje em dia, não conseguem lidar com o stress da vida, manter um emprego ou uma responsabilidade. Quando uma criança ainda não chegou à idade da razão (<7 anos), não lhe devemos justificar a nossa decisão. Porém, a pedagogia correta é premiá-la se fizer o bem, e castigá-la se fizer algo de mal. Assim, a criança desta idade terá os verdadeiros estímulos para corrigir o seu comportamento. É sabido que se uma criança não for bem educada antes dos 7 anos, será mais difícil corrigir o seu comportamento mais tarde, principalmente o seu comportamento moral. Entre os 6 e os 10 anos, já se pode dar razões da nossa decisão, em particular quando uma criança não obedece aos pais. Aliás, quando a criança não obedece aos pais, desde que a ordem seja razoável, comete o pecado da desobediência. Entre os 11 e os 14 anos, não devemos dar muitas razões da nossa decisão a um jovem, principalmente quando ele nos confronta. Quando isso acontece, devemos responder com firmeza: — Não é tempo para te dar razões, é tempo de obedeceres. É nesta idade que devemos aconselhar os nossos filhos de modo a que eles comecem a tomar as decisões certas por eles próprios e os preparar para a vida adulta. Quando eles atingem os 18 anos, em geral cessa a autoridade estrita dos pais. Se eles saírem de casa, já não se encontram moralmente obrigados a obedecer aos pais. Porém, estão ainda obrigados a respeitar e honrar os pais (4º mandamento). Porém, se os filhos ainda se encontram dependentes dos pais, vivendo e comendo na sua casa, ainda estão obrigados a obedecer aos pais e seguir as regras da casa.
  • Agravação do pecado – Não devemos corrigir alguém que sabemos que não vai se corrigir e que, se o fizermos, vai agravar a situação e confirmar o pecado dessa pessoa. Caso o façamos, tornamo-nos responsáveis por esse pecado, por ter sido uma correção imprudente. A prudência é a virtude de aplicar os meios corretos para um fim adequado. Quando não sabemos qual vai ser a reação de uma pessoa, podemos fazer uma pergunta indireta para testar as águas. Por exemplo, se alguém estiver a dizer algo a favor do aborto e se nós sabermos que essa pessoa se pode irritar se for contestada diretamente, podemos fazer uma pergunta indireta acerca da licitude de matar uma outra pessoa. Porém, se mesmo assim a pessoa se irritar, então devemos rezar por ela.
  • Hipocrisia – Não devemos corrigir ninguém de algo que nós próprios cometemos, senão seremos chamados de hipócritas e com razão. Primeiro temos que corrigir esse defeito em nós e só depois devemos corrigir o outro.
  • Humildade e Piedade – Quando corrigimos alguém, especialmente se essa pessoa é hierarquicamente superior a nós, devemos fazê-lo com humildade. Isto é particularmente verdade quando um filho corrige um progenitor seu. O dom da piedade corresponde ao respeito que devemos aos nossos superiores, incluindo os nossos pais.
  1. Defesa do pecado cometido – Se alguém cometer um pecado e nós defendemos o cometimento desse pecado, então tornamo-nos cúmplices do mesmo. Esta é a doença do nosso tempo, em que frequentemente o filho faz algo de errado e os pais defendem-no ou desculpam-no, em vez de o castigar. Isto é errado porque não só estamos a confirmar a criança ou o jovem no seu comportamento desordenado, como também não estamos a ajudá-los. Isto é verdade não só na nossa família, mas também se defendemos algo que é intrinsecamente malévolo na sociedade em geral.

XXVI. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXIII

Os nossos verdadeiros amigos são aqueles que nos perseguem e afligem; quanto bem nos faz o abandono e a renúncia a nós próprios; os únicos motivos pelos quais nos devemos entristecer


Todos aqueles que perseguem os teus vícios, que te oprimem, que te mostram a realidade do que tu és, que te põem diante dos teus olhos a tua fraqueza; enfim, que te ofendem, pois lastimam em ti a tua própria vontade—algo a que serias imune se não tivesses vontade nem amor próprio, pois são as únicas coisas que ficam feridas—; que te mostram a tua falta de mortificação; esses são os teus amigos e benfeitores. São estes que deves amar e com os quais deves alegrar-te, pois fazem guerra ao teu pior adversário, ao mais encarniçado dos inimigos—o teu eu—, de onde, caso quisesses aproveitar sabiamente tais ocasiões, sairias tanto mais fortalecida quanto maior fosse a violência do ataque. Quanto mais se debilita o teu eu, tanto mais forte Me tornarei em ti; e quanto mais longe estiveres do teu eu, tanto mais Me possuirás, porque o amor próprio, embora não te cause nenhum outro mal, traz consigo este—não Me permite operar em ti, pelo que ficas privada, em cada dia, de um bem infinito. Pois, aonde quer que vás, não encontrarás outro caminho para Mim a não ser aquele que ensinava aos Meus discípulos, quando lhes dizia: Quem quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo—isto é, abandone, mortifique, despoje a sua própria vontade—, tome a sua cruz e siga-Me.Começa já, pois é assim que tem de ser.

Por muitas coisas que abandones, se não abandonares a ti mesma, nada terás abandonado; pelo contrário, se não te amares, se não te pertenceres e abandonares em Mim, então, embora te possas encontrar no meio de riquezas e honrarias, terás abandonado tudo por Meu amor. Na medida em que saíres de ti, entrarei Eu; quanto mais morta estiveres para ti mesma, mais viverei em ti; e quanto mais aborreceres o teu eu, mais doce serei para ti.

Por isso, deixa tudo para encontrares tudo, ou seja, sai de ti para Me encontrares. Até quando te demorarás, filha? Até quando o temor te dominará? As tuas tribulações têm duas raízes: o amor a ti mesma e a tua pouca confiança em Mim. Abandona-te e confia em Mim. Acaso posso te enganar? Porque não te abandonas nas Minhas mãos? Porque não confias na Minha bondade? Que outra coisa pode te aproveitar? Que te pode ser útil? Que serias sem Mim? Tens medo de te abandonares e te entregares a Mim? Vê a quem te entregas: a Mim, sem o qual não poderias existir nem subsistir, nem muito menos estar bem; confia em Mim, pois não te posso repelir, não posso abandonar, não posso enganar, porque não posso deixar de te amar. Lança-te nos Meus braços sem vacilar, que Eu te acolherei e te protegerei.

Como se não existisses, assim serias sem Mim; por isso, se procuras a vida, sais de ti e lança-te nos Meus braços para que Eu possa te abraçar e unir-Me a ti. Se alguém quisesse causar-te dano ou tocar-te, antes teria que tocar em Mim. Por isso, abandona-te com ânimo alegre e decidido. Não te preocupes, nem desejes, nem escolhas isto ou aquilo por conveniência tua ou inclinação da tua natureza, mas antes aceita tudo por igual por amor a Mim; ama e deseja aquilo que sabes que Me mais agrada. Que no teu coração esteja sempre a oração que dirigi ao Pai nas vésperas da Minha paixão: Senhor, faça-se a Tua vontade[1]; e também: Porém, não se faça a minha vontade, mas a Tua[2]; e também: Ensina-me a fazer a Tua vontade, porque és o meu Deus[3]; e aquela outra: Faça-se em mim segundo a Tua palavra[4].

Queres saber qual o grau do teu abandono ou até que ponto estás morta para ti mesma? Se te angustias perante perdas materiais, os ultrajes e as injúrias, e se te perturbas mais quando estas coisas sucedem a ti do que aos outros, então estes são sinais seguros do teu amor às criaturas e a ti mesma. Evidentemente que tens amor aos bens temporais, às honras, à tranquilidade e a outras realidades caducas, porque te amas a ti mesma. Bem desejas estas coisas, mas se Me amasses verdadeiramente, as expulsarias do teu coração e suportarias sem vacilar toda a adversidade. E quando a adversidade te alcançasse, te inquietarias muito menos, como se tivesse caído sobre outro, pois o único que se deveria entristecer é aquele que Me despreza e desrespeita.

Assim, a obra, o exercício e a meta de quem se abandona corresponde a sair de si mesmo, desnudando-se de si mesmo, transformando-se, deixando tudo o que possa separá-lo de Mim. Os obstáculos mais pequenos são os pensamentos e as imagens das criaturas; o maior, a própria vontade, que quanto mais forte ela é, mais espaço ocupa no homem, mais pequeno serei Eu nele, e menos a sua alma Me pertence.

Quando sentes a inclinação e a atração da natureza para alguma coisa mais que a outra é porque ainda não estás perfeitamente morta para ti mesma e há ainda algo a mortificar em ti. Todo o sentimento que te afaste de Mim, qualquer coisa que tenta ocupar, alterar ou distrair o teu espírito; todo o que pugna para imprimir na tua alma a sua imagem; todo aquele que te quer atrair a si, seduzir-te e envolver-te; a tudo isso, recolhida e elevada para o Meu Espírito, deixa passar. Passa livremente por cima de toda a esperança e todo o medo, de toda a ganância e toda a perda, de toda a quietude e toda a fadiga, de toda a alegria e toda a tristeza, de toda a preocupação e demais afãs do coração. Não lhes prestes atenção. Se te fixares no Meu espírito, desprezarás todas estas coisas.

Além disso, se te amas, se não te despojas de ti mesma, sempre estarás à mercê da alegria e da tristeza, da ira e do medo, da preocupação e um sem fim de paixões. Nunca conseguirás ficar tranquila se não te esqueceres e estares morta para ti mesma. Por esta razão, filha, é necessário que te separes de ti para viveres apenas em Mim, para gostares apenas de Mim, para somente Me sentires. Nada te faltará se te abandonares desta maneira. Nada te faltará enquanto estiveres coMigo. Eu cuidarei de ti. Eu te protegerei. Despreocupada de ti mesma, nada poderás perder, porque em Mim encontrarás cem vezes mais. Deixa em Minhas mãos todo o cuidado, toda a preocupação, todo o temor, e entrega-te a Mim. Espera e confia em Mim. A tua esperança não te há-de defraudar, nem ser pequena, se a tua vida for boa e penitente. Toda a queixa que quiseres expressar a um amigo, expõe-na a Mim. Eu tomarei conta de ti, Eu te alimentarei, Eu te guardarei, Eu te defenderei. Tu, como estranha a ti mesma, preocupa-te apenas coMigo, de modo a mortificares e erradicares os teus apetites, o teu amor próprio, a tua sensualidade, renunciando a todo o desejo que não seja inspirado por Mim, o teu Deus. Porém, esta obediência, esta abdicação da tua própria vontade, este abandono de ti mesma deves fazê-lo por amor a Mim, a quem deves te entregar e estar sujeita de modo a queres apenas o que Eu quero.

[1]Mt 26, 42.

[2]Lc 22, 42.

[3]Sl 142, 10.

[4]Lc 1, 38.

XXV. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXII

Quantos males nos causa a própria vontade;
como devemos despojarmo-nos dela;
como ela é a fonte de todos os males e aflições


Nada pode fazer-te sofrer como a tua própria vontade; se estivesses morta para ela, nenhuma criatura poderia te causar dano. Que criatura te pode causar dano se estás morta para ti mesma, se em ti estão mortas as palavras “eu”, “me”, “a mim” e “meu”? Quem te poderia causar dano se Eu vivo em ti e tu em Mim? Nenhuma criatura poderia Me resistir, a não ser aquela que está obrigada a servir-Me. Além disso, se quisesses manter a tua própria vontade, todas as coisas estariam contra ti, todas te dariam combate e, quer queiras quer não, não te poderias subtrair aos desígnios da Minha Providência, apesar destes serem para ti uma cruz e não um consolo. Porém, se morreres para o teu eu, apreciarás a paz interior, que é um gozo desconhecido para a tua própria vontade, pois nada perturba o mundo a não ser esta última. Por isso, disse aos Meus discípulos: No mundo—isto é, aquele que é do mundo, que é prisioneiro dos seus próprios desejos, a quem o mundo lhe sorri—, tereis tribulação; mas tende confiança, porque Eu venci o mundo,[1]para que vocês também o vençam e tenhais paz em Mim.

Começa, pois, tu também a arrancar pela raiz e a mortificar em ti todos os desejos terrenos e todo o amor próprio. Caso contrário, como poderás vencer o mundo e o diabo se eles têm o seu próprio exército, ou seja, os vícios, dentro de ti? Expulsa primeiro tudo o que no teu interior se opõe a Mim, tudo o que combate contra ti, porque nem o diabo nem o mundo podem atacar-te ou vencer-te a não ser por meio das coisas que te possuem.

[1]Jo, 16, 33.

XXIV. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXI

Sobre a excelência da obediência; como e a quem obedecer; o dever de nos submetermos aos nossos superiores com simplicidade; o dever de sempre e em toda a parte de renunciarmos à vontade própria


A obediência é a virtude mais nobre e a que mais aprecio. Agrada-Me mais uma ação, por mais pequena e insignificante que seja, caso seja feita por pura obediência, sendo mais proveitosa e meritória para aquele a realiza do que um sem fim de obras feitas por vontade própria. Crê-Me, filha, que não poderias oferecer-Me sacrifício mais nobre e digno que um coração humilde, obediente e disposto a tudo. Apenas por um ato de obediência, um homem pode renunciar a si mesmo por amor a Mim, negando a sua vontade própria, unindo-se a Mim mais intimamente, quando comparado com outros exercícios, por mais demorados e nobres que sejam. Assim, filha Minha, deves ser tão obediente que, mesmo que estejas fisicamente diante de Mim e desfrutes da Minha presença como uma esposa disfruta do seu esposo, e alguém te afaste de Mim em virtude da obediência, deves obedecer e abandonar-Me. Ao obedecer, não abandonarias a Mim, mas a ti mesma, pois escolherias a Minha honra e a Minha vontade em vez da tua própria comodidade, a tua própria consolação. E é esta a Minha vontade: que negues a ti própria e não busques o teu interesse, mas antes o interesse dos outros. Fazendo assim, renunciarás a ti mesma e à tua própria conveniência, não Me abandonando, mas antes encontrando-Me de um modo cem vezes mais nobre e mais perfeito.

Aprende, pois, a abandonar-te por amor a Mim, ou seja, a renunciar, através da negação de ti mesma, ao teu interesse, ao teu consolo, à tua devoção, ao teu proveito. Deste modo, fazendo o que deves, Me honrarás, e não só não perdes nada seguindo este caminho, como terás uma recompensa cem vezes maior. Por isso, a nada tenhas apego, nada te pareça mais útil que, por obediência, não possas deixar voluntariamente e com abandono. Todo aquele que, por apego a algo, Me recusa a obedecer, ou aceita fazê-lo com tristeza ou relutância, é um ídolo à sua vontade própria, sendo tão nocivo que não se pode expressar por palavras. Caso estejas num lugar onde não tenhas um Superior, ou onde o Superior sejas tu, trata a todos como se fossem superiores a ti, submetendo-te à sua vontade e abandonando a tua. Porém, não faças isso por inércia, mas sim quando tal for lícito e quando a intenção seja negar-te a ti mesma por amor a Mim.

Ama a virtude da obediência desde o mais profundo recanto do teu coração e não a abandones até à tua morte; não só a obediência aos teus superiores, mas também a todos os homens, por causa de Mim, desde que [o que te pedirem] não seja contrário à Minha vontade; e fá-lo sem tristeza, sem murmuração, sem discussões. E para que possas atuar mais livremente, não olhes ao homem que por disposição Minha é teu superior; não te fixes no quanto ele é sabedor ou idóneo, nem dês importância se ele é culto ou inculto, distinto ou insignificante. Tem apenas em atenção o facto que a Minha Providência te deu-o como Superior e que por meio dele quero guiar-te; consulta-o e escuta-o como se ele fosse Eu próprio. Atende à Minha Providência, com a qual quero guiar-te pela pessoa que escolhi, seja ela uma simplória ou uma erudita, e sujeita-te a Mim.

Por tudo isto, sem escrúpulo ou temor algum, deixa de lado a tua opinião e sabedoria. Submete-te apenas ao juízo e ao parecer do teu diretor. Tudo o que ele determine, tudo o que ele estabeleça, toma-o como se viesse da Minha própria boca. Por vezes, imponho aos Meus servos superiores pouco cultos ou pouco sagazes de modo a que não busquem a sabedoria humana, ou ao homem pelo homem, mas antes que busquem a Mim, o seu Deus, no homem; e se confiam em Mim, Eu não lhes responderei pior através de um homem simples que através de um sábio. Por esta razão, e seja qual for a resposta, não deves receber o que ele te disser como se viesse dos lábios de um homem, mas sim da Minha própria boca, atribuindo tudo a Mim e à Minha direção e nada à prudência ou simplicidade humana. Portanto, se não te quiseres enganar, abraça a vida da obediência e não faças nada sem consultar um sacerdote, um guia espiritual ou o teu Superior.

Vive sempre em simplicidade e pobreza de espírito, sem juízo próprio, sem decisões próprias, sem sentimento próprio e sem ponto de vista próprio. Não admitas ocasião alguma de queixa ou murmuração, e julga sempre melhor o que te diz o Superior ou, na falta deste, o que outros decidirem, desde que não seja pecado manifesto. E para o extermínio pleno da vontade própria, deves não só permanecer sujeita à obediência de um homem, mas também submeter-te a todas as criaturas por amor a Mim. Pois deves odiar a tua vontade própria a tal ponto que deves extingui-la, vivendo entre os homens como se não tivesses vontade própria, ou seja, como se tivesses anulado a tua capacidade de preferência e aceitasses com indiferença tudo o que te sucede, mas apenas com esta exceção: preferires a vontade do outro desde que não seja pecado, salvaguardando a honestidade e discrição devidas.

No que respeita somente a ti, aceita o parecer dos outros como se tivesses prometido obediência a todos os homens. Mais ainda, aonde quer que estejas, mesmo que estejas só, não faças a tua própria vontade, mas ordena toda a tua vida e todos os teus exercícios para negares a ti mesma. Este é melhor para ti que o Paraíso. E quando a Minha vontade se tornar manifesta, seja por inspiração interior, ou pela Sagrada Escritura, ou através do teu Superior, ou por meio de uma criatura, ou de outro modo qualquer, mal sintas que és admoestada, deixa de imediato todo o parecer, juízo, vontade, opinião, desejo ou inclinação próprios, abandona-te e segue a Minha vontade. Deves aprender a discernir sabiamente qual é a Minha vontade para que não penses que estejas a seguir o Meu espírito quando estás a seguir o teu espírito de erro e engano. Por isso, faz tudo segundo o juízo do teu Superior e submete-te inteiramente à sua vontade.