Capítulo XXI
Sobre a excelência da obediência; como e a quem obedecer; o dever de nos submetermos aos nossos superiores com simplicidade; o dever de sempre e em toda a parte de renunciarmos à vontade própria
A obediência é a virtude mais nobre e a que mais aprecio. Agrada-Me mais uma ação, por mais pequena e insignificante que seja, caso seja feita por pura obediência, sendo mais proveitosa e meritória para aquele a realiza do que um sem fim de obras feitas por vontade própria. Crê-Me, filha, que não poderias oferecer-Me sacrifício mais nobre e digno que um coração humilde, obediente e disposto a tudo. Apenas por um ato de obediência, um homem pode renunciar a si mesmo por amor a Mim, negando a sua vontade própria, unindo-se a Mim mais intimamente, quando comparado com outros exercícios, por mais demorados e nobres que sejam. Assim, filha Minha, deves ser tão obediente que, mesmo que estejas fisicamente diante de Mim e desfrutes da Minha presença como uma esposa disfruta do seu esposo, e alguém te afaste de Mim em virtude da obediência, deves obedecer e abandonar-Me. Ao obedecer, não abandonarias a Mim, mas a ti mesma, pois escolherias a Minha honra e a Minha vontade em vez da tua própria comodidade, a tua própria consolação. E é esta a Minha vontade: que negues a ti própria e não busques o teu interesse, mas antes o interesse dos outros. Fazendo assim, renunciarás a ti mesma e à tua própria conveniência, não Me abandonando, mas antes encontrando-Me de um modo cem vezes mais nobre e mais perfeito.
Aprende, pois, a abandonar-te por amor a Mim, ou seja, a renunciar, através da negação de ti mesma, ao teu interesse, ao teu consolo, à tua devoção, ao teu proveito. Deste modo, fazendo o que deves, Me honrarás, e não só não perdes nada seguindo este caminho, como terás uma recompensa cem vezes maior. Por isso, a nada tenhas apego, nada te pareça mais útil que, por obediência, não possas deixar voluntariamente e com abandono. Todo aquele que, por apego a algo, Me recusa a obedecer, ou aceita fazê-lo com tristeza ou relutância, é um ídolo à sua vontade própria, sendo tão nocivo que não se pode expressar por palavras. Caso estejas num lugar onde não tenhas um Superior, ou onde o Superior sejas tu, trata a todos como se fossem superiores a ti, submetendo-te à sua vontade e abandonando a tua. Porém, não faças isso por inércia, mas sim quando tal for lícito e quando a intenção seja negar-te a ti mesma por amor a Mim.
Ama a virtude da obediência desde o mais profundo recanto do teu coração e não a abandones até à tua morte; não só a obediência aos teus superiores, mas também a todos os homens, por causa de Mim, desde que [o que te pedirem] não seja contrário à Minha vontade; e fá-lo sem tristeza, sem murmuração, sem discussões. E para que possas atuar mais livremente, não olhes ao homem que por disposição Minha é teu superior; não te fixes no quanto ele é sabedor ou idóneo, nem dês importância se ele é culto ou inculto, distinto ou insignificante. Tem apenas em atenção o facto que a Minha Providência te deu-o como Superior e que por meio dele quero guiar-te; consulta-o e escuta-o como se ele fosse Eu próprio. Atende à Minha Providência, com a qual quero guiar-te pela pessoa que escolhi, seja ela uma simplória ou uma erudita, e sujeita-te a Mim.
Por tudo isto, sem escrúpulo ou temor algum, deixa de lado a tua opinião e sabedoria. Submete-te apenas ao juízo e ao parecer do teu diretor. Tudo o que ele determine, tudo o que ele estabeleça, toma-o como se viesse da Minha própria boca. Por vezes, imponho aos Meus servos superiores pouco cultos ou pouco sagazes de modo a que não busquem a sabedoria humana, ou ao homem pelo homem, mas antes que busquem a Mim, o seu Deus, no homem; e se confiam em Mim, Eu não lhes responderei pior através de um homem simples que através de um sábio. Por esta razão, e seja qual for a resposta, não deves receber o que ele te disser como se viesse dos lábios de um homem, mas sim da Minha própria boca, atribuindo tudo a Mim e à Minha direção e nada à prudência ou simplicidade humana. Portanto, se não te quiseres enganar, abraça a vida da obediência e não faças nada sem consultar um sacerdote, um guia espiritual ou o teu Superior.
Vive sempre em simplicidade e pobreza de espírito, sem juízo próprio, sem decisões próprias, sem sentimento próprio e sem ponto de vista próprio. Não admitas ocasião alguma de queixa ou murmuração, e julga sempre melhor o que te diz o Superior ou, na falta deste, o que outros decidirem, desde que não seja pecado manifesto. E para o extermínio pleno da vontade própria, deves não só permanecer sujeita à obediência de um homem, mas também submeter-te a todas as criaturas por amor a Mim. Pois deves odiar a tua vontade própria a tal ponto que deves extingui-la, vivendo entre os homens como se não tivesses vontade própria, ou seja, como se tivesses anulado a tua capacidade de preferência e aceitasses com indiferença tudo o que te sucede, mas apenas com esta exceção: preferires a vontade do outro desde que não seja pecado, salvaguardando a honestidade e discrição devidas.
No que respeita somente a ti, aceita o parecer dos outros como se tivesses prometido obediência a todos os homens. Mais ainda, aonde quer que estejas, mesmo que estejas só, não faças a tua própria vontade, mas ordena toda a tua vida e todos os teus exercícios para negares a ti mesma. Este é melhor para ti que o Paraíso. E quando a Minha vontade se tornar manifesta, seja por inspiração interior, ou pela Sagrada Escritura, ou através do teu Superior, ou por meio de uma criatura, ou de outro modo qualquer, mal sintas que és admoestada, deixa de imediato todo o parecer, juízo, vontade, opinião, desejo ou inclinação próprios, abandona-te e segue a Minha vontade. Deves aprender a discernir sabiamente qual é a Minha vontade para que não penses que estejas a seguir o Meu espírito quando estás a seguir o teu espírito de erro e engano. Por isso, faz tudo segundo o juízo do teu Superior e submete-te inteiramente à sua vontade.