Capítulo XXII
Quantos males nos causa a própria vontade;
como devemos despojarmo-nos dela;
como ela é a fonte de todos os males e aflições
Nada pode fazer-te sofrer como a tua própria vontade; se estivesses morta para ela, nenhuma criatura poderia te causar dano. Que criatura te pode causar dano se estás morta para ti mesma, se em ti estão mortas as palavras “eu”, “me”, “a mim” e “meu”? Quem te poderia causar dano se Eu vivo em ti e tu em Mim? Nenhuma criatura poderia Me resistir, a não ser aquela que está obrigada a servir-Me. Além disso, se quisesses manter a tua própria vontade, todas as coisas estariam contra ti, todas te dariam combate e, quer queiras quer não, não te poderias subtrair aos desígnios da Minha Providência, apesar destes serem para ti uma cruz e não um consolo. Porém, se morreres para o teu eu, apreciarás a paz interior, que é um gozo desconhecido para a tua própria vontade, pois nada perturba o mundo a não ser esta última. Por isso, disse aos Meus discípulos: No mundo—isto é, aquele que é do mundo, que é prisioneiro dos seus próprios desejos, a quem o mundo lhe sorri—, tereis tribulação; mas tende confiança, porque Eu venci o mundo,[1]para que vocês também o vençam e tenhais paz em Mim.
Começa, pois, tu também a arrancar pela raiz e a mortificar em ti todos os desejos terrenos e todo o amor próprio. Caso contrário, como poderás vencer o mundo e o diabo se eles têm o seu próprio exército, ou seja, os vícios, dentro de ti? Expulsa primeiro tudo o que no teu interior se opõe a Mim, tudo o que combate contra ti, porque nem o diabo nem o mundo podem atacar-te ou vencer-te a não ser por meio das coisas que te possuem.
[1]Jo, 16, 33.