Capítulo XXIII
Os nossos verdadeiros amigos são aqueles que nos perseguem e afligem; quanto bem nos faz o abandono e a renúncia a nós próprios; os únicos motivos pelos quais nos devemos entristecer
Todos aqueles que perseguem os teus vícios, que te oprimem, que te mostram a realidade do que tu és, que te põem diante dos teus olhos a tua fraqueza; enfim, que te ofendem, pois lastimam em ti a tua própria vontade—algo a que serias imune se não tivesses vontade nem amor próprio, pois são as únicas coisas que ficam feridas—; que te mostram a tua falta de mortificação; esses são os teus amigos e benfeitores. São estes que deves amar e com os quais deves alegrar-te, pois fazem guerra ao teu pior adversário, ao mais encarniçado dos inimigos—o teu eu—, de onde, caso quisesses aproveitar sabiamente tais ocasiões, sairias tanto mais fortalecida quanto maior fosse a violência do ataque. Quanto mais se debilita o teu eu, tanto mais forte Me tornarei em ti; e quanto mais longe estiveres do teu eu, tanto mais Me possuirás, porque o amor próprio, embora não te cause nenhum outro mal, traz consigo este—não Me permite operar em ti, pelo que ficas privada, em cada dia, de um bem infinito. Pois, aonde quer que vás, não encontrarás outro caminho para Mim a não ser aquele que ensinava aos Meus discípulos, quando lhes dizia: Quem quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo—isto é, abandone, mortifique, despoje a sua própria vontade—, tome a sua cruz e siga-Me.Começa já, pois é assim que tem de ser.
Por muitas coisas que abandones, se não abandonares a ti mesma, nada terás abandonado; pelo contrário, se não te amares, se não te pertenceres e abandonares em Mim, então, embora te possas encontrar no meio de riquezas e honrarias, terás abandonado tudo por Meu amor. Na medida em que saíres de ti, entrarei Eu; quanto mais morta estiveres para ti mesma, mais viverei em ti; e quanto mais aborreceres o teu eu, mais doce serei para ti.
Por isso, deixa tudo para encontrares tudo, ou seja, sai de ti para Me encontrares. Até quando te demorarás, filha? Até quando o temor te dominará? As tuas tribulações têm duas raízes: o amor a ti mesma e a tua pouca confiança em Mim. Abandona-te e confia em Mim. Acaso posso te enganar? Porque não te abandonas nas Minhas mãos? Porque não confias na Minha bondade? Que outra coisa pode te aproveitar? Que te pode ser útil? Que serias sem Mim? Tens medo de te abandonares e te entregares a Mim? Vê a quem te entregas: a Mim, sem o qual não poderias existir nem subsistir, nem muito menos estar bem; confia em Mim, pois não te posso repelir, não posso abandonar, não posso enganar, porque não posso deixar de te amar. Lança-te nos Meus braços sem vacilar, que Eu te acolherei e te protegerei.
Como se não existisses, assim serias sem Mim; por isso, se procuras a vida, sais de ti e lança-te nos Meus braços para que Eu possa te abraçar e unir-Me a ti. Se alguém quisesse causar-te dano ou tocar-te, antes teria que tocar em Mim. Por isso, abandona-te com ânimo alegre e decidido. Não te preocupes, nem desejes, nem escolhas isto ou aquilo por conveniência tua ou inclinação da tua natureza, mas antes aceita tudo por igual por amor a Mim; ama e deseja aquilo que sabes que Me mais agrada. Que no teu coração esteja sempre a oração que dirigi ao Pai nas vésperas da Minha paixão: Senhor, faça-se a Tua vontade[1]; e também: Porém, não se faça a minha vontade, mas a Tua[2]; e também: Ensina-me a fazer a Tua vontade, porque és o meu Deus[3]; e aquela outra: Faça-se em mim segundo a Tua palavra[4].
Queres saber qual o grau do teu abandono ou até que ponto estás morta para ti mesma? Se te angustias perante perdas materiais, os ultrajes e as injúrias, e se te perturbas mais quando estas coisas sucedem a ti do que aos outros, então estes são sinais seguros do teu amor às criaturas e a ti mesma. Evidentemente que tens amor aos bens temporais, às honras, à tranquilidade e a outras realidades caducas, porque te amas a ti mesma. Bem desejas estas coisas, mas se Me amasses verdadeiramente, as expulsarias do teu coração e suportarias sem vacilar toda a adversidade. E quando a adversidade te alcançasse, te inquietarias muito menos, como se tivesse caído sobre outro, pois o único que se deveria entristecer é aquele que Me despreza e desrespeita.
Assim, a obra, o exercício e a meta de quem se abandona corresponde a sair de si mesmo, desnudando-se de si mesmo, transformando-se, deixando tudo o que possa separá-lo de Mim. Os obstáculos mais pequenos são os pensamentos e as imagens das criaturas; o maior, a própria vontade, que quanto mais forte ela é, mais espaço ocupa no homem, mais pequeno serei Eu nele, e menos a sua alma Me pertence.
Quando sentes a inclinação e a atração da natureza para alguma coisa mais que a outra é porque ainda não estás perfeitamente morta para ti mesma e há ainda algo a mortificar em ti. Todo o sentimento que te afaste de Mim, qualquer coisa que tenta ocupar, alterar ou distrair o teu espírito; todo o que pugna para imprimir na tua alma a sua imagem; todo aquele que te quer atrair a si, seduzir-te e envolver-te; a tudo isso, recolhida e elevada para o Meu Espírito, deixa passar. Passa livremente por cima de toda a esperança e todo o medo, de toda a ganância e toda a perda, de toda a quietude e toda a fadiga, de toda a alegria e toda a tristeza, de toda a preocupação e demais afãs do coração. Não lhes prestes atenção. Se te fixares no Meu espírito, desprezarás todas estas coisas.
Além disso, se te amas, se não te despojas de ti mesma, sempre estarás à mercê da alegria e da tristeza, da ira e do medo, da preocupação e um sem fim de paixões. Nunca conseguirás ficar tranquila se não te esqueceres e estares morta para ti mesma. Por esta razão, filha, é necessário que te separes de ti para viveres apenas em Mim, para gostares apenas de Mim, para somente Me sentires. Nada te faltará se te abandonares desta maneira. Nada te faltará enquanto estiveres coMigo. Eu cuidarei de ti. Eu te protegerei. Despreocupada de ti mesma, nada poderás perder, porque em Mim encontrarás cem vezes mais. Deixa em Minhas mãos todo o cuidado, toda a preocupação, todo o temor, e entrega-te a Mim. Espera e confia em Mim. A tua esperança não te há-de defraudar, nem ser pequena, se a tua vida for boa e penitente. Toda a queixa que quiseres expressar a um amigo, expõe-na a Mim. Eu tomarei conta de ti, Eu te alimentarei, Eu te guardarei, Eu te defenderei. Tu, como estranha a ti mesma, preocupa-te apenas coMigo, de modo a mortificares e erradicares os teus apetites, o teu amor próprio, a tua sensualidade, renunciando a todo o desejo que não seja inspirado por Mim, o teu Deus. Porém, esta obediência, esta abdicação da tua própria vontade, este abandono de ti mesma deves fazê-lo por amor a Mim, a quem deves te entregar e estar sujeita de modo a queres apenas o que Eu quero.
[1]Mt 26, 42.
[2]Lc 22, 42.
[3]Sl 142, 10.
[4]Lc 1, 38.