Nove maneiras de ser cúmplice do pecado

(adaptação livre e parcial de uma conferência
do Pe. Chad Ripperger, SMD)

 

Definição de pecado e os seus efeitos objetivos e subjetivos

O pecado é uma ofensa a Deus, uma violação da Lei de Deus. A Lei de Deus corresponde aos Dez Mandamentos.

Numa das passagens do Evangelho (Mt 19, 16-22), um jovem perguntou a Cristo: — O que devo fazer para obter a salvação?

Cristo respondeu ao jovem enumerando os Dez Mandamentos. Isto é importante referir, porque há pessoas que dizem que Cristo mudou os Dez Mandamentos, e que eles já não são válidos, mas isso não é verdade.

O pecado tem efeitos objetivos e subjetivos.

O pecado tem sempre consequências objetivas e, neste caso, não importa se temos consciência ou não de que estamos a fazer mal. Por exemplo, se provocarmos a morte alguém, mesmo que não tenha sido essa a nossa intenção, devido a um ato imprudente ou negligente da nossa parte, o efeito objetivo do nosso pecado mantém-se. Devido à nossa imprudência ou negligência, alguém morreu.

O pecado, porém, tem também consequências subjetivas, pois o pecado pode ter atenuantes, dependendo do grau de consciência de que estamos a fazer algo de mal.

Cumplicidade no pecado

Segundo S. Tomás de Aquino, nós podemos ser cúmplices do pecado por nove maneiras:

  1. Conselho – Se aconselharmos alguém a fazer algo que não devem, estamos a ser cúmplices do pecado. Por exemplo, se aconselharmos a alguém a viver junto com outa para verificar a compatibilidade do namorado ou namorada, torna-se cúmplice desse pecado por mau conselho.
  2. Ordem – Uma pessoa torna-se responsável quando ordena alguém a praticar um pecado. Por exemplo, se alguém ordenar o assassínio de outra pessoa, torna-se cúmplice desse pecado. O mandante poderia arguir que a pessoa que seguiu as suas ordens não estava obrigada a cumprir a ordem. Porém, esse argumento é inválido, porque tal ordem resultou no efeito objetivo da morte de alguém.
  3. Consentimento – Tornamo-nos cúmplices do pecado quando damos consentimento a alguém para fazer algo que sabemos que está errado ou que não é bom para essa pessoa. Hoje em dia, isso acontece muito frequentemente entre esposos e pais e filhos. A tentação é conceder algo a uma pessoa que está sob a nossa autoridade, porque ela assim o deseja. Nunca se deve fazer isso. A regra de ouro do nosso consentimento nunca deve ser baseada no que o outro quer, mas sim se isso é bom para ela e se isso a fará verdadeiramente feliz. Relacionado com isto está o pecado da “triangulação” cometida pelos filhos. É frequente, hoje em dia, um filho pedir algo ao pai ou à mãe e, se ele não obtiver o seu consentimento, vai pedir o mesmo ao outro progenitor, jogando os pais uns contra os outros. Outro pecado cometido pelos filhos é a “culpabilização” dos pais por estes não consentirem em algo. Por exemplo, acontece com alguma frequência os pais darem o conselho aos filhos de não se casarem com alguém que não é bom para eles. Os filhos respondem frequentemente que “se me amasses verdadeiramente, serias feliz por mim e aceitarias essa pessoa com quem quero casar”. Esta culpabilização dos pais visa a aceitação de algo que os pais sabem que está errado e que, por isso, não devem consentir. Quando consentimos algo que está errado, perdemos a nossa autoridade sobre a pessoa pela qual nós somos responsáveis. Por exemplo, se uma criança faz birra e insiste em querer algo, mas que pela sua insistência obtém finalmente o nosso consentimento, é nesse momento que perdemos a nossa autoridade sobre ela, pois ela saberá o que fazer no futuro para obter o que quer.
  4. Provocação Quando provocamos alguém a enfurecer-se, estamos a ser cúmplices desse pecado. Isso acontece frequentemente entre esposos e entre pais e filhos. O conhecimento mútuo permite-nos tocar nos pontos sensíveis da pessoa e enfurecê-la. A provocação é um pecado contra a caridade, porque em vez de querermos o bem dessa pessoa, estamos a provocá-la, sendo uma manifestação da nossa má vontade.
  5. Louvor ou bajulação Quando louvamos alguém por algo que está errado, ou pelo seu comportamento desregrado, tornamo-nos cúmplices desse pecado. Este pecado agrava-se pelo facto de nós estarmos a jogar com o orgulho e o respeito humano dessa pessoa. O respeito humano é quando nós nos importamos mais pelo que as pessoas pensam de nós do que a opinião que Deus tem de nós, em particular quando queremos algo dessas pessoas. Jesus é o exemplo máximo de alguém que não se importa com o que pensam d’Ele, mas sim sobre o que é a verdade e a justiça, de modo a que a pessoa se salve. A salvação do nosso irmão é mais importante do que ele poderá pensar de nós.
  6. Ocultação – Quando escondemos um pecado de outrem quando temos o dever de o divulgar, tornamo-nos cúmplices deste pecado. Isto não significa que esse pecado deva ser divulgado a toda a gente, mas somente às pessoas que têm o direito de o saber. Por exemplo, se uma pessoa comete adultério contra uma outra pessoa, esta última tem o direito de saber que essa injustiça está a ser cometida contra ela. Se essa pessoa falar contigo, e tu ocultares esse facto, negando-o após uma pergunta direta, tornas-te cúmplice desse pecado.
  7. Participação – Se alguém praticar algo errado e se nós nos juntarmos a essa pessoa nesse ato, tornamo-nos cúmplices desse pecado. Por exemplo, isso acontece quando participamos em atos de maledicência.
  8. Silêncio – Quando alguém comete um pecado à nossa frente e nada dizemos, tornamo-nos cúmplices desse pecado por omissão de conselho. Por exemplo, tal acontece quando alguém diz algo à nossa frente que não está correto, ou é uma blasfémia contra Deus, ou ataca Cristo e a sua Igreja, e nada dizemos. Porém, isso não significa que devamos ser precipitados, principalmente se não soubermos como responder naquele momento. Caso isso aconteça, devemos estudar o problema, formar a nossa opinião e depois falar com a pessoa, mas com caridade. Isto é importante, porque temos a obrigação moral de intervir, em especial quando alguém defende um mal. Por exemplo, se alguém disser à nossa frente que “basta duas pessoas se amarem para poderem casar”, temos o dever de intervir e corrigir isso. O fundamento do Matrimónio não é o amor entre duas pessoas, mas antes baseia-se na Lei de Deus e na Lei Natural, à qual a biologia humana adere. Isto não significa que não deva haver amor no casamento. Claro que sim, mas não deve ser a única razão porque duas pessoas se devam casar. S. Tomás de Aquino definiu algo muito importante para combater o silêncio culposo: a correção fraterna. Quando realizamos uma correção fraterna, devemos ter em conta os seguintes pontos:
  • Frequência – Não devemos estar constantemente a corrigir, porque se o fazemos vezes demais, essa correção torna-se ineficaz e essa pessoa deixará de nos ouvir; porém, se o fizermos vezes de menos, podemos tornar cúmplices desse pecado, especialmente se o pecado for grave.
  • Conhecimento da questão em causa – Nunca devemos corrigir alguém se não estivermos cientes de todos os factos; caso o façamos, podemos cometer um pecado contra a justiça.
  • Caridade – A correção fraterna deve ser sempre feita por caridade, pelo amor que temos pelo nosso irmão em Cristo, e não porque estamos zangados com ele ou que queremos que ele faça a nossa vontade.
  • Temperança e justiça – A correção fraterna não deve ser feita por perfecionismo. O importante não é que tudo esteja “perfeito” externamente, mas que o interior da pessoa esteja também bem ordenado. A correção fraterna deve ser feita com temperança e com sentido de justiça.
  • Pedagogia – Um controlo exagerado dos nossos filhos ou dependentes é algo errado. Este controlo exagerado é uma das causas mais importantes porque muitos filhos, hoje em dia, não conseguem lidar com o stress da vida, manter um emprego ou uma responsabilidade. Quando uma criança ainda não chegou à idade da razão (<7 anos), não lhe devemos justificar a nossa decisão. Porém, a pedagogia correta é premiá-la se fizer o bem, e castigá-la se fizer algo de mal. Assim, a criança desta idade terá os verdadeiros estímulos para corrigir o seu comportamento. É sabido que se uma criança não for bem educada antes dos 7 anos, será mais difícil corrigir o seu comportamento mais tarde, principalmente o seu comportamento moral. Entre os 6 e os 10 anos, já se pode dar razões da nossa decisão, em particular quando uma criança não obedece aos pais. Aliás, quando a criança não obedece aos pais, desde que a ordem seja razoável, comete o pecado da desobediência. Entre os 11 e os 14 anos, não devemos dar muitas razões da nossa decisão a um jovem, principalmente quando ele nos confronta. Quando isso acontece, devemos responder com firmeza: — Não é tempo para te dar razões, é tempo de obedeceres. É nesta idade que devemos aconselhar os nossos filhos de modo a que eles comecem a tomar as decisões certas por eles próprios e os preparar para a vida adulta. Quando eles atingem os 18 anos, em geral cessa a autoridade estrita dos pais. Se eles saírem de casa, já não se encontram moralmente obrigados a obedecer aos pais. Porém, estão ainda obrigados a respeitar e honrar os pais (4º mandamento). Porém, se os filhos ainda se encontram dependentes dos pais, vivendo e comendo na sua casa, ainda estão obrigados a obedecer aos pais e seguir as regras da casa.
  • Agravação do pecado – Não devemos corrigir alguém que sabemos que não vai se corrigir e que, se o fizermos, vai agravar a situação e confirmar o pecado dessa pessoa. Caso o façamos, tornamo-nos responsáveis por esse pecado, por ter sido uma correção imprudente. A prudência é a virtude de aplicar os meios corretos para um fim adequado. Quando não sabemos qual vai ser a reação de uma pessoa, podemos fazer uma pergunta indireta para testar as águas. Por exemplo, se alguém estiver a dizer algo a favor do aborto e se nós sabermos que essa pessoa se pode irritar se for contestada diretamente, podemos fazer uma pergunta indireta acerca da licitude de matar uma outra pessoa. Porém, se mesmo assim a pessoa se irritar, então devemos rezar por ela.
  • Hipocrisia – Não devemos corrigir ninguém de algo que nós próprios cometemos, senão seremos chamados de hipócritas e com razão. Primeiro temos que corrigir esse defeito em nós e só depois devemos corrigir o outro.
  • Humildade e Piedade – Quando corrigimos alguém, especialmente se essa pessoa é hierarquicamente superior a nós, devemos fazê-lo com humildade. Isto é particularmente verdade quando um filho corrige um progenitor seu. O dom da piedade corresponde ao respeito que devemos aos nossos superiores, incluindo os nossos pais.
  1. Defesa do pecado cometido – Se alguém cometer um pecado e nós defendemos o cometimento desse pecado, então tornamo-nos cúmplices do mesmo. Esta é a doença do nosso tempo, em que frequentemente o filho faz algo de errado e os pais defendem-no ou desculpam-no, em vez de o castigar. Isto é errado porque não só estamos a confirmar a criança ou o jovem no seu comportamento desordenado, como também não estamos a ajudá-los. Isto é verdade não só na nossa família, mas também se defendemos algo que é intrinsecamente malévolo na sociedade em geral.