Capítulo XXIV
Como, despojando-nos de nós mesmos, devemos confiar
a Deus nós próprios e todas as coisas; que coisas manifestam a bondade
Enquanto houver em ti desejo, preferência ou inclinação para procurar mais prazer, mais repouso ou mais consolo numa coisa em vez de outra, ainda tens em ti algo de amor próprio, ainda não te negastes perfeitamente. Deverias aceitar tudo com indiferença e serenidade, e perseverar apoiada apenas na Minha Providência, pois isto te daria uma grande liberdade, uma paz inalterável e uma tranquilidade perfeita. Não esperes nada de ti mesma, não te fies na tua inteligência nem nas tuas próprias forças; não permitas nada que dependa de ti, nada edifiques sobre ti própria, nada proponhas para proveito próprio; não confies na tua vontade, por mais boa que seja; pelo contrário, abandona-te, sai de ti, e extinguindo todo o egoísmo, permanece e descansa apenas em Mim. Confia na Minha bondade, apoia-te na Minha graça e na Minha Providência, sempre disposta—mas bem longe das preferências pessoais, sem distinções, sem resistências no teu coração—a aceitar, segundo a Minha vontade, a prosperidade e a adversidade, no tempo e na eternidade, desejando ser sempre o que quero que sejas.
Por isso, não te preocupes se avanças muito ou pouco, se estás perto ou longe de Mim, se os dons que recebes são grandes ou pequenos ou se terás que passar pelo Purgatório depois de abandonares este mundo. Deixa tudo isso à Minha Providência e deseja apenas a ficares sob a Minha vontade e o que ela dispõe. Considera como o maior bem que se cumpra em ti a Minha última, suprema e muito laudável vontade, agradando-Me em tudo o que eu disponha. Que a Minha vontade seja a tua perfeição e a medida da tua perfeição.
Nenhuma curiosidade, nenhuma preocupação por coisas futuras agite o teu coração; não te inquietes com o que é incerto e contingente; antes confia tudo a Mim, pois tudo governo. O mal esperado ou temido poderá nunca vir; porém, se ele surge, basta cada dia a sua malícia.[1]Em tudo o que eu permita, e seja qual seja a forma como o faça, deves comprazer-te na Minha providência sobre todas as coisas. Deves louvar-Me e estar completamente segura de que isso é o melhor para ti e que por trás de cada acontecimento está a Minha mão bondosa, guiando tudo para o teu bem. Tem apenas plena confiança na Minha bondade. Quando pensas bem de Mim, quando confias firmemente em Mim, quando te abandonas plenamente em Mim, estás a pregar a Minha bondade. E tanto isso me agrada no homem, que seria incapaz de abandoná-lo; nada de mau acontecerá àquele que põe em Mim a sua esperança.
Quanto maior for a tua esperança e confiança em Mim, tanto mais perfeitamente obterás o que desejas. Em tudo o que te suceda, se creres de tal forma em Mim de modo a converter em bem uma adversidade, assim sucederá certamente. Os meus amigos costumam pedir-me que os preserve do Purgatório. Esta oração não é má. Porém, a tua oração seria mais perfeita se, arrojada aos pés da Minha majestade, desejasses que a Minha justiça se satisfazesse na tua pequenez e te oferecesses para sofrer, para Minha glória e por Meu beneplácito, o Purgatório ou qualquer outra pena, e se te alegrasses mais com o cumprimento da Minha vontade que com a libertação do Purgatório. Assim, com a ajuda da Minha graça, vencerias o teu amor próprio, tão arraigado aos teus sentimentos e à tua vontade; se te atirasses aos Meus braços com plena confiança e se apoiasses apenas em Mim, ficarias admirada ao sentir a Minha graça a operar em ti. Olha-Me, filha, e pensando em Mim, abandona-te. Eu pensarei em ti e, estando a teu lado, jamais de deixarei.
Insisto: qualquer coisa que te suceda, recebe-a direta- e imediatamente de minhas mãos, e não de uma criatura. Admira e louva a Minha Providência em todas as circunstâncias, aceita-a com ação de graças, pois por ela opero a tua salvação em tudo o que te sucede. Como me lembro especialmente de ti, levo-te a atuar ou a sofrer deste modo para que mereças a Minha misericórdia. Esforça-te para Me louvar e honrar em tudo o que vês, em tudo o que sentes, em tudo o que vives. Deste modo compreenderás com quanto amor atua a Minha Providência, e como deves atribuir a Mim todas as coisas que te sucedem e, ao mesmo tempo, voltar-te para a origem de tudo o que te é enviado, isto é, a Minha bondade e a Minha glória.
Se praticares bem este exercício que consiste em aceitar com a mesma disposição de ânimo as alegrias e as tristezas que Eu te queira enviar; se soubesses descobrir a Minha presença em todas as criaturas, então o que no início te pareceria algo de mal acabarias por sentir que tal é da maior utilidade para ti. Mais ainda, poderias aproveitar todas as situações para as oferecer em sacrifício a Mim. Eu estou em todas as criaturas e fora de Mim nada pode existir. Nenhuma criatura está mais perto de ela própria do que Eu, que habito no seu interior. Por isso, deverias ser tão pobre de espírito de modo a não recusares coisa alguma. Não desejes ou recuses isto e aquilo segundo o teu critério; deseja apenas o Meu beneplácito. Se me procurares com intenção pura e estiveres atenta à Minha Providência, compreenderás maravilhada o Meu beneplácito, manifestado nas minhas ordens e disposições.
[1]Mt 6, 34.