XXVIII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXV

Qual é a causa de todas as tribulações; com que ânimo se deve suportá-las; que coisas devem consolar os afligidos

Recebe toda a tribulação e adversidade como sinal anunciador que a Minha graça se aproxima de ti. Por isso, cada vez que te sentes oprimida pela adversidade, alegra-te, sabendo que a merecestes. Não culpes ninguém dos teus padecimentos, a não ser os teus próprios pecados e, ao mesmo tempo, dá graças, porque, olhando com os olhos da Minha misericórdia, Me dignei a visitar, repreender e castigar-te com a vara dos filhos[1], e não te expulsei da Minha presença como merecias. Se te repreendo, se te castigo, esse é o sinal que te quero fazer o bem. Porém, se não te corrigisse, deixando-te nas tuas próprias mãos, terias a sensação de gozar de paz e tranquilidade; no entanto, serias bem desgraçada por ver-te privada da Minha guarda e proteção.

Cada vez que sofras, diz a ti mesma: — Coisas mais graves mereço eu. Porém, ainda que não tivesses merecido qualquer tribulação, deverias suportá-la de bom grado por amor a Mim, que dispus que sofresses, com um coração amante e paciente, de modo a que nada se oponha à Minha graça. Lembra-te que sofri por ti.[2]No entanto, mesmo que não tivesse sofrido nada, não te bastaria os infinitos benefícios que te concedo cada dia—pois tudo o que tens, de Mim o recebestes—para Me tornar digno que padeças algo por Mim?

Afinal de contas, deves pensar que és Minha, que te fiz e formei como o barro nas mãos do oleiro. Por isso, és património do Meu poder e da Minha justiça em fazer contigo o que desejo. Crês que podes discutir coMigo? Não mais que o barro com o oleiro. Que tens a dizer contra o teu Criador, sejam eles consolos ou aflições? Estando tu consciente de tantos males que merecias, não deverias antes desejar que castigasse em ti o desprezo com que desdenhastes a Minha bondade? Não deverias ser humilhada pela tua soberba? Porém, sucede algo bem melhor: Eu, que te amo com fidelidade inquebrantável, dou-te sempre o que te convém. A Minha vontade dispôs que sofresses o que sofres nesta hora e a este momento.

Para que se cumpra esta muito amável vontade, plena de fidelidade e amor, deverias desejá-la com toda a tua alma, de forma a aceitares os teus sofrimentos com alegria, doçura, ação de graças, mansidão e um coração devoto, sem pensar nada de amargo ou tenebroso contra aqueles que parecem ser a causa dos teus padecimentos; deves considerá-los mais como Meus servidores enviados propositadamente por Mim para executar as Minhas ordens. Vê sempre a Minha mão por trás tudo o que te sucede, considerando com quanto amor, bondade e fidelidade dispôs o Meu coração que padeças estas coisas. Portanto, recebe apenas da Minha mão toda a aflição e compreende que te foi enviada por amor, como um meio utilíssimo para a tua salvação. Recebe-a com o mesmo amor com que a envio a ti. Além disso, se não sofresses nenhuma adversidade, pensarias que não te ocupo de ti e que te abandonei ao privar-te de um dom tão nobre com que costumo honrar e adornar todos os Meus amigos: o sofrimento e a tribulação. Recorda quantas tribulações, quantas perseguições, quantas contradições sofri Eu, e quantas padeceu a Minha bendita Mãe e todos os Meus amigos que seguiram os Meus passos. Lembra-te também que ninguém pode chegar à glória da eternidade se não através da cruz e do cálice da adversidade, e que não há outro caminho para a pátria celestial fora desta via régia. Assim, deves passar por ela se quiseres desfrutar da nossa companhia na felicidade que não tem fim.

Por último, não há sacrifício que faças ou sofras por amor a Mim, por mais pequeno e insignificante que te pareça, que não te alcance de Mim a maior e gloriosa recompensa. No entanto, não quero que ofereças o teu sofrimento pelo interesse da recompensa, mas apenas por amor. Eu sei que prémio te quero conceder. E quero dá-lo a ti por que assim o desejo, pois nada devo a ninguém. Os Meus dons são gratuitos. Por isso, não penses no prémio, mas antes pensa em Mim do modo mais nobre, com o coração cheio de amor e fidelidade. Seja qual for a situação, submete-te à Minha vontade por amor.  Se soubesses a grandeza do fruto das tribulações, desejarias gloriar-te na cruz e na tribulação. Quantas mais adversidades te sobrevierem, quanto mais obstáculos encontrares aos teus desejos—incluindo o desejo de Me agradar—, tanto mais fervorosa deverás mostrar-te perante o sofrimento e abandonar-te ainda mais à Minha vontade. Quando a tua boa vontade encontra resistência, toma consciência que é a Minha providência que está a atuar para que adquiras duas virtudes em vez de uma apenas: pela intenção de fazeres uma boa obra, obterás a recompensa dessa boa obra, apesar de não a teres podido fazer; e pelas dificuldades que se opõem à tua boa vontade, a coroa da paciência.

Além disso, a boa vontade, quanto mais fiel permaneça perante a tentação e a adversidade, e quanto mais constante persevere diante das dificuldades, tanto mais gloriosa será a coroa que receberá na Minha presença. Porque te amo, quero que sejas toda Minha, Minha esposa pura e fiel; quero que te entregues a Mim sem reservas e vás, não por onde queres, mas por onde desejo. Desta forma impedirei que, quando desejares agradar-Me, não te busques a ti mesma, mas apenas a Mim. Como uma serva fiel e obediente que apenas quer o que a sua senhora deseja, não procures nada em ti própria, mas somente a Mim; e considera suportar com gratidão tudo o que a Minha vontade dispuser, tanto pelas mãos dos homens, como por qualquer outro meio.


[1]Cf. Prov. 29, 15.

[2]Cf. 1Pe. 2, 21.