Capítulo XXVII
Apenas a nós devemos imputar o que sofremos; que na adversidade devemos ter diante dos nossos olhos a vida, os costumes e a Paixão de Cristo
Filha Minha, não culpes os homens dos teus sofrimentos. Por acaso é má a vara que um pai usa para corrigir o seu filho? Porque te enfureces com os homens que Me servem de flagelo para te emendares? Não brigues nem discutas com eles, mas antes põe-te em guarda contra a tua impaciência para que o prémio devido à tua paciência não te seja tirado por causa das tuas queixas. Sê paciente, bondosa e mansa com os teus semelhantes; mostra um semblante sereno, de maneira a que nenhuma perturbação, nenhuma queixa, nenhum abatimento ou tristeza deixe entender o que estás a sofrer.
Se alguém te contradiz ou te insulta, mostra-lhe um rosto sereno e bondoso, permanece em silêncio e sorri-lhe humildemente, dando testemunho do amor que tudo aceita, de quem tudo estima como bom e não pensa na vingança, nem sente ofensa. Em tal situação, não digas nada; no máximo, duas ou três palavras, e com grande modéstia. Mostra-te tão humilde e mansa que ninguém tema em te repreender, desprezar-te e falar-te com dureza. Em toda a adversidade, perante reprimendas, insultos ou injúrias, aprende a guardar silêncio, a sofrer e a manter-te calma; deste modo, alcançarás a Minha graça. Nunca a obterás a não ser pelo meio do silêncio e da aceitação confiante das tuas tribulações que tenho de usar para te provar.
Filha e esposa Minha, tens na Minha vida um exemplo de paciência e mansidão. Pois não foi em vão que disse: — Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração [1]. Entre penas e dores atrozes, entre mentiras e blasfémias, entre as cruéis ameaças e os rostos ferozes dos Meus inimigos, que queixa saiu dos Meus lábios? Que inimigo amaldiçoei? A quem falei com ira? A quem respondi com dureza? A quem desejei o mal? Mais ainda, de quem Me não compadeci, mas antes rezei por todos? Faz tu, então, o mesmo: em silêncio e na paz, tem paciência e doçura, sem murmuração, nem queixas. Não lutes por ti. Não respondas por ti mesma. Não te defendas nem te desculpes. Guarda silêncio e confia em Mim a tua pessoa e a tua causa. Eu lutarei por ti; mantem-te em silêncio, une-te a Mim e dispõe-te a suportar toda a confusão por amor a Mim, sem deixar escapar a mínima queixa, tanto interior como exteriormente.
Enquanto te pareça que sejas objeto de alguma injustiça, enquanto te sintas tratada injusta e indignamente, ainda não terás atingido, filha Minha, a verdadeira paciência nem o conhecimento de ti mesma. Sai, pois, ao encontro de toda a adversidade com alegria e fervor espiritual; oferece-te como vítima disposta a sofrer a necessidade, o trabalho e a tribulação na maneira que desejo. Considera perdido o dia em que não tenhas experimentado a cruz. Se conhecesses o fruto da paciência, mostrarias uma grande reverência e gratidão a quem te oprime. Recorda como Eu, cordeiro inocente, oferecia um coração doce e tranquilo a quem Me cuspia, flagelava e crucificava, e como os perdoava e orava por eles [2]. Faz o mesmo e não tenhas em conta qualquer ofensa; mais ainda, nem penses que te ofenderam. Pelo contrário, olha para Mim, escuta-Me e compreende que sou Eu, unicamente Eu, que por amor te faz isto tudo.
Deste modo, filha Minha, nada há numa criatura que não seja para ti um meio e ocasião para te acrescentar a Minha graça, porque me encontrarás em todas as coisas se aprenderes a contemplar a criatura, não como criatura, mas Eu nela; se aprenderes a acolher-Me, a escutar-Me e a sentir-Me na criatura, pois em toda a criatura te falo.
Escuta, pois, e compreende que desejo
tudo o que te sucede; e quando descobrires qual é a Minha vontade, mostra-te de
imediato disposta a aceitá-la.
[1] Mt 11, 29.
[2] Cf. Lc 23, 34.