XXIX. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXVII

Apenas a nós devemos imputar o que sofremos; que na adversidade devemos ter diante dos nossos olhos a vida, os costumes e a Paixão de Cristo

            Filha Minha, não culpes os homens dos teus sofrimentos. Por acaso é má a vara que um pai usa para corrigir o seu filho? Porque te enfureces com os homens que Me servem de flagelo para te emendares? Não brigues nem discutas com eles, mas antes põe-te em guarda contra a tua impaciência para que o prémio devido à tua paciência não te seja tirado por causa das tuas queixas. Sê paciente, bondosa e mansa com os teus semelhantes; mostra um semblante sereno, de maneira a que nenhuma perturbação, nenhuma queixa, nenhum abatimento ou tristeza deixe entender o que estás a sofrer.

            Se alguém te contradiz ou te insulta, mostra-lhe um rosto sereno e bondoso, permanece em silêncio e sorri-lhe humildemente, dando testemunho do amor que tudo aceita, de quem tudo estima como bom e não pensa na vingança, nem sente ofensa. Em tal situação, não digas nada; no máximo, duas ou três palavras, e com grande modéstia. Mostra-te tão humilde e mansa que ninguém tema em te repreender, desprezar-te e falar-te com dureza. Em toda a adversidade, perante reprimendas, insultos ou injúrias, aprende a guardar silêncio, a sofrer e a manter-te calma; deste modo, alcançarás a Minha graça. Nunca a obterás a não ser pelo meio do silêncio e da aceitação confiante das tuas tribulações que tenho de usar para te provar.

            Filha e esposa Minha, tens na Minha vida um exemplo de paciência e mansidão. Pois não foi em vão que disse: — Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração [1]Entre penas e dores atrozes, entre mentiras e blasfémias, entre as cruéis ameaças e os rostos ferozes dos Meus inimigos, que queixa saiu dos Meus lábios? Que inimigo amaldiçoei? A quem falei com ira? A quem respondi com dureza? A quem desejei o mal? Mais ainda, de quem Me não compadeci, mas antes rezei por todos? Faz tu, então, o mesmo: em silêncio e na paz, tem paciência e doçura, sem murmuração, nem queixas. Não lutes por ti. Não respondas por ti mesma. Não te defendas nem te desculpes. Guarda silêncio e confia em Mim a tua pessoa e a tua causa. Eu lutarei por ti; mantem-te em silêncio, une-te a Mim e dispõe-te a suportar toda a confusão por amor a Mim, sem deixar escapar a mínima queixa, tanto interior como exteriormente.

            Enquanto te pareça que sejas objeto de alguma injustiça, enquanto te sintas tratada injusta e indignamente, ainda não terás atingido, filha Minha, a verdadeira paciência nem o conhecimento de ti mesma. Sai, pois, ao encontro de toda a adversidade com alegria e fervor espiritual; oferece-te como vítima disposta a sofrer a necessidade, o trabalho e a tribulação na maneira que desejo. Considera perdido o dia em que não tenhas experimentado a cruz. Se conhecesses o fruto da paciência, mostrarias uma grande reverência e gratidão a quem te oprime. Recorda como Eu, cordeiro inocente, oferecia um coração doce e tranquilo a quem Me cuspia, flagelava e crucificava, e como os perdoava e orava por eles [2]. Faz o mesmo e não tenhas em conta qualquer ofensa; mais ainda, nem penses que te ofenderam. Pelo contrário, olha para Mim, escuta-Me e compreende que sou Eu, unicamente Eu, que por amor te faz isto tudo.

            Deste modo, filha Minha, nada há numa criatura que não seja para ti um meio e ocasião para te acrescentar a Minha graça, porque me encontrarás em todas as coisas se aprenderes a contemplar a criatura, não como criatura, mas Eu nela; se aprenderes a acolher-Me, a escutar-Me e a sentir-Me na criatura, pois em toda a criatura te falo.

            Escuta, pois, e compreende que desejo tudo o que te sucede; e quando descobrires qual é a Minha vontade, mostra-te de imediato disposta a aceitá-la.


[1] Mt 11, 29.

[2] Cf. Lc 23, 34.

O pequeno número daqueles que são salvos

S. Leonardo de Porto Maurício

Festa Litúrgica: 26 de Novembro

Este é o sermão mais famoso que S. Leonardo de Porto Maurício, um frade franciscano que arrastava multidões no seu tempo, pregava para convencer os pecadores a deixarem a sua vida que conduz ao Inferno. Apesar de ter sido escrito no século XVII, ainda-se mantém bem atual.

O assunto de que hoje vou tratar é muito grave; fez mesmo tremer os pilares da Igreja, encheu de terror os maiores Santos e povoou os desertos com anacoretas. O ponto desta instrução está em decidir se o número de Cristãos que se salvam é maior ou menor do que o número de Cristãos que se condenam; e produzirá em vós, segundo espero, um salutar temor dos juízos de Deus.

Porque devo eu falar claramente

Meus Irmãos, pelo Amor que eu tenho por vós, bem gostaria de poder sossegar-vos com a perspetiva da felicidade eterna, dizendo a cada um de vós: Tende a certeza de que ireis para o Paraíso; a maior parte dos Cristãos salva-se e, por isso, vós também vos salvareis. Mas como posso eu dar-vos tão doce segurança, se vós vos revoltais contra os decretos de Deus, como se vós fôsseis os vossos piores inimigos? Eu observo em Deus um desejo sincero de vos salvar, mas encontro em vós uma decidida inclinação para serdes condenados. Então, o que farei eu hoje se falar claramente? Ser-vos-ei desagradável. Mas, se eu não falar, serei desagradável a Deus.

Portanto, dividirei este assunto em dois pontos. No primeiro, para vos encher de terror, deixarei os teólogos e os Padres da Igreja decidir sobre este assunto e declarar que o maior número de Cristãos adultos se condena; e, em silenciosa adoração deste terrível mistério, guardarei para mim os sentimentos pessoais. No segundo ponto, tentarei defender a bondade de Deus versus a falta de Deus, provando-vos que aqueles que são condenados se condenam pela sua própria malícia, porque querem ser condenados. Portanto, há aqui duas verdades muito importantes. Se a primeira verdade vos assusta, não me censureis por isso, como se eu quisesse fazer mais estreito, para vós, o caminho para o Céu, pois quis ser neutro nesta matéria; censurai antes os teólogos e os Padres da Igreja, que hão-de gravar esta verdade nos vossos corações pela força da razão. Se ficastes desiludidos com a segunda verdade, dai graças a Deus por isso, pois Ele só quer uma coisa: que vós Lhe deis inteiramente o vosso coração. Finalmente, se vós me obrigais a dizer-vos o que eu penso, eu fá-lo-ei para vossa consolação.

Este tópico é muitíssimo importante

Não é curiosidade vã, mas sim uma precaução salutar proclamar do alto do púlpito certas verdades que servem à maravilha para conter a indolência dos libertinos, que tanto falam da misericórdia de Deus e de como é fácil converter-se, que vivem mergulhados em toda a sorte de pecados e dormem profundamente no seu caminho para o Inferno. Para os desiludir, e para os acordar do seu torpor (inatividade mental), examinemos hoje esta grande questão: O número de Cristãos que se salvam será maior do que o número de Cristãos que se condenam?

Ó almas piedosas, vós podeis sair; este sermão não é para vós. O seu único propósito é conter o orgulho dos libertinos, que lançam fora do seu coração o santo temor de Deus e juntam forças com o demónio que, segundo o sentir de Eusébio, condena as almas ao mesmo tempo que as sossega. Para resolver esta dúvida, ponhamos os Padres da Igreja, tanto Gregos como Latinos, de um lado; do outro, os teólogos mais ilustrados e os historiadores mais eruditos; e ponhamos a Bíblia ao meio, para que todos a vejam. E agora ouvi, não o que eu vos disser – pois já afirmei que não quero falar por mim próprio nem decidir neste assunto – mas ouvi aquilo que estas mentes ilustres têm para vos dizer, eles que são faróis na Igreja de Deus para darem luz aos outros, de modo a eles não perderem o caminho para o Céu. Deste modo, guiados pela luz tripla da fé, da autoridade e da razão, seremos capazes de dar resposta a este grave assunto e resolvê-lo com uma absoluta certeza.

Falam os Teólogos mais reconhecidos

Notem bem que aqui não é questão da raça humana tomada como um todo, nem de todos os Católicos tomados sem distinção, mas apenas dos Católicos adultos, que têm livre escolha e, consequentemente, são capazes de cooperar na grande matéria da sua salvação. Primeiro, consultemos os teólogos reconhecidos por examinarem as coisas mais cuidadosamente e por não exagerarem nos seus ensinamentos: ouçamos dois Cardeais eruditos, Cajetano e S. Roberto Belarmino. Ensinam eles que o maior número de Cristãos adultos se condena, e se eu tiver tempo para vos apontar as razões em que eles se baseiam, convencer-vos-eis disso por vós mesmos. Mas eu limitar-me-ei aqui a citar Suárez (o grande teólogo). Depois de consultar todos os teólogos e de fazer um diligente estudo sobre o assunto, escreveu ele: “O sentimento mais comum que é mantido é o de que, entre os Cristãos, há mais almas condenadas do que almas predestinadas.”

Os Padres Gregos e Latinos ensinam-nos

Acrescente-se a autoridade dos Padres Gregos e Latinos à dos teólogos, e descobrireis que quase todos eles dizem a mesma coisa. É este o sentimento de S. Teodoro, S. Basílio, S. Efrém e S. João Crisóstomo. E, o que é mais, segundo Barónio, era opinião comum entre os Padres Gregos que esta verdade tinha sido expressamente revelada a S. Simão Estilita e que ele, depois de tal revelação, decidiu, para assegurar a sua salvação, viver de pé no cimo de um pilar durante quarenta anos, exposto às intempéries, como modelo de penitência e santidade para todos. Consultemos agora os Padres Latinos. Ouviríeis S. Gregório a dizer claramente: “Muitos atingem a fé, mas poucos o Reino dos Céus.” Santo Anselmo declara: “São poucos os que se salvam.” E Santo Agostinho afirma, ainda com maior clareza: “Por conseguinte, poucos são aqueles que se salvam, em comparação com aqueles que se condenam.” O mais aterrorizador é, contudo, S. Jerónimo. No fim da vida, na presença dos seus discípulos, ele pronunciou estas palavras terríveis: “De cem mil pessoas cujas vidas foram sempre más, dificilmente se encontrará uma que seja merecedora de indulgência.”

As palavras da Sagrada Escritura

Mas porquê procurar as opiniões dos Padres e teólogos, quando a Sagrada Escritura resolve esta questão tão claramente? Olhai para o Antigo e para o Novo Testamentos, e encontrareis uma multidão de figuras, símbolos e palavras que salientam claramente esta verdade: muito poucos se salvam. No tempo de Noé, toda a raça humana foi submersa pelo Dilúvio, e só oito pessoas se salvaram na Arca. S. Pedro afirma: “Esta arca era a figura da Igreja,” enquanto Santo Agostinho acrescenta: “E estas oito pessoas que se salvaram significam que muito poucos Cristãos se salvam, porque há muito poucos que renunciam sinceramente ao mundo, e aqueles que a ele renunciam só em palavras não pertencem ao mistério representado por aquela arca.” A Bíblia diz também que só dois dos dois milhões de Hebreus entraram na Terra Prometida após terem saído do Egipto, e que só quatro escaparam ao fogo de Sodoma e das outras cidades queimadas que com ela pereceram. Tudo isto significa que o número dos condenados que serão lançados ao fogo como palha é muitíssimo maior do que o dos que são salvos, os quais o Pai do Céu há-de um dia reunir no Seu celeiro como trigo precioso.

As palavras de Jesus

Eu nunca mais acabaria se tivesse de vos indicar todas as figuras pelas quais a Sagrada Escritura confirma esta verdade; contentemo-nos em ouvir o oráculo vivo da Sabedoria Incarnada. O que respondeu Nosso Senhor àquele homem curioso do Evangelho que Lhe perguntou: “Senhor, só uns poucos se salvarão?” Acaso se calou? Ou respondeu hesitantemente? Acaso ocultou Ele o Seu pensamento por medo de assustar a multidão? Não. Questionado só por um, Ele dirigiu-se a todos os presentes. E disse-lhes: “Perguntais-Me se só alguns serão salvos?” Aqui está a minha resposta: “Em verdade, em verdade vos digo: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita; porque muitos procurarão entrar e não serão capazes.” Quem está aqui a falar? É o Filho de Deus, Verdade Eterna, que em outra ocasião diz ainda mais claramente: “Muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos.” Ele não diz que todos são chamados e que, de entre todos os homens, poucos são os escolhidos, mas sim que muitos são chamados; o que significa, segundo explica S. Gregório, que de entre todos os homens, muitos são chamados para a Verdadeira Fé, mas que, de entre eles, poucos se salvam. Meus Irmãos, são estas as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. Acaso são claras? São a Verdade. Dizei-me agora se vos é possível ter fé no vosso coração e não tremer.

A Salvação nos diversos estados de vida

Mas, oh! Vejo que, ao falar assim de todos em geral, estou a desviar-me do meu tema. Apliquemos então esta verdade a vários estados, e compreendereis que deveis ignorar a razão, a experiência e o senso comum dos fiéis, ou então confessar que a maior parte dos Católicos será condenada.

Haverá no mundo algum estado de vida mais favorável à inocência, no qual a salvação pareça mais fácil e do qual as pessoas tenham uma ideia mais elevada, do que o dos sacerdotes, os lugar-tenentes de Deus? À primeira vista, quem não pensaria que a maior parte deles é, não apenas boa, senão mesmo perfeita? Mas eu fico horrorizado quando ouço S. Jerónimo declarar que, embora o mundo esteja cheio de sacerdotes, dificilmente um em cem vive de um modo que esteja em conformidade com o seu estado (vocação); quando ouço um servo de Deus testemunhando que soube, por uma revelação, que o número de padres que, em cada dia, cai no inferno é tão grande que se lhe afigura impossível que tenham ficado alguns na terra; quando ouço S. João Crisóstomo exclamar de lágrimas nos olhos: “Eu não acredito que muitos sacerdotes se salvem; pelo contrário, acredito que o número daqueles que se condenam é maior.”

Olhai ainda mais para cima, e vede os prelados da Santa Igreja, pastores que têm as almas a seu cargo. Entre estes, será acaso o número dos que se salvam maior do que o número dos que se condenam? Ouvi então Cantimpré; ele contar-vos-á um certo acontecimento, e vós podeis tirar as conclusões. Havia um sínodo que se realizava em Paris, e a ele assistia um grande número de prelados e pastores de almas; o Rei e os príncipes vieram também, acrescentando lustro àquela assembleia com a sua presença. Um pregador famoso fora convidado para pregar. E, enquanto ele estava a preparar o seu sermão, um demónio horrível apareceu-lhe e disse: “Põe de parte os teus livros. Se queres fazer um sermão que seja útil a estes príncipes e prelados, contenta-te em dizer-lhes, da nossa parte: ‘Nós, os príncipes das trevas, vos agradecemos a vós, príncipes, prelados, e pastores de almas, porque, devido à vossa negligência, o maior número dos fiéis se condenará; temos também guardada uma recompense para vós, por este favor, quando estiverdes connosco no Inferno.’”

Ai de vós que mandais noutros! Se se perdem tantos por vossa culpa, o que vos acontecerá? Se poucos dos que estão em lugares preeminentes na Igreja de Deus se salvam, o que vos acontecerá? Vede todos os estados, ambos os sexos, todas as condições: maridos, esposas, viúvos, raparigas, rapazes, soldados, comerciantes, artífices, ricos e pobres, nobres e plebeus. Que havemos de dizer de todas estas pessoas que vivem tão mal? A seguinte narrativa de S. Vicente Ferrer mostrar-vos-á o que podereis pensar sobre isto. Conta ele que um arcediago em Lyon deixou o seu cargo e retirou-se para um lugar deserto para fazer penitência, e morreu no mesmo dia e hora de S. Bernardo. Depois da sua morte, ele apareceu ao seu Bispo e disse-lhe: “Sabei, Monsenhor, que à mesma hora em que eu morri, morreram também trinta e três mil pessoas. Deste número, Bernardo e eu subimos ao Céu sem demora, três foram para o Purgatório, e todas as outras precipitaram-se no Inferno.”

As nossas crónicas relatam um acontecimento ainda mais terrível. Um dos nossos irmãos, bem conhecido pela sua doutrina e santidade, estava a pregar na Alemanha. Representava ele a fealdade do pecado da impureza de um modo tão forte que uma mulher caiu ali morta de tristeza, diante de toda a gente. Depois, tendo voltado à vida, disse ela: “Quando eu fui apresentada diante do Tribunal de Deus, sessenta mil pessoas chegaram ao mesmo tempo, vindas de todas as partes do mundo; daquele número, três foram salvas, passando pelo Purgatório, e todas as restantes se condenaram.”

Oh, abismos dos juízos de Deus! De trinta mil, só cinco se salvaram! E de sessenta mil, só três foram para o Céu! Vós, pecadores que me ouvis, em que categoria sereis vós contados?… O que me dizeis?… O que pensais?…

Eu vejo quase todos vós a baixar a cabeça, cheios de assombro e horror. Mas deixemos de parte o nosso espanto e, em vez de nos lisonjearmos uns aos outros, tentemos retirar algum proveito do nosso medo. Não é verdade que há dois caminhos que levam ao Céu: a inocência e o arrependimento? Ora, se eu vos mostrar que há muito poucos que tomam um ou outro destes dois caminhos, concluireis, como pessoas racionais, que muito poucos se salvam. E para mencionar provas: em qual idade, emprego ou condição não achareis que o número dos perversos é cem vezes maior do que o dos bons, e de cada um se poderia dizer: “Os bons são tão raros e os maus são tão numerosos”?

Podemos dizer dos nossos tempos o que Salviano disse do tempo dele: é mais fácil de achar uma multidão inumerável de pecadores imersos em toda a sorte de iniquidades do que uns poucos de homens inocentes.

Quantos servidores são totalmente honestos e fiéis nos seus deveres? Quantos comerciantes são justos e equitativos no seu comércio; quantos artífices são exatos e verdadeiros; quantos vendedores são desinteressados e sinceros? Quantos homens das leis não esquecem a equidade? Quantos soldados não calcam aos pés a inocência; quantos senhores não retêm injustamente o salário daqueles que os servem, ou não procuram dominar os seus subordinados?

Por toda a parte, os bons são raros e os maus numerosos. Quem não sabe que hoje há tanta libertinagem entre os homens maduros, licenciosidade entre as raparigas jovens, vaidade entre as mulheres, voluptuosidade na nobreza, corrupção na classe média, dissolução no povo, descaramento entre os pobres, de tal maneira que se poderia dizer o mesmo que David disse dos tempos dele: “Todos, por igual, se afastaram do bem… não há nem um que pratique o bem, nem sequer um só.”

Ide às ruas e às praças, ao palácio e à casa, à cidade e ao campo, ao tribunal e às casas das leis, e até mesmo ao templo de Deus. Onde encontrareis a virtude? “Ai de nós!” clama Salviano, “exceto um número muito pequeno que foge do mal, o que é a assembleia de Cristãos senão um poço de vício?”

Tudo o que podemos encontrar por toda a parte é egoísmo, ambição, gula e luxúria. Não está a maior parte dos homens conspurcada pelo vício da impureza, e não tinha S. João toda a razão ao dizer: “O mundo inteiro está assente na maldade?” E não sou eu quem vos diz isto; a razão obriga-vos a acreditar que, de entre aqueles que vivem tão mal, muito poucos se salvam.

Mas, dir-me-eis: Não pode a penitência reparar com proveito a falta de inocência? Eu admito que é verdade. Mas também sei que a penitência é tão difícil na prática, não tendo nós perdido assim tão completamente o mau hábito, e dela tão gravemente abusam os pecadores, que só isto deveria bastar para vos convencer de que muito poucos se salvam por este caminho. Oh, quão inclinado, estreito, cheio de silvas e horrível de ver e difícil de escalar ele é! Por onde quer que olhemos, só vemos vestígios de sangue e coisas que recordam tristes memórias. Muitos enfraquecem só ao vê-lo. Muitos retiram-se mesmo no começo. Muitos caem de cansaço a meio caminho, e muitos infelizes desistem no fim. E são tão poucos os que perseveram até à morte! Diz Santo Ambrósio que é mais fácil encontrar pessoas que tenham conservado a sua inocência do que achar alguém que tenha feito a penitência necessária.

Horríveis abusos da Confissão

Se se considerar o Sacramento da Penitência, há tantas Confissões distorcidas, tantas desculpas estudadas, tantos arrependimentos enganadores, tantas falsas promessas, tantas resoluções ineficazes, tantas absolvições inválidas! Consideraríeis válida a Confissão de alguém que se acusa de pecados de impureza e continua ainda agarrado às ocasiões de os cometer? Ou a de alguém que se acusa de injustiças óbvias e que não tem a menor intenção de fazer uma qualquer reparação por elas? Ou a de alguém que recai de novo nas mesmas iniquidades logo depois de ir à Confissão?

Oh, que horríveis abusos de um tão grande Sacramento! Um confessa-se para evitar a excomunhão, outro para ter uma reputação de penitente. Um descarta os seus pecados para acalmar os remorsos, outro esconde-os por vergonha. Um acusa-os imperfeitamente por malícia, outro revela-os por hábito. Um não tem presente na sua mente o verdadeiro fim do Sacramento, outro não tem o arrependimento necessário, e outro ainda o firme propósito de não voltar a pecar. Pobres confessores, que esforços fazeis para levardes o maior número possível de penitentes àquelas resoluções e atos sem os quais a Confissão é um sacrilégio, a absolvição uma condenação e a penitência uma ilusão!

Onde estão eles agora, aqueles que acreditam que, de entre os Cristãos, o número dos que se salvam é maior do que o daqueles que se condenam e que, para autorizar a sua opinião, raciocinam assim: a maior parte dos Católicos adultos morre nas suas camas, armados com os Sacramentos da Santa Igreja, logo, a maior parte dos Católicos adultos salva-se? Oh, que grande raciocínio! Deveis dizer exatamente o contrário. A maior parte dos Católicos adultos confessa-se mal à hora da morte; portanto, a maior parte deles se condena. E digo “quanto mais certo,” porque um moribundo que não se confessou bem quando tinha saúde terá ainda mais dificuldade em o fazer quando está de cama com um coração pesado, uma cabeça fraca, uma mente baralhada; quando tem a oposição, de muitas maneiras, de objetos ainda vivos, de ocasiões ainda frescas, de hábitos adoptados, e acima de tudo de demónios que procuram todos os meios para o lançar no Inferno.

Ora, se juntardes a todos estes falsos penitentes todos os outros pecadores que morrem inesperadamente em pecado, por ignorância dos médicos ou por culpa dos parentes, que morrem por envenenamento ou por ficarem enterrados em terramotos, ou de uma síncope, ou de uma queda, ou no campo de batalha, numa briga, apanhados numa armadilha, fulminados pelo relâmpago, queimados ou afogados, não sois obrigados a concluir que a maior parte dos Cristãos adultos se condena?

É este o raciocínio de S. João Crisóstomo. Este Santo diz que a maioria dos Cristãos, através da sua vida, caminha pela estrada que vai dar ao inferno. Porquê, então, ficais tão surpreendidos com o facto de o maior número ir para o inferno? Para chegar a uma porta, vós deveis tomar o caminho que ali conduz. O que tendes a responder a uma razão tão poderosa?

A resposta, dir-me-ão, é que a misericórdia de Deus é grande. Sim, para aqueles que O temem, como diz o Profeta; mas grande é também a Sua Justiça para com aqueles que não O temem, e ela condena todos os pecadores obstinados.

O Paraíso é só para os Cristãos

O Paraíso é para os Cristãos, evidentemente, mas para aqueles que não desonraram o seu carácter e que vivem como Cristãos. Além disso, se ao número de Cristãos adultos que morrem na graça de Deus se acrescentar a hoste incontável de crianças que morrem depois do batismo e antes de atingirem a idade da razão, não se ficará surpreendido com o que diz o Apóstolo São João, ao falar daqueles que se salvam: “Eu vi uma grande multidão que ninguém poderia contar.”

E é isto o que engana aqueles que pretendem que o número dos que se salvam, de entre os Católicos, é maior do que o dos condenados… Se a esse número acrescentardes os adultos que conservaram o manto da inocência, ou que, depois de o terem manchado, o lavaram em lágrimas de penitência, é certo que é o maior número que se salva; e tal explica as palavras de S. João: “Eu vi uma grande multidão,” e estas outras palavras de Nosso Senhor: “Muitos hão-de vir do Oriente e do Ocidente, e festejarão com Abraão, Isaac e Jacob no Reino do Céu,” e as outras figuras geralmente citadas a favor desta opinião. Mas se vos referis a Cristãos adultos, a experiência, a razão, a autoridade, a propriedade e as Escrituras concordam em provar que a maioria é condenada, Não penseis que, por causa disso, o Paraíso está vazio; pelo contrário, é um reino muito povoado. E se os condenados são “tão numerosos como a areia do mar, ” os que se salvam são “tão numerosos como as estrelas do Céu,” isto é, tanto uns como os outros são incontáveis, embora em proporções muito diferentes.

Certo dia, S. João Crisóstomo, pregando na catedral de Constantinopla e considerando estas proporções, não pôde deixar de tremer de horror e de perguntar: “Deste grande número de pessoas, quantas pensais vós que se salvarão?” E, sem esperar pela resposta, acrescentou: “Entre tantos milhares de pessoas, não acharemos uma centena que se salve; e eu tenho dúvidas sobre essas cem pessoas.”

Que coisa terrível! O grande Santo acreditava que, de tanta gente, nem uma centena de salvaria, e mesmo assim, não estava seguro desse número. Que vos acontecerá, a vós que me escutais. Grande Deus, não posso pensar nisso sem me arrepiar! Meus Irmãos, o problema da salvação é uma coisa muito difícil; pois, de acordo com as máximas dos teólogos, quando um fim exige grandes esforços, somente poucos o atingem.

É por isso que S. Tomás, o Doutor Angélico, depois de ter ponderado todas as razões a favor e contra na sua imensa erudição, conclui finalmente que o maior número de Católicos adultos se condena. E diz: “Porque a bem-aventurança eterna ultrapassa o estado natural, especialmente porque este foi privado da graça original, é um pequeno número o dos que se salvam.”

Assim, pois, tirai a venda dos vossos olhos, que vos está a cegar com o amor de vós próprios, que vos impede de crer numa verdade tão evidente, dando-vos ideias muito falsas sobre a justiça de Deus, “Justo Pai, o mundo não Vos conheceu,” disse Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não diz: “Pai Todo Poderoso, Pai muito bom e misericordioso.”

Ele diz “Justo Pai,” para que compreendamos que, de todos os atributos de Deus, nenhum é menos conhecido que a Sua justiça, porque os homens recusam-se a acreditar naquilo que têm medo de enfrentar. Por isso, retirai a venda que vos cobre os olhos e dizei com lágrimas:

Ai de nós! O maior número dos Católicos, o maior número dos que vivem aqui, talvez mesmo dos que estão nesta assembleia, será condenado! Haverá um assunto que seja mais merecedor das nossas lágrimas?

O Rei Xerxes, no cimo de uma colina, olhando para o seu exército de cem mil soldados preparados para dar batalha, e considerando que nenhum deles estaria vivo dali a cem anos, foi incapaz de reter as lágrimas. Não teremos nós mais razões para chorar, ao pensar que, de tantos Católicos, a maior parte deles se perderá? Este pensamento não devia fazer com que corressem rios de lágrimas dos nossos olhos, ou pelo menos produzir no nosso coração o sentimento de compaixão que sentiu um Irmão Agostinho, o Venerável Marcelo de S. Domingos? Um dia, quando estava a meditar sobre os sofrimentos eternos, o Senhor mostrou-lhe quantas almas iam para o inferno naquele momento, e mostrou-lhe uma estrada muito larga em que vinte e dois mil pecadores estavam a correr para o abismo, chocando uns com os outros. O servo de Deus ficou varado de espanto e exclamou: “Oh, que número! Que número! E ainda vêm mais. Ó Jesus! Ó Jesus! Que loucura!”  Deixai-me repetir, com Jeremias: “Quem dará água à minha cabeça, e uma fonte de lágrimas aos meus olhos? E chorarei dia e noite pelos mortos da filha do meu povo.”

Pobres almas! Como podeis correr tão apressadamente para o inferno? Por misericórdia, parai e ouvi-me por um momento! Ou compreendeis o que significa ser salvo e ser condenado por toda a eternidade, ou não compreendeis. Se compreendeis e, apesar disso, não vos decidis a mudar de vida hoje, fazer uma boa Confissão e desprezar o mundo, numa palavra, fazer todos os esforços para serdes contado no pequeno número dos que se salvam, digo-vos que não tendes a Fé. Tereis mais desculpa se não compreendeis, porque então dir-se-á de vós que haveis perdido o juízo. Ser salvo por toda a eternidade, ser condenado por toda a eternidade, e não fazer todos os esforços para evitar um e assegurar o outro, é algo de inconcebível.

A bondade de Deus

Talvez ainda não acrediteis nas verdades terríveis que acabei de vos ensinar. Mas foram os teólogos mais considerados, os Padres mais ilustres que vos falaram através de mim. Então, pois, como podeis resistir a razões apoiadas por tantos exemplos e palavras das Sagradas Escrituras? Se, apesar disso, ainda hesitais e se a vossa mente se inclina para a direcção oposta, esta mesma consideração não será suficiente para vos fazer tremer? Oh, demonstra que não vos preocupais muito com a vossa salvação! Sobre esta matéria tão importante, um homem de bom senso é mais afetado pela menor dúvida do risco que corre do que pela evidência da ruína total noutros assuntos em que a alma não está implicada. Um dos nossos Irmãos, o Beato Giles, costumava dizer que, se apenas um homem houvesse de ser condenado, ele faria todos os possíveis para se certificar de que não seria esse homem.

Então o que devemos nós fazer, nós que sabemos que a maioria será condenada, e não só parte da totalidade dos Católicos? O que devemos fazer? Tomar a resolução de pertencer ao pequeno número dos que se salvam. Direis: Se Cristo queria condenar-me, porque é que Ele me criou? Silêncio, língua atrevida! Deus não criou ninguém para o condenar; mas quem for condenado, sê-lo-á porque quer. Vou, portanto, defender agora a bondade do meu Deus e ilibá-Lo de toda a culpa: será este o assunto da segunda parte.

Antes de continuarmos, ponhamos de um lado todos os livros e todas as heresias de Lutero e Calvino, e do outro lado os livros e heresias dos Pelagianos e dos Semi-Pelagianos, para os queimarmos. Alguns destroem a graça, outros a liberdade, e todos eles estão cheios de erros; lancemo-los, portanto, à fogueira. Todos os condenados têm na fronte o oráculo do Profeta Oseias, “A tua perdição vem de ti,” para que compreendam que quem é condenado, é condenado pela sua própria malícia e porque quer ser condenado.

Em primeiro lugar, tomemos por base estas duas verdades inegáveis: “Deus quer que todos os homens se salvem,” “Todos precisam da graça de Deus.” Ora bem, se vos mostrar que Deus quer salvar todos os homens, e que, para esse fim, dá a todos eles a Sua graça e todos os outros meios necessários para alcançar esse fim sublime, sereis obrigados a concordar que quem for condenado deve imputá-lo à sua própria malícia, e que, se a maior parte dos Cristãos é condenada, é porque eles querem que assim seja. “A tua perdição vem de ti; a tua ajuda só reside em Mim.”

Deus deseja que todos os homens se salvem

Numa centena de lugares das Sagradas Escrituras, Deus diz-nos que o Seu desejo é, de facto, salvar todos os homens. “Será a Minha vontade que um pecador morra, e não que ele se converta dos seus pecados e viva? Eu vivo, disse o Senhor Deus. Não desejo a morte do pecador. Convertei-vos e vivei.” Quando alguém deseja muito qualquer coisa, costuma dizer-se que está a morrer de desejo; é uma hipérbole. Mas Deus quis e continua a querer tanto a nossa salvação que morreu de desejo, e sofreu a morte para nos dar vida. Esta vontade de salvar todos os homens não é, portanto, uma vontade afetada, superficial e aparente em Deus; é uma vontade real, efetiva e benéfica, porque Ele nos fornece todos os meios mais apropriados para que nós nos salvemos. Não no-los dá para que não a obtenhamos; dá-no-los com uma vontade sincera, com a intenção de nós alcançarmos os seus efeitos. E se não os alcançamos, Ele mostra-se preocupado e ofendido por essa causa. Ordena até aos condenados que os usem, para se salvarem; exorta-os a que o façam; obriga-os a fazê-lo; e se não o fazem, cometem um pecado. Portanto, podiam fazê-lo e dessa maneira ser salvos.

E muito mais: como Deus vê que não podemos sequer fazer uso da Sua graça sem a Sua ajuda, dá-nos outras ajudas; e se por vezes não fazem efeito, a culpa é nossa, porque com estas mesmas ajudas, uma pessoa pode abusar delas e ser condenada com elas, e outra pode usá-las bem e ser salva; poderia até ser salva com ajudas menos poderosas. Sim, pode acontecer que abusemos de uma grande graça e nos condenemos, enquanto que outros colaboram com uma graça menor e são salvos.

Santo Agostinho exclama: Se, por conseguinte, alguém se desvia da justiça, esse é levado pela sua livre vontade, guiado pela sua concupiscência, enganado pela sua própria persuasão.” Mas para quem não compreende a teologia, eis o que lhes tenho a dizer: Deus é tão bom que, quando Ele vê um homem a correr para a sua ruína, o Senhor corre atrás dele, chama-o, admoesta-o e acompanha-o até mesmo às portas do inferno; o que não fará Ele para o converter? Envia-lhe boas inspirações e santos pensamentos, e se ele não tira proveito deles, mostra a Sua ira e indignação e persegue-o. Para o fulminar? Não; falha e perdoa-lhe. Mas o pecador ainda não se converteu. Deus envia-lhe uma doença mortal. Decerto é o fim para ele. Não, meus Irmãos, Deus cura-o; o pecador torna-se obstinado no mal e Deus, na Sua misericórdia, procura outro caminho; o Senhor dá-lhe mais um ano e, quando esse ano termina, dá-lhe ainda mais outro.

Não acuseis a Deus!

Mas se o pecador continua a querer lançar-se no inferno, apesar de tudo isso, o que faz Deus? Abandona-o? Não. Pega-lhe na mão e continua a pregar-lhe, mesmo que ele tenha um pé no inferno e outro fora; implora-lhe que não abuse das Suas graças. Agora pergunto-vos, se aquele homem for condenado, não é verdade que é condenado contra a vontade de Deus e porque quer ser condenado? Vinde agora perguntar-me: Se Deus queria condenar-me, porque é que me criou?

Pecador ingrato, aprende hoje que, se estás condenado, não é Deus que deve ser censurado, mas és tu e a tua própria vontade. Para te persuadir desta verdade, desçamos até às profundezas do abismo, e de lá te trarei uma daquelas almas que ardem no inferno, para que ela possa explicar-te esta verdade. Ora aqui está uma: “Diz-me, quem és tu?” “Eu sou um pobre idólatra, nascido numa terra desconhecida; Nunca ouvi falar do Céu nem do Inferno, nem daquilo que estou a sofrer agora.” “Pobre infeliz! Vai-te, não és aquele que eu procuro.” Vem mais um; aqui está ele.“Quem és tu?” “Eu sou um cismático dos confins da Tartária. Vivi sempre numa nação não-civilizada, mal sabendo que existe um Deus.” “Tu não és aquele que eu quero; volta para o inferno.” Aqui está outra. “E quem és tu?” “Eu sou um pobre herege do Norte. Nasci abaixo do Polo e nunca vi nem a luz do sol nem a luz da fé.” “Também não é a ti que eu procuro; volta para o inferno.” Meus Irmãos, parte-se-me o coração ao ver, entre os condenados, estes infelizes que nunca conheceram sequer a Verdadeira Fé. Mesmo assim, sabei que a sentença de condenação foi pronunciada contra eles e lhes foi dito: “A vossa condenação provém de vós.” Eles foram condenados porque o quiseram ser. Eles receberam tantas ajudas de Deus para se salvarem! Nós não sabemos em que tais ajudas consistiram, mas eles sabem-no bem, e agora eles clamam: “Ó Senhor, Vós sois justo… e os Vossos julgamentos são justos.”

Meus Irmãos, deveis saber que a crença mais antiga é a Lei de Deus, e que todos nós a trazemos no nosso coração; que ela pode aprender-se sem professor algum, e que basta ter a luz da razão para conhecer todos os preceitos dessa Lei. É por isso que mesmo os bárbaros se escondem quando cometem um pecado, porque tiveram consciência de ter procedido mal; e são condenados por não terem observado a lei natural que traziam escrita no seu coração; porque, se eles a tivessem observado, Deus antes teria feito um milagre, de preferência a deixá-los ser condenados; Ele ter-lhes-ia enviado alguém que os ensinasse e ter-lhes-ia dado outras ajudas, das quais eles se tornaram indignos por não viverem em conformidade com as inspirações da sua consciência, que nunca deixou de os avisar sobre o bem que eles deviam fazer e sobre o mal que eles deviam evitar. Assim sendo, foi a sua consciência que os acusou no Tribunal de Deus, e que lhes diz constantemente no inferno: “A tua perdição vem de ti.” Não sabem o que hão-de responder e são obrigados a confessar que merecem o seu destino. Ora se estes infiéis não têm desculpa, haverá alguma desculpa para um Católico que tinha tantos sacramentos, tantos sermões, tantas ajudas ao seu dispor? Como ousará ele dizer: “Se Deus queria condenar-me, porque é que me criou?” Como ousará falar desta maneira, quando Deus lhe deu tantas ajudas para se salvar? Continuemos a confundi-lo.

Vós que sofreis nas profundezas, respondei-me! Há alguns Católicos entre vós? “Claro que há!” Quantos? Venha um deles cá acima! “É impossível, eles estão muito lá para o fundo, e trazê-los cá acima iria revirar todo o inferno de pernas para o ar; seria mais fácil impedir um deles enquanto lá está para cair.” Sendo assim, dirijo-me a vós que viveis no hábito do pecado mortal, no ódio, no abismo do vício da impureza, e que a cada dia estais mais perto do inferno. Parai, e voltai atrás; é Jesus que vos chama e que, com as Suas chagas, assim como tantas vozes eloquentes, vos grita: “Meu filho, se estás condenado, só a ti mesmo deves acusar: ‘A tua perdição vem de ti.’ Levanta os olhos e vê todas as graças com que te enriqueci, para garantir a tua salvação eterna. Podia ter-te feito nascer numa floresta da Barbária; foi o que fiz a muitos outros; mas fiz-te nascer na Fé Católica; fiz com que fosses educado por um bom pai e uma mãe excelente, com as instruções e ensinamentos mais puros. Se és condenado apesar de tudo isso, de quem é a culpa? Tua, Meu filho, tua: ‘A tua perdição vem de ti.’

“Podia ter-te lançado no inferno depois do primeiro pecado mortal que cometeste, sem esperar pelo segundo. Fiz isso a tantos outros, mas contigo fui paciente, esperei por ti durante muitos e longos anos; ainda hoje estou a esperar por ti em penitência. Se, apesar de tudo isso, és condenado, de quem é a culpa? Tua, Meu filho, tua: A tua perdição vem de ti. Sabes quantos morreram perante os teus olhos e foram condenados: era um aviso para ti. Sabes quantos outros pus no bom caminho para te dar um bom exemplo. Lembras-te do que aquele excelente confessor te disse? Foi Eu quem o fez dizer-te isso. Ele não te exortou a que mudasses de vida e fizesses uma boa Confissão? Fui Eu quem o inspirou. Recordas-te daquele sermão que tocou o teu coração? Fui Eu quem te levou lá. E o que aconteceu entre ti e Mim no segredo do teu coração, … isso nunca poderás esquecer.

“Essas inspirações interiores, esse conhecimento claro, esse remorso constante da consciência, atrever-te-ás a negá-los? Todos eles eram mais ajudas da Minha graça, porque Eu queria salvar-te. Recusei-Me a dá-los a muitos outros, e dei-os a ti porque te amo ternamente. Meu filho, Meu filho, se eu tivesse falado com eles com tanta ternura como hoje te estou a falar, quantas outras almas teriam regressado ao bom caminho! E tu… e tu voltaste-Me as costas. Ouve o que te vou dizer, porque estas são as Minhas últimas palavras: custaste-Me o Meu Sangue; se queres ser condenado, apesar do Sangue que derramei por ti, não ponhas as culpas sobre Mim; só a ti deves acusar, e por toda a eternidade, não esqueças que, se foste condenado apesar de Mim, foste condenado porque quiseste ser condenado: ‘A tua perdição vem de ti.’

Ó meu bom Jesus, até as pedras estalariam se ouvissem palavras tão doces, expressões tão ternas. Haverá aqui alguém que queira ser condenado, apesar de tantas graças e ajudas? Se houver um, ele que me ouça, e depois que resista, se puder.

Barónio relata que, depois da infame apostasia de Juliano, o Apóstata, ele concebeu um ódio tal ao Santo Batismo que, dia e noite, procurou maneira de apagar o que recebera. Para esse fim, mandou preparar um banho de sangue de bode e meteu-se nele, querendo que este sangue impuro de uma vítima consagrada a Vénus apagasse da sua alma o carácter sagrado do Batismo. Um tal comportamento parece-vos abominável, mas se o plano de Juliano tivesse tido êxito, é certo que sofreria muito menos no Inferno.

Ó pecadores, o conselho que vos quero dar pode parecer-vos estranho; mas se o compreenderdes bem, é, pelo contrário, inspirado por uma terna compaixão por vós. Imploro-vos de joelhos, pelo Sangue de Cristo e pelo Coração de Maria, que mudeis de vida, que regresseis ao caminho que leva ao Céu, e que façais tudo o que puderdes para pertencer ao pequeno número dos que se salvam. Se, pelo contrário, quereis continuar a percorrer o caminho que leva ao inferno, procurai ao menos maneira de apagar o vosso Batismo. Ai de vós, se levais o Santo Nome de Jesus Cristo e o carácter sagrado do Cristão gravado na alma para o inferno! O vosso castigo será ainda maior. Eis, pois, o  que vos aconselho que façais: se não vos quereis converter, ide já, hoje mesmo, pedir ao vosso pastor que apague o vosso nome do registo batismal, de modo a que não fique nenhuma lembrança de terdes alguma vez sido Cristãos; implorai ao vosso Anjo da Guarda que apague do seu livro das graças as inspirações e ajudas que ele vos deu, por ordem de Deus; porque ai de vós se ele os recordar! Dizei a Nosso Senhor que vos retire a Sua fé, o Seu Batismo, os Seus sacramentos.

Estais horrorizados com um tal pensamento? Então lançai-vos aos pés de Jesus Cristo e dizei-lhe, de lágrimas nos olhos e coração contrito:

“Senhor, confesso que não tenho vivido até agora como um Cristão. Não sou digno de ser contado entre os Vossos eleitos. Reconheço que mereço ser condenado; mas grande é a Vossa misericórdia, e, cheio de confiança na Vossa graça, digo-Vos que quero salvar a minha alma, mesmo que tenha que sacrificar a minha fortuna, a minha honra, até mesmo a minha vida, se assim é preciso para me salvar. Se até agora tenho sido infiel, arrependo-me e deploro e detesto a minha infidelidade, e peço-Vos humildemente que me perdoeis. Perdoai-me, bom Jesus, e fortalecei-me também, para que me possa salvar. Não Vos peço riquezas, honra ou prosperidade; peço-Vos apenas uma única coisa, que salve a minha alma.”

E Vós, ó Jesus! O que dizeis? Ó Bom Pastor, vede a ovelha perdida que regressa a Vós, abraçai este pecador arrependido, abençoai os seus suspiros e as suas lágrimas, ou antes, abençoai estas pessoas que estão bem encaminhadas e que não querem mais do que a sua salvação. Irmãos, aos pés de Nosso Senhor, protestemos que queremos salvar as nossas almas, custe o que custar. Digamos-Lhe todos, de olhos humedecidos: “Bom Jesus, quero salvar a minha alma.” Ó abençoadas lágrimas, ó abençoados suspiros!

Conclusão

Irmãos, quero hoje despedir-me de vós, deixando-vos confortados. E se me perguntais os meus sentimentos em relação ao número dos que se salvam, ei-lo: Sejam muitos ou poucos os que se salvam, digo que quem quiser salvar-se, será salvo; e que ninguém pode ser condenado se não quiser. E se é verdade que poucos se salvam, é porque há poucos que vivem bem. Quanto aos restantes, comparai estas duas opiniões: a primeira diz que a maior parte dos Católicos serão condenados; a segunda, pelo contrário, pretende que a maior parte dos Católicos serão salvos. Imaginai um Anjo enviado por Deus para confirmar a primeira opinião, que vem dizer-vos que não só a maior parte dos Católicos serão condenados, mas também que, dos que estão aqui presentes, nesta assembleia, só um se salvará. Se obedecerdes aos Mandamentos de Deus, se detestardes a corrupção deste mundo, se abraçardes a Cruz de Jesus Cristo em espírito de penitência, sereis o que se salvou.

Imaginai agora o mesmo Anjo, que aparece para confirmar a segunda opinião. Diz-vos que não só a maior parte dos Católicos serão salvos, mas ainda que, desta congregação, apenas um será condenado e todo os outros se salvarão. Se depois disso continuardes com as vossas usuras, as vossas vinganças, os vossos atos criminosos, as vossas impurezas, então sereis o que será condenado.Para que serve saber se poucos ou muitos serão salvos? S. Pedro diz-nos: “Fazei boas obras para assegurardes a vossa escolha.” Quando a irmã de S. Tomás de Aquino lhe perguntou o que havia de fazer para ir para o Céu. ele disse-lhe: “Serás salva se o quiseres ser.” Digo-vos o mesmo, e aqui está a prova da minha declaração. Ninguém será condenado, a menos que cometa um pecado mortal: isto é da Fé. E ninguém comete um pecado mortal a não ser que queira: esta é uma proposição teológica inegável. Portanto, ninguém vai para o inferno a não ser que queira; a consequência é óbvia. Não chegará isto para vos confortar? Chorai os pecados do passado, fazei uma boa Confissão, não pequeis mais no futuro, e sereis todos salvos. Porque vos haveis de atormentar assim? Porque é certo que tereis que cometer um pecado mortal para ir para o inferno, e que, para cometerdes um pecado mortal, tereis que querer cometê-lo; e que, consequentemente, ninguém vai para o inferno a não ser que queira. Isto não é apenas uma opinião, é uma verdade inegável e muito confortante; que Deus vos faça compreendê-la, e que Ele vos abençoe. Ámen.

XXVIII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXV

Qual é a causa de todas as tribulações; com que ânimo se deve suportá-las; que coisas devem consolar os afligidos

Recebe toda a tribulação e adversidade como sinal anunciador que a Minha graça se aproxima de ti. Por isso, cada vez que te sentes oprimida pela adversidade, alegra-te, sabendo que a merecestes. Não culpes ninguém dos teus padecimentos, a não ser os teus próprios pecados e, ao mesmo tempo, dá graças, porque, olhando com os olhos da Minha misericórdia, Me dignei a visitar, repreender e castigar-te com a vara dos filhos[1], e não te expulsei da Minha presença como merecias. Se te repreendo, se te castigo, esse é o sinal que te quero fazer o bem. Porém, se não te corrigisse, deixando-te nas tuas próprias mãos, terias a sensação de gozar de paz e tranquilidade; no entanto, serias bem desgraçada por ver-te privada da Minha guarda e proteção.

Cada vez que sofras, diz a ti mesma: — Coisas mais graves mereço eu. Porém, ainda que não tivesses merecido qualquer tribulação, deverias suportá-la de bom grado por amor a Mim, que dispus que sofresses, com um coração amante e paciente, de modo a que nada se oponha à Minha graça. Lembra-te que sofri por ti.[2]No entanto, mesmo que não tivesse sofrido nada, não te bastaria os infinitos benefícios que te concedo cada dia—pois tudo o que tens, de Mim o recebestes—para Me tornar digno que padeças algo por Mim?

Afinal de contas, deves pensar que és Minha, que te fiz e formei como o barro nas mãos do oleiro. Por isso, és património do Meu poder e da Minha justiça em fazer contigo o que desejo. Crês que podes discutir coMigo? Não mais que o barro com o oleiro. Que tens a dizer contra o teu Criador, sejam eles consolos ou aflições? Estando tu consciente de tantos males que merecias, não deverias antes desejar que castigasse em ti o desprezo com que desdenhastes a Minha bondade? Não deverias ser humilhada pela tua soberba? Porém, sucede algo bem melhor: Eu, que te amo com fidelidade inquebrantável, dou-te sempre o que te convém. A Minha vontade dispôs que sofresses o que sofres nesta hora e a este momento.

Para que se cumpra esta muito amável vontade, plena de fidelidade e amor, deverias desejá-la com toda a tua alma, de forma a aceitares os teus sofrimentos com alegria, doçura, ação de graças, mansidão e um coração devoto, sem pensar nada de amargo ou tenebroso contra aqueles que parecem ser a causa dos teus padecimentos; deves considerá-los mais como Meus servidores enviados propositadamente por Mim para executar as Minhas ordens. Vê sempre a Minha mão por trás tudo o que te sucede, considerando com quanto amor, bondade e fidelidade dispôs o Meu coração que padeças estas coisas. Portanto, recebe apenas da Minha mão toda a aflição e compreende que te foi enviada por amor, como um meio utilíssimo para a tua salvação. Recebe-a com o mesmo amor com que a envio a ti. Além disso, se não sofresses nenhuma adversidade, pensarias que não te ocupo de ti e que te abandonei ao privar-te de um dom tão nobre com que costumo honrar e adornar todos os Meus amigos: o sofrimento e a tribulação. Recorda quantas tribulações, quantas perseguições, quantas contradições sofri Eu, e quantas padeceu a Minha bendita Mãe e todos os Meus amigos que seguiram os Meus passos. Lembra-te também que ninguém pode chegar à glória da eternidade se não através da cruz e do cálice da adversidade, e que não há outro caminho para a pátria celestial fora desta via régia. Assim, deves passar por ela se quiseres desfrutar da nossa companhia na felicidade que não tem fim.

Por último, não há sacrifício que faças ou sofras por amor a Mim, por mais pequeno e insignificante que te pareça, que não te alcance de Mim a maior e gloriosa recompensa. No entanto, não quero que ofereças o teu sofrimento pelo interesse da recompensa, mas apenas por amor. Eu sei que prémio te quero conceder. E quero dá-lo a ti por que assim o desejo, pois nada devo a ninguém. Os Meus dons são gratuitos. Por isso, não penses no prémio, mas antes pensa em Mim do modo mais nobre, com o coração cheio de amor e fidelidade. Seja qual for a situação, submete-te à Minha vontade por amor.  Se soubesses a grandeza do fruto das tribulações, desejarias gloriar-te na cruz e na tribulação. Quantas mais adversidades te sobrevierem, quanto mais obstáculos encontrares aos teus desejos—incluindo o desejo de Me agradar—, tanto mais fervorosa deverás mostrar-te perante o sofrimento e abandonar-te ainda mais à Minha vontade. Quando a tua boa vontade encontra resistência, toma consciência que é a Minha providência que está a atuar para que adquiras duas virtudes em vez de uma apenas: pela intenção de fazeres uma boa obra, obterás a recompensa dessa boa obra, apesar de não a teres podido fazer; e pelas dificuldades que se opõem à tua boa vontade, a coroa da paciência.

Além disso, a boa vontade, quanto mais fiel permaneça perante a tentação e a adversidade, e quanto mais constante persevere diante das dificuldades, tanto mais gloriosa será a coroa que receberá na Minha presença. Porque te amo, quero que sejas toda Minha, Minha esposa pura e fiel; quero que te entregues a Mim sem reservas e vás, não por onde queres, mas por onde desejo. Desta forma impedirei que, quando desejares agradar-Me, não te busques a ti mesma, mas apenas a Mim. Como uma serva fiel e obediente que apenas quer o que a sua senhora deseja, não procures nada em ti própria, mas somente a Mim; e considera suportar com gratidão tudo o que a Minha vontade dispuser, tanto pelas mãos dos homens, como por qualquer outro meio.


[1]Cf. Prov. 29, 15.

[2]Cf. 1Pe. 2, 21.

XXVII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXIV

Como, despojando-nos de nós mesmos, devemos confiar
a Deus nós próprios e todas as coisas; que coisas manifestam a bondade

Enquanto houver em ti desejo, preferência ou inclinação para procurar mais prazer, mais repouso ou mais consolo numa coisa em vez de outra, ainda tens em ti algo de amor próprio, ainda não te negastes perfeitamente. Deverias aceitar tudo com indiferença e serenidade, e perseverar apoiada apenas na Minha Providência, pois isto te daria uma grande liberdade, uma paz inalterável e uma tranquilidade perfeita. Não esperes nada de ti mesma, não te fies na tua inteligência nem nas tuas próprias forças; não permitas nada que dependa de ti, nada edifiques sobre ti própria, nada proponhas para proveito próprio; não confies na tua vontade, por mais boa que seja; pelo contrário, abandona-te, sai de ti, e extinguindo todo o egoísmo, permanece e descansa apenas em Mim. Confia na Minha bondade, apoia-te na Minha graça e na Minha Providência, sempre disposta—mas bem longe das preferências pessoais, sem distinções, sem resistências no teu coração—a aceitar, segundo a Minha vontade, a prosperidade e a adversidade, no tempo e na eternidade, desejando ser sempre o que quero que sejas.

Por isso, não te preocupes se avanças muito ou pouco, se estás perto ou longe de Mim, se os dons que recebes são grandes ou pequenos ou se terás que passar pelo Purgatório depois de abandonares este mundo. Deixa tudo isso à Minha Providência e deseja apenas a ficares sob a Minha vontade e o que ela dispõe. Considera como o maior bem que se cumpra em ti a Minha última, suprema e muito laudável vontade, agradando-Me em tudo o que eu disponha. Que a Minha vontade seja a tua perfeição e a medida da tua perfeição.

Nenhuma curiosidade, nenhuma preocupação por coisas futuras agite o teu coração; não te inquietes com o que é incerto e contingente; antes confia tudo a Mim, pois tudo governo. O mal esperado ou temido poderá nunca vir; porém, se ele surge, basta cada dia a sua malícia.[1]Em tudo o que eu permita, e seja qual seja a forma como o faça, deves comprazer-te na Minha providência sobre todas as coisas. Deves louvar-Me e estar completamente segura de que isso é o melhor para ti e que por trás de cada acontecimento está a Minha mão bondosa, guiando tudo para o teu bem. Tem apenas plena confiança na Minha bondade. Quando pensas bem de Mim, quando confias firmemente em Mim, quando te abandonas plenamente em Mim, estás a pregar a Minha bondade. E tanto isso me agrada no homem, que seria incapaz de abandoná-lo; nada de mau acontecerá àquele que põe em Mim a sua esperança.

Quanto maior for a tua esperança e confiança em Mim, tanto mais perfeitamente obterás o que desejas. Em tudo o que te suceda, se creres de tal forma em Mim de modo a converter em bem uma adversidade, assim sucederá certamente. Os meus amigos costumam pedir-me que os preserve do Purgatório. Esta oração não é má. Porém, a tua oração seria mais perfeita se, arrojada aos pés da Minha majestade, desejasses que a Minha justiça se satisfazesse na tua pequenez e te oferecesses para sofrer, para Minha glória e por Meu beneplácito, o Purgatório ou qualquer outra pena, e se te alegrasses mais com o cumprimento da Minha vontade que com a libertação do Purgatório. Assim, com a ajuda da Minha graça, vencerias o teu amor próprio, tão arraigado aos teus sentimentos e à tua vontade; se te atirasses aos Meus braços com plena confiança e se apoiasses apenas em Mim, ficarias admirada ao sentir a Minha graça a operar em ti. Olha-Me, filha, e pensando em Mim, abandona-te. Eu pensarei em ti e, estando a teu lado, jamais de deixarei.

Insisto: qualquer coisa que te suceda, recebe-a direta- e imediatamente de minhas mãos, e não de uma criatura. Admira e louva a Minha Providência em todas as circunstâncias, aceita-a com ação de graças, pois por ela opero a tua salvação em tudo o que te sucede. Como me lembro especialmente de ti, levo-te a atuar ou a sofrer deste modo para que mereças a Minha misericórdia. Esforça-te para Me louvar e honrar em tudo o que vês, em tudo o que sentes, em tudo o que vives. Deste modo compreenderás com quanto amor atua a Minha Providência, e como deves atribuir a Mim todas as coisas que te sucedem e, ao mesmo tempo, voltar-te para a origem de tudo o que te é enviado, isto é, a Minha bondade e a Minha glória.

Se praticares bem este exercício que consiste em aceitar com a mesma disposição de ânimo as alegrias e as tristezas que Eu te queira enviar; se soubesses descobrir a Minha presença em todas as criaturas, então o que no início te pareceria algo de mal acabarias por sentir que tal é da maior utilidade para ti. Mais ainda, poderias aproveitar todas as situações para as oferecer em sacrifício a Mim. Eu estou em todas as criaturas e fora de Mim nada pode existir. Nenhuma criatura está mais perto de ela própria do que Eu, que habito no seu interior. Por isso, deverias ser tão pobre de espírito de modo a não recusares coisa alguma. Não desejes ou recuses isto e aquilo segundo o teu critério; deseja apenas o Meu beneplácito. Se me procurares com intenção pura e estiveres atenta à Minha Providência, compreenderás maravilhada o Meu beneplácito, manifestado nas minhas ordens e disposições.

[1]Mt 6, 34.

XXVI. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXIII

Os nossos verdadeiros amigos são aqueles que nos perseguem e afligem; quanto bem nos faz o abandono e a renúncia a nós próprios; os únicos motivos pelos quais nos devemos entristecer


Todos aqueles que perseguem os teus vícios, que te oprimem, que te mostram a realidade do que tu és, que te põem diante dos teus olhos a tua fraqueza; enfim, que te ofendem, pois lastimam em ti a tua própria vontade—algo a que serias imune se não tivesses vontade nem amor próprio, pois são as únicas coisas que ficam feridas—; que te mostram a tua falta de mortificação; esses são os teus amigos e benfeitores. São estes que deves amar e com os quais deves alegrar-te, pois fazem guerra ao teu pior adversário, ao mais encarniçado dos inimigos—o teu eu—, de onde, caso quisesses aproveitar sabiamente tais ocasiões, sairias tanto mais fortalecida quanto maior fosse a violência do ataque. Quanto mais se debilita o teu eu, tanto mais forte Me tornarei em ti; e quanto mais longe estiveres do teu eu, tanto mais Me possuirás, porque o amor próprio, embora não te cause nenhum outro mal, traz consigo este—não Me permite operar em ti, pelo que ficas privada, em cada dia, de um bem infinito. Pois, aonde quer que vás, não encontrarás outro caminho para Mim a não ser aquele que ensinava aos Meus discípulos, quando lhes dizia: Quem quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo—isto é, abandone, mortifique, despoje a sua própria vontade—, tome a sua cruz e siga-Me.Começa já, pois é assim que tem de ser.

Por muitas coisas que abandones, se não abandonares a ti mesma, nada terás abandonado; pelo contrário, se não te amares, se não te pertenceres e abandonares em Mim, então, embora te possas encontrar no meio de riquezas e honrarias, terás abandonado tudo por Meu amor. Na medida em que saíres de ti, entrarei Eu; quanto mais morta estiveres para ti mesma, mais viverei em ti; e quanto mais aborreceres o teu eu, mais doce serei para ti.

Por isso, deixa tudo para encontrares tudo, ou seja, sai de ti para Me encontrares. Até quando te demorarás, filha? Até quando o temor te dominará? As tuas tribulações têm duas raízes: o amor a ti mesma e a tua pouca confiança em Mim. Abandona-te e confia em Mim. Acaso posso te enganar? Porque não te abandonas nas Minhas mãos? Porque não confias na Minha bondade? Que outra coisa pode te aproveitar? Que te pode ser útil? Que serias sem Mim? Tens medo de te abandonares e te entregares a Mim? Vê a quem te entregas: a Mim, sem o qual não poderias existir nem subsistir, nem muito menos estar bem; confia em Mim, pois não te posso repelir, não posso abandonar, não posso enganar, porque não posso deixar de te amar. Lança-te nos Meus braços sem vacilar, que Eu te acolherei e te protegerei.

Como se não existisses, assim serias sem Mim; por isso, se procuras a vida, sais de ti e lança-te nos Meus braços para que Eu possa te abraçar e unir-Me a ti. Se alguém quisesse causar-te dano ou tocar-te, antes teria que tocar em Mim. Por isso, abandona-te com ânimo alegre e decidido. Não te preocupes, nem desejes, nem escolhas isto ou aquilo por conveniência tua ou inclinação da tua natureza, mas antes aceita tudo por igual por amor a Mim; ama e deseja aquilo que sabes que Me mais agrada. Que no teu coração esteja sempre a oração que dirigi ao Pai nas vésperas da Minha paixão: Senhor, faça-se a Tua vontade[1]; e também: Porém, não se faça a minha vontade, mas a Tua[2]; e também: Ensina-me a fazer a Tua vontade, porque és o meu Deus[3]; e aquela outra: Faça-se em mim segundo a Tua palavra[4].

Queres saber qual o grau do teu abandono ou até que ponto estás morta para ti mesma? Se te angustias perante perdas materiais, os ultrajes e as injúrias, e se te perturbas mais quando estas coisas sucedem a ti do que aos outros, então estes são sinais seguros do teu amor às criaturas e a ti mesma. Evidentemente que tens amor aos bens temporais, às honras, à tranquilidade e a outras realidades caducas, porque te amas a ti mesma. Bem desejas estas coisas, mas se Me amasses verdadeiramente, as expulsarias do teu coração e suportarias sem vacilar toda a adversidade. E quando a adversidade te alcançasse, te inquietarias muito menos, como se tivesse caído sobre outro, pois o único que se deveria entristecer é aquele que Me despreza e desrespeita.

Assim, a obra, o exercício e a meta de quem se abandona corresponde a sair de si mesmo, desnudando-se de si mesmo, transformando-se, deixando tudo o que possa separá-lo de Mim. Os obstáculos mais pequenos são os pensamentos e as imagens das criaturas; o maior, a própria vontade, que quanto mais forte ela é, mais espaço ocupa no homem, mais pequeno serei Eu nele, e menos a sua alma Me pertence.

Quando sentes a inclinação e a atração da natureza para alguma coisa mais que a outra é porque ainda não estás perfeitamente morta para ti mesma e há ainda algo a mortificar em ti. Todo o sentimento que te afaste de Mim, qualquer coisa que tenta ocupar, alterar ou distrair o teu espírito; todo o que pugna para imprimir na tua alma a sua imagem; todo aquele que te quer atrair a si, seduzir-te e envolver-te; a tudo isso, recolhida e elevada para o Meu Espírito, deixa passar. Passa livremente por cima de toda a esperança e todo o medo, de toda a ganância e toda a perda, de toda a quietude e toda a fadiga, de toda a alegria e toda a tristeza, de toda a preocupação e demais afãs do coração. Não lhes prestes atenção. Se te fixares no Meu espírito, desprezarás todas estas coisas.

Além disso, se te amas, se não te despojas de ti mesma, sempre estarás à mercê da alegria e da tristeza, da ira e do medo, da preocupação e um sem fim de paixões. Nunca conseguirás ficar tranquila se não te esqueceres e estares morta para ti mesma. Por esta razão, filha, é necessário que te separes de ti para viveres apenas em Mim, para gostares apenas de Mim, para somente Me sentires. Nada te faltará se te abandonares desta maneira. Nada te faltará enquanto estiveres coMigo. Eu cuidarei de ti. Eu te protegerei. Despreocupada de ti mesma, nada poderás perder, porque em Mim encontrarás cem vezes mais. Deixa em Minhas mãos todo o cuidado, toda a preocupação, todo o temor, e entrega-te a Mim. Espera e confia em Mim. A tua esperança não te há-de defraudar, nem ser pequena, se a tua vida for boa e penitente. Toda a queixa que quiseres expressar a um amigo, expõe-na a Mim. Eu tomarei conta de ti, Eu te alimentarei, Eu te guardarei, Eu te defenderei. Tu, como estranha a ti mesma, preocupa-te apenas coMigo, de modo a mortificares e erradicares os teus apetites, o teu amor próprio, a tua sensualidade, renunciando a todo o desejo que não seja inspirado por Mim, o teu Deus. Porém, esta obediência, esta abdicação da tua própria vontade, este abandono de ti mesma deves fazê-lo por amor a Mim, a quem deves te entregar e estar sujeita de modo a queres apenas o que Eu quero.

[1]Mt 26, 42.

[2]Lc 22, 42.

[3]Sl 142, 10.

[4]Lc 1, 38.

XXV. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXII

Quantos males nos causa a própria vontade;
como devemos despojarmo-nos dela;
como ela é a fonte de todos os males e aflições


Nada pode fazer-te sofrer como a tua própria vontade; se estivesses morta para ela, nenhuma criatura poderia te causar dano. Que criatura te pode causar dano se estás morta para ti mesma, se em ti estão mortas as palavras “eu”, “me”, “a mim” e “meu”? Quem te poderia causar dano se Eu vivo em ti e tu em Mim? Nenhuma criatura poderia Me resistir, a não ser aquela que está obrigada a servir-Me. Além disso, se quisesses manter a tua própria vontade, todas as coisas estariam contra ti, todas te dariam combate e, quer queiras quer não, não te poderias subtrair aos desígnios da Minha Providência, apesar destes serem para ti uma cruz e não um consolo. Porém, se morreres para o teu eu, apreciarás a paz interior, que é um gozo desconhecido para a tua própria vontade, pois nada perturba o mundo a não ser esta última. Por isso, disse aos Meus discípulos: No mundo—isto é, aquele que é do mundo, que é prisioneiro dos seus próprios desejos, a quem o mundo lhe sorri—, tereis tribulação; mas tende confiança, porque Eu venci o mundo,[1]para que vocês também o vençam e tenhais paz em Mim.

Começa, pois, tu também a arrancar pela raiz e a mortificar em ti todos os desejos terrenos e todo o amor próprio. Caso contrário, como poderás vencer o mundo e o diabo se eles têm o seu próprio exército, ou seja, os vícios, dentro de ti? Expulsa primeiro tudo o que no teu interior se opõe a Mim, tudo o que combate contra ti, porque nem o diabo nem o mundo podem atacar-te ou vencer-te a não ser por meio das coisas que te possuem.

[1]Jo, 16, 33.

XXIV. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXI

Sobre a excelência da obediência; como e a quem obedecer; o dever de nos submetermos aos nossos superiores com simplicidade; o dever de sempre e em toda a parte de renunciarmos à vontade própria


A obediência é a virtude mais nobre e a que mais aprecio. Agrada-Me mais uma ação, por mais pequena e insignificante que seja, caso seja feita por pura obediência, sendo mais proveitosa e meritória para aquele a realiza do que um sem fim de obras feitas por vontade própria. Crê-Me, filha, que não poderias oferecer-Me sacrifício mais nobre e digno que um coração humilde, obediente e disposto a tudo. Apenas por um ato de obediência, um homem pode renunciar a si mesmo por amor a Mim, negando a sua vontade própria, unindo-se a Mim mais intimamente, quando comparado com outros exercícios, por mais demorados e nobres que sejam. Assim, filha Minha, deves ser tão obediente que, mesmo que estejas fisicamente diante de Mim e desfrutes da Minha presença como uma esposa disfruta do seu esposo, e alguém te afaste de Mim em virtude da obediência, deves obedecer e abandonar-Me. Ao obedecer, não abandonarias a Mim, mas a ti mesma, pois escolherias a Minha honra e a Minha vontade em vez da tua própria comodidade, a tua própria consolação. E é esta a Minha vontade: que negues a ti própria e não busques o teu interesse, mas antes o interesse dos outros. Fazendo assim, renunciarás a ti mesma e à tua própria conveniência, não Me abandonando, mas antes encontrando-Me de um modo cem vezes mais nobre e mais perfeito.

Aprende, pois, a abandonar-te por amor a Mim, ou seja, a renunciar, através da negação de ti mesma, ao teu interesse, ao teu consolo, à tua devoção, ao teu proveito. Deste modo, fazendo o que deves, Me honrarás, e não só não perdes nada seguindo este caminho, como terás uma recompensa cem vezes maior. Por isso, a nada tenhas apego, nada te pareça mais útil que, por obediência, não possas deixar voluntariamente e com abandono. Todo aquele que, por apego a algo, Me recusa a obedecer, ou aceita fazê-lo com tristeza ou relutância, é um ídolo à sua vontade própria, sendo tão nocivo que não se pode expressar por palavras. Caso estejas num lugar onde não tenhas um Superior, ou onde o Superior sejas tu, trata a todos como se fossem superiores a ti, submetendo-te à sua vontade e abandonando a tua. Porém, não faças isso por inércia, mas sim quando tal for lícito e quando a intenção seja negar-te a ti mesma por amor a Mim.

Ama a virtude da obediência desde o mais profundo recanto do teu coração e não a abandones até à tua morte; não só a obediência aos teus superiores, mas também a todos os homens, por causa de Mim, desde que [o que te pedirem] não seja contrário à Minha vontade; e fá-lo sem tristeza, sem murmuração, sem discussões. E para que possas atuar mais livremente, não olhes ao homem que por disposição Minha é teu superior; não te fixes no quanto ele é sabedor ou idóneo, nem dês importância se ele é culto ou inculto, distinto ou insignificante. Tem apenas em atenção o facto que a Minha Providência te deu-o como Superior e que por meio dele quero guiar-te; consulta-o e escuta-o como se ele fosse Eu próprio. Atende à Minha Providência, com a qual quero guiar-te pela pessoa que escolhi, seja ela uma simplória ou uma erudita, e sujeita-te a Mim.

Por tudo isto, sem escrúpulo ou temor algum, deixa de lado a tua opinião e sabedoria. Submete-te apenas ao juízo e ao parecer do teu diretor. Tudo o que ele determine, tudo o que ele estabeleça, toma-o como se viesse da Minha própria boca. Por vezes, imponho aos Meus servos superiores pouco cultos ou pouco sagazes de modo a que não busquem a sabedoria humana, ou ao homem pelo homem, mas antes que busquem a Mim, o seu Deus, no homem; e se confiam em Mim, Eu não lhes responderei pior através de um homem simples que através de um sábio. Por esta razão, e seja qual for a resposta, não deves receber o que ele te disser como se viesse dos lábios de um homem, mas sim da Minha própria boca, atribuindo tudo a Mim e à Minha direção e nada à prudência ou simplicidade humana. Portanto, se não te quiseres enganar, abraça a vida da obediência e não faças nada sem consultar um sacerdote, um guia espiritual ou o teu Superior.

Vive sempre em simplicidade e pobreza de espírito, sem juízo próprio, sem decisões próprias, sem sentimento próprio e sem ponto de vista próprio. Não admitas ocasião alguma de queixa ou murmuração, e julga sempre melhor o que te diz o Superior ou, na falta deste, o que outros decidirem, desde que não seja pecado manifesto. E para o extermínio pleno da vontade própria, deves não só permanecer sujeita à obediência de um homem, mas também submeter-te a todas as criaturas por amor a Mim. Pois deves odiar a tua vontade própria a tal ponto que deves extingui-la, vivendo entre os homens como se não tivesses vontade própria, ou seja, como se tivesses anulado a tua capacidade de preferência e aceitasses com indiferença tudo o que te sucede, mas apenas com esta exceção: preferires a vontade do outro desde que não seja pecado, salvaguardando a honestidade e discrição devidas.

No que respeita somente a ti, aceita o parecer dos outros como se tivesses prometido obediência a todos os homens. Mais ainda, aonde quer que estejas, mesmo que estejas só, não faças a tua própria vontade, mas ordena toda a tua vida e todos os teus exercícios para negares a ti mesma. Este é melhor para ti que o Paraíso. E quando a Minha vontade se tornar manifesta, seja por inspiração interior, ou pela Sagrada Escritura, ou através do teu Superior, ou por meio de uma criatura, ou de outro modo qualquer, mal sintas que és admoestada, deixa de imediato todo o parecer, juízo, vontade, opinião, desejo ou inclinação próprios, abandona-te e segue a Minha vontade. Deves aprender a discernir sabiamente qual é a Minha vontade para que não penses que estejas a seguir o Meu espírito quando estás a seguir o teu espírito de erro e engano. Por isso, faz tudo segundo o juízo do teu Superior e submete-te inteiramente à sua vontade.

XXIII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XX

Sobre a indiferença ante os elogios, críticas e juízos dos homens; o que se deve fazer com eles e as características dos amigos de Deus

Não percas tempo ao estar preocupada com a opinião que os homens têm sobre ti e como te julgam. Se, segundo as tuas possibilidades, atuas sabiamente e não te tornas para eles um escândalo, que seria motivo de uma justa censura, não deves temer o seu juízo. Pois nem os elogios te tornam melhor, nem as críticas pior; tu és o que és aos Meus olhos. Por isso, não te exaltes com o elogio alheio, nem te entristeças com a crítica. Que te aproveita o elogio alheio? Absolutamente nada, pois na maioria das vezes o dano que te causa é maior, pois faz-te crer que és algo de especial e tua vaidade não tem limites. Pelo contrário, que mal te podem causar o desprezo, a injúria, a humilhação, a censura, a condenação e a perseguição por todos os homens? Nada, certamente. Muito pelo contrário, são-te altamente proveitosos porque te empurram para o conhecimento de ti mesma e contribuem um pouco na aquisição da humildade e emenda de vida e dos costumes. Deste modo, aprenderás a viver mais cauta e prudentemente entre os homens, e a não depositar a tua esperança neles, mas antes em Mim.

Portanto, os juízos dos homens não te devem preocupar, tanto aqueles que são feitos em tom elogioso, ou em tom de crítica. Deixa-os falar, deixa-os opinar. Dirige-te, antes, ao Meu coração, examina a tua consciência, e se não Me ofendestes, nada temas.

Se vês que me ofendestes, chora, mas não porque os homens te desprezam — pois tal deves suportar e desejar como algo merecido —, mas antes por Me teres ofendido e teres dado ocasião aos teus semelhantes de pecarem. Porém, se te elogiam ou criticam por uma ação inocente, recebe os elogios ou as críticas como se fossem dirigidos a outro. Se os homens te elogiam, considera que eles estão errados ou são benevolentes demais para contigo; se te acusam ou condenam, não estranhes isso. Que há de estranho se os homens censuram a tua vida, a desprezam e a condenam, quando condenaram a Minha vida inocente, limpa de toda a mancha, em que nada havia de repreensível, e desprezaram a Minha doutrina? Alegra-te, antes, de teres chegado ao caminho da humilhação e abjeção, e de sofrer perseguição por parte dos homens. Deixa-os maquinar o mal contra ti, que Eu o converterei em bem; limita-te a ser paciente e a guardar silêncio.

Em todas as coisas, procura agradar-Me e não aos homens. Se agradas aos homens, pensa que a sua opinião sobre ti é falsa, porque te não conhecem como Eu te conheço, mas antes te julgam pelas aparências e com ingenuidade. Se os desgostas, atribui-o aos teus deméritos e aproveita para te humilhar ainda mais. E se te desprezam pela tua insignificância, que sucederia se os homens te conhecessem verdadeiramente, se vissem os teus pecados e defeitos como Eu os vejo?

Ama, pois, de seres tida por vil e desprezível, e nunca julgues que és mais desprezada do que deverias ser. Deves, antes, considerar-te a mais miserável, a mais indigna, a mais ingrata de todas as criaturas e a mais necessitada da Minha graça e da Minha misericórdia; reconhece que, sem Mim, não és senão um puro nada e que todas as tuas obras carecem de valor. Pensa que não há ninguém tão mau que não seja melhor e mais digno do Céu que tu. Persuade-te que os outros realizam ações com mérito e que tu és tolerada por Mim apenas pela Minha misericórdia.  Por isso, não ouses a te comparar com ninguém, mas antes crê que és a mais pecadora de todos os homens, e a mais vil e ingrata a Mim; porque tudo o que vem de ti, ou não vale nada, ou é pecado.

Crer estar acima dos outros ou preferir-se a si próprio aos outros pelos dons que de Mim recebeu é próprio de uma soberba intolerável e insolente. Para te protegeres dela, retiro-te os dons mais sensíveis, pois não sabes fazer uso deles a não ser para te ensoberbeceres, quando nada deverias te atribuir, mas antes deverias tudo imputar a mim. Vela, pois, para que nada desejes por egoísmo, mas apenas por amor a Mim, de modo a evitar que, por soberba, Me sejas ingrata ou abominável pela tua negligência. Olha para o teu nada, e com que rapidez és vencida, pois se não te defendo, se não luto por ti, és incapaz de suportar a mais leve adversidade ou fazer frente à mais débil tentação, não podendo evitar de corromper com o teu pecado todo o bem.

És demasiado inclinada a criticar os outros, o que é indício seguro de arrogância, como se tu fosses melhor que aqueles que criticas. E, talvez, seja verdadeiro que não tens o vício do qual acusas os outros, mas tens outros. Por isso, de modo nenhum te consideres melhor que ninguém; mais ainda, te tornas muito mais detestável pela tua língua, que é sinal manifesto da tua arrogância invejosa. Os Meus verdadeiros amigos acusam-se a si mesmos e não olham para os pecados alheios, mas antes olham para os seus. Olham as suas obras e para eles mesmos com suspeita; não confiam em si mesmos, pois sabem por experiência que se têm enganado em muitas ocasiões. Temem sempre em não Me procurar com pureza absoluta; além disso, admiram e louvam as obras dos outros e negam-se a alimentar suspeitas sobre o próximo. Com essa mesma disposição, limita-te a louvar os outros ou dando desculpas por eles; ou, ao menos, guarda silêncio, tendo imediatamente presente a teus olhos a tua baixeza e ingratidão, admirando-te de não seres detestada e desprezada por todos os homens.

Filha Minha, não podes adquirir a humildade se não amas ser humilhada, pois a humilhação precede a humildade. Tudo aquilo que te acontece recebe-o da Minha mão como humilhação tua. Ama ser humilhada e desprezada pelos outros. Deixa que murmurem contra o teu bom nome. Permanece em silêncio e confia em Mim. Eu defenderei a tua honra melhor que tu. Se defenderes a ti mesma, não necessitarias da Minha proteção; se te calas humilde e pacientemente, Eu responderei por ti no momento oportuno. Não te antecipes a Mim, dando desculpas. Eu lutarei por ti, e tu guardarás silêncio.

XXII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

 

 

Capítulo XIX

Em que consiste a verdadeira humildade, e como se obtém;
quais são as causas da humildade e quão necessária ela é

 

Para obter a humildade, contempla a Minha majestade, omnipotência, sabedoria e bondade. Apenas Eu sou imortal imenso, infinito, inabarcável, inefável, incompreensível. De Mim, todas as criaturas recebem a sua existência. Com um gesto da Minha vontade, posso reduzi-las a nada com toda a máquina do universo, e de novo, com uma ordem Minha, restituiria à existência cada uma delas. Na Minha grandeza, não por necessidade ou indigência, mas antes por Meu amor e liberalidade, as criei criaturas racionais à Minha imagem, para cobri-las com a Minha bondade e dar-lhes a Minha beatitude. Por vós, que afastastes da Minha graça pelo pecado e tornastes indignos da vida eterna e réus do fogo do Inferno, encarnei e durante trinta anos padeci fome, sede, frio, calor, fatigas, penas, perseguições, desprezo, insultos, açoites, feridas, dor e, por fim, a cruz e a morte, tudo isto para vos resgatar da morte eterna.

Filha Minha, vivi na terra, não como Deus, não como um poderoso, não como um triunfador; vivi como o mais pobre, o mais vil, o último e o mais desprezível de todos os homens, exposto ao sofrimento e aos insultos, até que atingi o fim dos Meus dias com a morte mais desonrosa, da que o mundo me achou digno, como se a Minha vida e a Minha doutrina fossem para todos — tal era a opinião do mundo — uma forma de peste que tinha de ser apagada da memória dos homens; e tudo isso na presença de uma multidão que proferia insultos contra Mim.

Como a corça suspira pelas águas correntes[1], filha Minha, assim Eu corri para a morte, ébrio de amor por ti. Não Me poupei a nenhuma fadiga, dor ou pena. A nada Me poupei que fosse conveniente para ti, pois eras para Mim tão nobre, tão preciosa, que por ti ardia de desejo de entregar a Minha alma à morte e oferecer o Meu corpo às feridas. Além disso, como tinha uma sede ardente da tua salvação, quis derramar o Meu sangue até à última gota.

Que Me dás em troca disto, filha? Que Me ofereces em troca de tanto amor? Não és tu a mesma ingrata que Me despreza há tantos anos? Que tem aversão à Minha Palavra, que sente fastio de cantar os Meus louvores, que transgride os Meus mandamentos? Sendo tu tão arrogante para Mim, tão imunda e vil, tão suja e cheia de abominações, como te permites expulsar-Me do teu lado, desprezando as Minhas inspirações, prostituindo-te com as criaturas, e abusando dos Meus dons? Depois de te libertar tantas vezes dos teus pecados gravíssimos e até mesmo da condenação eterna, na qual justamente terias ardido há já muito tempo se a Minha misericórdia não tivesse intervindo; depois de te preservar ainda de tantos delitos e do abismo do pecado, porque Me desprezas e abandonas? Porque o fazes, sabendo que sem Mim não eras se não vil, miserável, um nada? Como te atreves a levantar o rosto para Mim, a quem tantas vezes ofendestes, e durante tanto tempo desprezastes? Digo-te isto para que te conheças a ti mesma.

Considera o quão vil e imundo está o teu corpo, quão suja está a tua alma e impuro o teu coração; enfim, quão indignas são as tuas obras, malvados os teus pensamentos, imundos e impuros os teus afetos. No entanto, ainda assim te suporto, ainda derramo sobre ti os Meus bens, ainda te amo. Porém, durante quanto tempo? Até quando aguentarei? Quando te conhecerás a ti mesma? Quanto mais tempo demorarás a voltar a Mim? Porque não te humilhas? Não vês que não posso manter por mais tempo a Minha misericórdia? Não vês onde te chamei, e onde te estabeleci? Onde estão os teus frutos? Não te dás conta de como dissimulo todas as tuas maldades e ingratidões? Porém, não te digo isto em tom de censura, mas antes como se morresse de amor por ti, como se tivesse falta de ti — apesar de nada precisar —, como se não pudesse viver sem ti. Apenas pela Minha bondade e Meu amor te convido a que correspondas com amor ao Meu amor. Deste modo, amando, sentirás o que és tu e o que Eu sou, o quanto Eu fiz por ti e com quanta ingratidão me tens pago.

Considera, ainda, que no Inferno há um sem número de almas que teriam merecido menos a condenação que tu se não tivesses sido prevenida pela Minha graça, pois se aquelas almas tivessem recebido uma graça igual à tua, te venceriam em gratidão. Se tornasses consciente da Minha majestade e da tua baixeza, se medisses a soberba com que exibes a tua baixeza e a humildade que há na Minha majestade — pois por humildade Me rebaixei por amor a ti —, seria-te menos penoso ser humilde. Se refletisses, insisto, em que estado de pobreza, abjeção e desprezo, Eu, sendo tão poderoso, rico e excelso, imenso em majestade e infinito em bondade, te servi, pobre e vil homenzinho, com tanto amor, fidelidade e desejo, nasceria no teu coração tal reverência por Mim e tal veneração à Minha majestade que não poderias expressar por palavras.

Além disso, nasceria em ti um desejo insaciável e uma sede ardente de honrar-Me, venerar-Me, exaltar-Me e, ao mesmo tempo, de te humilhares, te desprezares, e por amor a Mim, de te submeteres a todas as criaturas, suportando os insultos, o desprezo e as injúrias de todos. Por muito que te humilhasses, por muito que suportasses, estimarias em nada o teu sofrimento, devido à sede e ao desejo que terias de te humilhar e de Me exaltar; mais ainda, amarias de forma especial aqueles que mais te oprimem e desprezam, porque ao humilhar-te serviriam o teu desejo de humildade.

Filha Minha, se ainda não tens em ti estes sentimentos, reconhece quanta é a tua ingratidão perante Mim e quão longe estás da verdadeira humildade, que é uma profunda inclinação do coração ante a Minha divina majestade, a que segue o desprezo de si mesmo e o desejo de ser considerado como nada e de ser desprezado por todos.

Te exorto de novo, filha, a que fixes os teus olhos na Minha humildade e a tomes como modelo. Vê como o mundo desprezou, caluniou e reprovou a Minha vida e a Minha doutrina; como menosprezou as Minhas palavras; quantas injúrias, zombarias, desprezos e escárnios tive que suportar, como se fosse um malfeitor, por parte dos mais vis entre os homens e a favor das mais vis e ingratas criaturas; escarnecido e tratado como o opróbrio dos homens, não desprezei ninguém, não arranjei desculpas, não Me defendi. Vê também tu que eras digna de ser desprezada, pela tua dureza, negligência, pecado, ingratidão, inconstância, vileza e insignificância. Geme, chora, acusa-te antes com lágrimas constantes.

Todo o que te ocorra converte-o em humildade. Não te compadeças de ti mesma; pelo contrário, admira-te que possas agradar a alguém que te conheça bem. Dirige constantemente os olhos do teu coração ao teu não ser e ao teu não ter; considera que nada és, e o que deverias ser, não és; igualmente, que não tens e que não podes, quantas coisas te faltam e que longe estás da verdadeira e perfeita caridade e da perfeição dos santos, dos quais existe um abismo que te separa deles; considera também que nada tens de bom, mas antes que é de Mim que recebes todos os bens.

Além disso, isto é tudo o que podes esperar de ti: pecar, fazer o mal, desfalecer, passar necessidades, destruir e arruinar todos os Meus dons e os Meus bens. Pois há uma coisa certa: se eu abandonasse a natureza humana na sua liberdade e inclinações, nada de bom seria de esperar dela. E assim é, pois apesar das Minhas advertências e proibições, a mente humana se precipita para o mal. E o que é a natureza humana? Nada. Nada tem de si e ao nada tende. Se tivesses sempre presente este pensamento, bem te ajudaria a adquirires a virtude da humildade.

Apesar disso, deves ter uma humildade não menor por esses defeitos ocultos e desconhecidos para ti, que muitas vezes são graves, ainda que não os vejas. Por causa deles, atira-te aos pés da Minha misericórdia e chora, com o coração, a debilidade e a irrefreável inclinação ao pecado que há em ti. E não tenhas outro sentimento sobre ti a não ser o facto de estares coberta de pecado, sendo cega e a mais ingrata de todas as criaturas.

[1] – Sl 41, 2.

XXI. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XVIII

Sobre o dever de nos sentirmos humildes em relação a nós
próprios e de pedir a Deus a humildade antes de tudo

Aborrece-te e foge com a tua alma das honrarias e da glória em favor dos homens, e das demais adulações e lisonjarias do mundo. Pensa antes que és um homem soberbo, ingrato e irrespeitoso para coMigo; por isso, se eu te pagasse como tu mereces, serias odioso a todas as criaturas, pois que não és digna nem da terra nem do ar que respiras. Com estes sentimentos implora incessantemente a Minha misericórdia e a Minha graça. Não te apoies nas tuas obras e desconfia de outros méritos que não sejam os da Minha redenção e bondade. Pede-Me, com lágrimas e gemidos, uma humildade perfeita, pois somente por meio dela amarás a ser ignorada, desprezada e considerada como nada. Deseja, tanto quanto possível, a abraçar as coisas mais simples e humildes, e escolhe ter e fazer os que os outros recusam por parecer desprezível, julgando-te indigna e a mais vil que os mais vis. Não manifestes nem o mais pequeno vestígio de ostentação nem desejo de glória, nem nada que te faça parecer como alguém especial, a não ser que a necessidade ou o amor puro a Deus te o exijam. Nada ostentes, de nada te gabes. Não te irrites contra quem te ofende ou te despreza, nem mostres um rosto mais triste que o costume ou um coração menos benévolo. Antes, sim, admira-te que todas as criaturas não se conjugam contra ti por teres ofendido a Mim, que sou o teu Criador, e de todas as coisas.