XXIX. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXVII

Apenas a nós devemos imputar o que sofremos; que na adversidade devemos ter diante dos nossos olhos a vida, os costumes e a Paixão de Cristo

            Filha Minha, não culpes os homens dos teus sofrimentos. Por acaso é má a vara que um pai usa para corrigir o seu filho? Porque te enfureces com os homens que Me servem de flagelo para te emendares? Não brigues nem discutas com eles, mas antes põe-te em guarda contra a tua impaciência para que o prémio devido à tua paciência não te seja tirado por causa das tuas queixas. Sê paciente, bondosa e mansa com os teus semelhantes; mostra um semblante sereno, de maneira a que nenhuma perturbação, nenhuma queixa, nenhum abatimento ou tristeza deixe entender o que estás a sofrer.

            Se alguém te contradiz ou te insulta, mostra-lhe um rosto sereno e bondoso, permanece em silêncio e sorri-lhe humildemente, dando testemunho do amor que tudo aceita, de quem tudo estima como bom e não pensa na vingança, nem sente ofensa. Em tal situação, não digas nada; no máximo, duas ou três palavras, e com grande modéstia. Mostra-te tão humilde e mansa que ninguém tema em te repreender, desprezar-te e falar-te com dureza. Em toda a adversidade, perante reprimendas, insultos ou injúrias, aprende a guardar silêncio, a sofrer e a manter-te calma; deste modo, alcançarás a Minha graça. Nunca a obterás a não ser pelo meio do silêncio e da aceitação confiante das tuas tribulações que tenho de usar para te provar.

            Filha e esposa Minha, tens na Minha vida um exemplo de paciência e mansidão. Pois não foi em vão que disse: — Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração [1]Entre penas e dores atrozes, entre mentiras e blasfémias, entre as cruéis ameaças e os rostos ferozes dos Meus inimigos, que queixa saiu dos Meus lábios? Que inimigo amaldiçoei? A quem falei com ira? A quem respondi com dureza? A quem desejei o mal? Mais ainda, de quem Me não compadeci, mas antes rezei por todos? Faz tu, então, o mesmo: em silêncio e na paz, tem paciência e doçura, sem murmuração, nem queixas. Não lutes por ti. Não respondas por ti mesma. Não te defendas nem te desculpes. Guarda silêncio e confia em Mim a tua pessoa e a tua causa. Eu lutarei por ti; mantem-te em silêncio, une-te a Mim e dispõe-te a suportar toda a confusão por amor a Mim, sem deixar escapar a mínima queixa, tanto interior como exteriormente.

            Enquanto te pareça que sejas objeto de alguma injustiça, enquanto te sintas tratada injusta e indignamente, ainda não terás atingido, filha Minha, a verdadeira paciência nem o conhecimento de ti mesma. Sai, pois, ao encontro de toda a adversidade com alegria e fervor espiritual; oferece-te como vítima disposta a sofrer a necessidade, o trabalho e a tribulação na maneira que desejo. Considera perdido o dia em que não tenhas experimentado a cruz. Se conhecesses o fruto da paciência, mostrarias uma grande reverência e gratidão a quem te oprime. Recorda como Eu, cordeiro inocente, oferecia um coração doce e tranquilo a quem Me cuspia, flagelava e crucificava, e como os perdoava e orava por eles [2]. Faz o mesmo e não tenhas em conta qualquer ofensa; mais ainda, nem penses que te ofenderam. Pelo contrário, olha para Mim, escuta-Me e compreende que sou Eu, unicamente Eu, que por amor te faz isto tudo.

            Deste modo, filha Minha, nada há numa criatura que não seja para ti um meio e ocasião para te acrescentar a Minha graça, porque me encontrarás em todas as coisas se aprenderes a contemplar a criatura, não como criatura, mas Eu nela; se aprenderes a acolher-Me, a escutar-Me e a sentir-Me na criatura, pois em toda a criatura te falo.

            Escuta, pois, e compreende que desejo tudo o que te sucede; e quando descobrires qual é a Minha vontade, mostra-te de imediato disposta a aceitá-la.


[1] Mt 11, 29.

[2] Cf. Lc 23, 34.

XXVIII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXV

Qual é a causa de todas as tribulações; com que ânimo se deve suportá-las; que coisas devem consolar os afligidos

Recebe toda a tribulação e adversidade como sinal anunciador que a Minha graça se aproxima de ti. Por isso, cada vez que te sentes oprimida pela adversidade, alegra-te, sabendo que a merecestes. Não culpes ninguém dos teus padecimentos, a não ser os teus próprios pecados e, ao mesmo tempo, dá graças, porque, olhando com os olhos da Minha misericórdia, Me dignei a visitar, repreender e castigar-te com a vara dos filhos[1], e não te expulsei da Minha presença como merecias. Se te repreendo, se te castigo, esse é o sinal que te quero fazer o bem. Porém, se não te corrigisse, deixando-te nas tuas próprias mãos, terias a sensação de gozar de paz e tranquilidade; no entanto, serias bem desgraçada por ver-te privada da Minha guarda e proteção.

Cada vez que sofras, diz a ti mesma: — Coisas mais graves mereço eu. Porém, ainda que não tivesses merecido qualquer tribulação, deverias suportá-la de bom grado por amor a Mim, que dispus que sofresses, com um coração amante e paciente, de modo a que nada se oponha à Minha graça. Lembra-te que sofri por ti.[2]No entanto, mesmo que não tivesse sofrido nada, não te bastaria os infinitos benefícios que te concedo cada dia—pois tudo o que tens, de Mim o recebestes—para Me tornar digno que padeças algo por Mim?

Afinal de contas, deves pensar que és Minha, que te fiz e formei como o barro nas mãos do oleiro. Por isso, és património do Meu poder e da Minha justiça em fazer contigo o que desejo. Crês que podes discutir coMigo? Não mais que o barro com o oleiro. Que tens a dizer contra o teu Criador, sejam eles consolos ou aflições? Estando tu consciente de tantos males que merecias, não deverias antes desejar que castigasse em ti o desprezo com que desdenhastes a Minha bondade? Não deverias ser humilhada pela tua soberba? Porém, sucede algo bem melhor: Eu, que te amo com fidelidade inquebrantável, dou-te sempre o que te convém. A Minha vontade dispôs que sofresses o que sofres nesta hora e a este momento.

Para que se cumpra esta muito amável vontade, plena de fidelidade e amor, deverias desejá-la com toda a tua alma, de forma a aceitares os teus sofrimentos com alegria, doçura, ação de graças, mansidão e um coração devoto, sem pensar nada de amargo ou tenebroso contra aqueles que parecem ser a causa dos teus padecimentos; deves considerá-los mais como Meus servidores enviados propositadamente por Mim para executar as Minhas ordens. Vê sempre a Minha mão por trás tudo o que te sucede, considerando com quanto amor, bondade e fidelidade dispôs o Meu coração que padeças estas coisas. Portanto, recebe apenas da Minha mão toda a aflição e compreende que te foi enviada por amor, como um meio utilíssimo para a tua salvação. Recebe-a com o mesmo amor com que a envio a ti. Além disso, se não sofresses nenhuma adversidade, pensarias que não te ocupo de ti e que te abandonei ao privar-te de um dom tão nobre com que costumo honrar e adornar todos os Meus amigos: o sofrimento e a tribulação. Recorda quantas tribulações, quantas perseguições, quantas contradições sofri Eu, e quantas padeceu a Minha bendita Mãe e todos os Meus amigos que seguiram os Meus passos. Lembra-te também que ninguém pode chegar à glória da eternidade se não através da cruz e do cálice da adversidade, e que não há outro caminho para a pátria celestial fora desta via régia. Assim, deves passar por ela se quiseres desfrutar da nossa companhia na felicidade que não tem fim.

Por último, não há sacrifício que faças ou sofras por amor a Mim, por mais pequeno e insignificante que te pareça, que não te alcance de Mim a maior e gloriosa recompensa. No entanto, não quero que ofereças o teu sofrimento pelo interesse da recompensa, mas apenas por amor. Eu sei que prémio te quero conceder. E quero dá-lo a ti por que assim o desejo, pois nada devo a ninguém. Os Meus dons são gratuitos. Por isso, não penses no prémio, mas antes pensa em Mim do modo mais nobre, com o coração cheio de amor e fidelidade. Seja qual for a situação, submete-te à Minha vontade por amor.  Se soubesses a grandeza do fruto das tribulações, desejarias gloriar-te na cruz e na tribulação. Quantas mais adversidades te sobrevierem, quanto mais obstáculos encontrares aos teus desejos—incluindo o desejo de Me agradar—, tanto mais fervorosa deverás mostrar-te perante o sofrimento e abandonar-te ainda mais à Minha vontade. Quando a tua boa vontade encontra resistência, toma consciência que é a Minha providência que está a atuar para que adquiras duas virtudes em vez de uma apenas: pela intenção de fazeres uma boa obra, obterás a recompensa dessa boa obra, apesar de não a teres podido fazer; e pelas dificuldades que se opõem à tua boa vontade, a coroa da paciência.

Além disso, a boa vontade, quanto mais fiel permaneça perante a tentação e a adversidade, e quanto mais constante persevere diante das dificuldades, tanto mais gloriosa será a coroa que receberá na Minha presença. Porque te amo, quero que sejas toda Minha, Minha esposa pura e fiel; quero que te entregues a Mim sem reservas e vás, não por onde queres, mas por onde desejo. Desta forma impedirei que, quando desejares agradar-Me, não te busques a ti mesma, mas apenas a Mim. Como uma serva fiel e obediente que apenas quer o que a sua senhora deseja, não procures nada em ti própria, mas somente a Mim; e considera suportar com gratidão tudo o que a Minha vontade dispuser, tanto pelas mãos dos homens, como por qualquer outro meio.


[1]Cf. Prov. 29, 15.

[2]Cf. 1Pe. 2, 21.

XXVII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXIV

Como, despojando-nos de nós mesmos, devemos confiar
a Deus nós próprios e todas as coisas; que coisas manifestam a bondade

Enquanto houver em ti desejo, preferência ou inclinação para procurar mais prazer, mais repouso ou mais consolo numa coisa em vez de outra, ainda tens em ti algo de amor próprio, ainda não te negastes perfeitamente. Deverias aceitar tudo com indiferença e serenidade, e perseverar apoiada apenas na Minha Providência, pois isto te daria uma grande liberdade, uma paz inalterável e uma tranquilidade perfeita. Não esperes nada de ti mesma, não te fies na tua inteligência nem nas tuas próprias forças; não permitas nada que dependa de ti, nada edifiques sobre ti própria, nada proponhas para proveito próprio; não confies na tua vontade, por mais boa que seja; pelo contrário, abandona-te, sai de ti, e extinguindo todo o egoísmo, permanece e descansa apenas em Mim. Confia na Minha bondade, apoia-te na Minha graça e na Minha Providência, sempre disposta—mas bem longe das preferências pessoais, sem distinções, sem resistências no teu coração—a aceitar, segundo a Minha vontade, a prosperidade e a adversidade, no tempo e na eternidade, desejando ser sempre o que quero que sejas.

Por isso, não te preocupes se avanças muito ou pouco, se estás perto ou longe de Mim, se os dons que recebes são grandes ou pequenos ou se terás que passar pelo Purgatório depois de abandonares este mundo. Deixa tudo isso à Minha Providência e deseja apenas a ficares sob a Minha vontade e o que ela dispõe. Considera como o maior bem que se cumpra em ti a Minha última, suprema e muito laudável vontade, agradando-Me em tudo o que eu disponha. Que a Minha vontade seja a tua perfeição e a medida da tua perfeição.

Nenhuma curiosidade, nenhuma preocupação por coisas futuras agite o teu coração; não te inquietes com o que é incerto e contingente; antes confia tudo a Mim, pois tudo governo. O mal esperado ou temido poderá nunca vir; porém, se ele surge, basta cada dia a sua malícia.[1]Em tudo o que eu permita, e seja qual seja a forma como o faça, deves comprazer-te na Minha providência sobre todas as coisas. Deves louvar-Me e estar completamente segura de que isso é o melhor para ti e que por trás de cada acontecimento está a Minha mão bondosa, guiando tudo para o teu bem. Tem apenas plena confiança na Minha bondade. Quando pensas bem de Mim, quando confias firmemente em Mim, quando te abandonas plenamente em Mim, estás a pregar a Minha bondade. E tanto isso me agrada no homem, que seria incapaz de abandoná-lo; nada de mau acontecerá àquele que põe em Mim a sua esperança.

Quanto maior for a tua esperança e confiança em Mim, tanto mais perfeitamente obterás o que desejas. Em tudo o que te suceda, se creres de tal forma em Mim de modo a converter em bem uma adversidade, assim sucederá certamente. Os meus amigos costumam pedir-me que os preserve do Purgatório. Esta oração não é má. Porém, a tua oração seria mais perfeita se, arrojada aos pés da Minha majestade, desejasses que a Minha justiça se satisfazesse na tua pequenez e te oferecesses para sofrer, para Minha glória e por Meu beneplácito, o Purgatório ou qualquer outra pena, e se te alegrasses mais com o cumprimento da Minha vontade que com a libertação do Purgatório. Assim, com a ajuda da Minha graça, vencerias o teu amor próprio, tão arraigado aos teus sentimentos e à tua vontade; se te atirasses aos Meus braços com plena confiança e se apoiasses apenas em Mim, ficarias admirada ao sentir a Minha graça a operar em ti. Olha-Me, filha, e pensando em Mim, abandona-te. Eu pensarei em ti e, estando a teu lado, jamais de deixarei.

Insisto: qualquer coisa que te suceda, recebe-a direta- e imediatamente de minhas mãos, e não de uma criatura. Admira e louva a Minha Providência em todas as circunstâncias, aceita-a com ação de graças, pois por ela opero a tua salvação em tudo o que te sucede. Como me lembro especialmente de ti, levo-te a atuar ou a sofrer deste modo para que mereças a Minha misericórdia. Esforça-te para Me louvar e honrar em tudo o que vês, em tudo o que sentes, em tudo o que vives. Deste modo compreenderás com quanto amor atua a Minha Providência, e como deves atribuir a Mim todas as coisas que te sucedem e, ao mesmo tempo, voltar-te para a origem de tudo o que te é enviado, isto é, a Minha bondade e a Minha glória.

Se praticares bem este exercício que consiste em aceitar com a mesma disposição de ânimo as alegrias e as tristezas que Eu te queira enviar; se soubesses descobrir a Minha presença em todas as criaturas, então o que no início te pareceria algo de mal acabarias por sentir que tal é da maior utilidade para ti. Mais ainda, poderias aproveitar todas as situações para as oferecer em sacrifício a Mim. Eu estou em todas as criaturas e fora de Mim nada pode existir. Nenhuma criatura está mais perto de ela própria do que Eu, que habito no seu interior. Por isso, deverias ser tão pobre de espírito de modo a não recusares coisa alguma. Não desejes ou recuses isto e aquilo segundo o teu critério; deseja apenas o Meu beneplácito. Se me procurares com intenção pura e estiveres atenta à Minha Providência, compreenderás maravilhada o Meu beneplácito, manifestado nas minhas ordens e disposições.

[1]Mt 6, 34.

XXVI. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXIII

Os nossos verdadeiros amigos são aqueles que nos perseguem e afligem; quanto bem nos faz o abandono e a renúncia a nós próprios; os únicos motivos pelos quais nos devemos entristecer


Todos aqueles que perseguem os teus vícios, que te oprimem, que te mostram a realidade do que tu és, que te põem diante dos teus olhos a tua fraqueza; enfim, que te ofendem, pois lastimam em ti a tua própria vontade—algo a que serias imune se não tivesses vontade nem amor próprio, pois são as únicas coisas que ficam feridas—; que te mostram a tua falta de mortificação; esses são os teus amigos e benfeitores. São estes que deves amar e com os quais deves alegrar-te, pois fazem guerra ao teu pior adversário, ao mais encarniçado dos inimigos—o teu eu—, de onde, caso quisesses aproveitar sabiamente tais ocasiões, sairias tanto mais fortalecida quanto maior fosse a violência do ataque. Quanto mais se debilita o teu eu, tanto mais forte Me tornarei em ti; e quanto mais longe estiveres do teu eu, tanto mais Me possuirás, porque o amor próprio, embora não te cause nenhum outro mal, traz consigo este—não Me permite operar em ti, pelo que ficas privada, em cada dia, de um bem infinito. Pois, aonde quer que vás, não encontrarás outro caminho para Mim a não ser aquele que ensinava aos Meus discípulos, quando lhes dizia: Quem quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo—isto é, abandone, mortifique, despoje a sua própria vontade—, tome a sua cruz e siga-Me.Começa já, pois é assim que tem de ser.

Por muitas coisas que abandones, se não abandonares a ti mesma, nada terás abandonado; pelo contrário, se não te amares, se não te pertenceres e abandonares em Mim, então, embora te possas encontrar no meio de riquezas e honrarias, terás abandonado tudo por Meu amor. Na medida em que saíres de ti, entrarei Eu; quanto mais morta estiveres para ti mesma, mais viverei em ti; e quanto mais aborreceres o teu eu, mais doce serei para ti.

Por isso, deixa tudo para encontrares tudo, ou seja, sai de ti para Me encontrares. Até quando te demorarás, filha? Até quando o temor te dominará? As tuas tribulações têm duas raízes: o amor a ti mesma e a tua pouca confiança em Mim. Abandona-te e confia em Mim. Acaso posso te enganar? Porque não te abandonas nas Minhas mãos? Porque não confias na Minha bondade? Que outra coisa pode te aproveitar? Que te pode ser útil? Que serias sem Mim? Tens medo de te abandonares e te entregares a Mim? Vê a quem te entregas: a Mim, sem o qual não poderias existir nem subsistir, nem muito menos estar bem; confia em Mim, pois não te posso repelir, não posso abandonar, não posso enganar, porque não posso deixar de te amar. Lança-te nos Meus braços sem vacilar, que Eu te acolherei e te protegerei.

Como se não existisses, assim serias sem Mim; por isso, se procuras a vida, sais de ti e lança-te nos Meus braços para que Eu possa te abraçar e unir-Me a ti. Se alguém quisesse causar-te dano ou tocar-te, antes teria que tocar em Mim. Por isso, abandona-te com ânimo alegre e decidido. Não te preocupes, nem desejes, nem escolhas isto ou aquilo por conveniência tua ou inclinação da tua natureza, mas antes aceita tudo por igual por amor a Mim; ama e deseja aquilo que sabes que Me mais agrada. Que no teu coração esteja sempre a oração que dirigi ao Pai nas vésperas da Minha paixão: Senhor, faça-se a Tua vontade[1]; e também: Porém, não se faça a minha vontade, mas a Tua[2]; e também: Ensina-me a fazer a Tua vontade, porque és o meu Deus[3]; e aquela outra: Faça-se em mim segundo a Tua palavra[4].

Queres saber qual o grau do teu abandono ou até que ponto estás morta para ti mesma? Se te angustias perante perdas materiais, os ultrajes e as injúrias, e se te perturbas mais quando estas coisas sucedem a ti do que aos outros, então estes são sinais seguros do teu amor às criaturas e a ti mesma. Evidentemente que tens amor aos bens temporais, às honras, à tranquilidade e a outras realidades caducas, porque te amas a ti mesma. Bem desejas estas coisas, mas se Me amasses verdadeiramente, as expulsarias do teu coração e suportarias sem vacilar toda a adversidade. E quando a adversidade te alcançasse, te inquietarias muito menos, como se tivesse caído sobre outro, pois o único que se deveria entristecer é aquele que Me despreza e desrespeita.

Assim, a obra, o exercício e a meta de quem se abandona corresponde a sair de si mesmo, desnudando-se de si mesmo, transformando-se, deixando tudo o que possa separá-lo de Mim. Os obstáculos mais pequenos são os pensamentos e as imagens das criaturas; o maior, a própria vontade, que quanto mais forte ela é, mais espaço ocupa no homem, mais pequeno serei Eu nele, e menos a sua alma Me pertence.

Quando sentes a inclinação e a atração da natureza para alguma coisa mais que a outra é porque ainda não estás perfeitamente morta para ti mesma e há ainda algo a mortificar em ti. Todo o sentimento que te afaste de Mim, qualquer coisa que tenta ocupar, alterar ou distrair o teu espírito; todo o que pugna para imprimir na tua alma a sua imagem; todo aquele que te quer atrair a si, seduzir-te e envolver-te; a tudo isso, recolhida e elevada para o Meu Espírito, deixa passar. Passa livremente por cima de toda a esperança e todo o medo, de toda a ganância e toda a perda, de toda a quietude e toda a fadiga, de toda a alegria e toda a tristeza, de toda a preocupação e demais afãs do coração. Não lhes prestes atenção. Se te fixares no Meu espírito, desprezarás todas estas coisas.

Além disso, se te amas, se não te despojas de ti mesma, sempre estarás à mercê da alegria e da tristeza, da ira e do medo, da preocupação e um sem fim de paixões. Nunca conseguirás ficar tranquila se não te esqueceres e estares morta para ti mesma. Por esta razão, filha, é necessário que te separes de ti para viveres apenas em Mim, para gostares apenas de Mim, para somente Me sentires. Nada te faltará se te abandonares desta maneira. Nada te faltará enquanto estiveres coMigo. Eu cuidarei de ti. Eu te protegerei. Despreocupada de ti mesma, nada poderás perder, porque em Mim encontrarás cem vezes mais. Deixa em Minhas mãos todo o cuidado, toda a preocupação, todo o temor, e entrega-te a Mim. Espera e confia em Mim. A tua esperança não te há-de defraudar, nem ser pequena, se a tua vida for boa e penitente. Toda a queixa que quiseres expressar a um amigo, expõe-na a Mim. Eu tomarei conta de ti, Eu te alimentarei, Eu te guardarei, Eu te defenderei. Tu, como estranha a ti mesma, preocupa-te apenas coMigo, de modo a mortificares e erradicares os teus apetites, o teu amor próprio, a tua sensualidade, renunciando a todo o desejo que não seja inspirado por Mim, o teu Deus. Porém, esta obediência, esta abdicação da tua própria vontade, este abandono de ti mesma deves fazê-lo por amor a Mim, a quem deves te entregar e estar sujeita de modo a queres apenas o que Eu quero.

[1]Mt 26, 42.

[2]Lc 22, 42.

[3]Sl 142, 10.

[4]Lc 1, 38.

XXV. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXII

Quantos males nos causa a própria vontade;
como devemos despojarmo-nos dela;
como ela é a fonte de todos os males e aflições


Nada pode fazer-te sofrer como a tua própria vontade; se estivesses morta para ela, nenhuma criatura poderia te causar dano. Que criatura te pode causar dano se estás morta para ti mesma, se em ti estão mortas as palavras “eu”, “me”, “a mim” e “meu”? Quem te poderia causar dano se Eu vivo em ti e tu em Mim? Nenhuma criatura poderia Me resistir, a não ser aquela que está obrigada a servir-Me. Além disso, se quisesses manter a tua própria vontade, todas as coisas estariam contra ti, todas te dariam combate e, quer queiras quer não, não te poderias subtrair aos desígnios da Minha Providência, apesar destes serem para ti uma cruz e não um consolo. Porém, se morreres para o teu eu, apreciarás a paz interior, que é um gozo desconhecido para a tua própria vontade, pois nada perturba o mundo a não ser esta última. Por isso, disse aos Meus discípulos: No mundo—isto é, aquele que é do mundo, que é prisioneiro dos seus próprios desejos, a quem o mundo lhe sorri—, tereis tribulação; mas tende confiança, porque Eu venci o mundo,[1]para que vocês também o vençam e tenhais paz em Mim.

Começa, pois, tu também a arrancar pela raiz e a mortificar em ti todos os desejos terrenos e todo o amor próprio. Caso contrário, como poderás vencer o mundo e o diabo se eles têm o seu próprio exército, ou seja, os vícios, dentro de ti? Expulsa primeiro tudo o que no teu interior se opõe a Mim, tudo o que combate contra ti, porque nem o diabo nem o mundo podem atacar-te ou vencer-te a não ser por meio das coisas que te possuem.

[1]Jo, 16, 33.

XXIV. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XXI

Sobre a excelência da obediência; como e a quem obedecer; o dever de nos submetermos aos nossos superiores com simplicidade; o dever de sempre e em toda a parte de renunciarmos à vontade própria


A obediência é a virtude mais nobre e a que mais aprecio. Agrada-Me mais uma ação, por mais pequena e insignificante que seja, caso seja feita por pura obediência, sendo mais proveitosa e meritória para aquele a realiza do que um sem fim de obras feitas por vontade própria. Crê-Me, filha, que não poderias oferecer-Me sacrifício mais nobre e digno que um coração humilde, obediente e disposto a tudo. Apenas por um ato de obediência, um homem pode renunciar a si mesmo por amor a Mim, negando a sua vontade própria, unindo-se a Mim mais intimamente, quando comparado com outros exercícios, por mais demorados e nobres que sejam. Assim, filha Minha, deves ser tão obediente que, mesmo que estejas fisicamente diante de Mim e desfrutes da Minha presença como uma esposa disfruta do seu esposo, e alguém te afaste de Mim em virtude da obediência, deves obedecer e abandonar-Me. Ao obedecer, não abandonarias a Mim, mas a ti mesma, pois escolherias a Minha honra e a Minha vontade em vez da tua própria comodidade, a tua própria consolação. E é esta a Minha vontade: que negues a ti própria e não busques o teu interesse, mas antes o interesse dos outros. Fazendo assim, renunciarás a ti mesma e à tua própria conveniência, não Me abandonando, mas antes encontrando-Me de um modo cem vezes mais nobre e mais perfeito.

Aprende, pois, a abandonar-te por amor a Mim, ou seja, a renunciar, através da negação de ti mesma, ao teu interesse, ao teu consolo, à tua devoção, ao teu proveito. Deste modo, fazendo o que deves, Me honrarás, e não só não perdes nada seguindo este caminho, como terás uma recompensa cem vezes maior. Por isso, a nada tenhas apego, nada te pareça mais útil que, por obediência, não possas deixar voluntariamente e com abandono. Todo aquele que, por apego a algo, Me recusa a obedecer, ou aceita fazê-lo com tristeza ou relutância, é um ídolo à sua vontade própria, sendo tão nocivo que não se pode expressar por palavras. Caso estejas num lugar onde não tenhas um Superior, ou onde o Superior sejas tu, trata a todos como se fossem superiores a ti, submetendo-te à sua vontade e abandonando a tua. Porém, não faças isso por inércia, mas sim quando tal for lícito e quando a intenção seja negar-te a ti mesma por amor a Mim.

Ama a virtude da obediência desde o mais profundo recanto do teu coração e não a abandones até à tua morte; não só a obediência aos teus superiores, mas também a todos os homens, por causa de Mim, desde que [o que te pedirem] não seja contrário à Minha vontade; e fá-lo sem tristeza, sem murmuração, sem discussões. E para que possas atuar mais livremente, não olhes ao homem que por disposição Minha é teu superior; não te fixes no quanto ele é sabedor ou idóneo, nem dês importância se ele é culto ou inculto, distinto ou insignificante. Tem apenas em atenção o facto que a Minha Providência te deu-o como Superior e que por meio dele quero guiar-te; consulta-o e escuta-o como se ele fosse Eu próprio. Atende à Minha Providência, com a qual quero guiar-te pela pessoa que escolhi, seja ela uma simplória ou uma erudita, e sujeita-te a Mim.

Por tudo isto, sem escrúpulo ou temor algum, deixa de lado a tua opinião e sabedoria. Submete-te apenas ao juízo e ao parecer do teu diretor. Tudo o que ele determine, tudo o que ele estabeleça, toma-o como se viesse da Minha própria boca. Por vezes, imponho aos Meus servos superiores pouco cultos ou pouco sagazes de modo a que não busquem a sabedoria humana, ou ao homem pelo homem, mas antes que busquem a Mim, o seu Deus, no homem; e se confiam em Mim, Eu não lhes responderei pior através de um homem simples que através de um sábio. Por esta razão, e seja qual for a resposta, não deves receber o que ele te disser como se viesse dos lábios de um homem, mas sim da Minha própria boca, atribuindo tudo a Mim e à Minha direção e nada à prudência ou simplicidade humana. Portanto, se não te quiseres enganar, abraça a vida da obediência e não faças nada sem consultar um sacerdote, um guia espiritual ou o teu Superior.

Vive sempre em simplicidade e pobreza de espírito, sem juízo próprio, sem decisões próprias, sem sentimento próprio e sem ponto de vista próprio. Não admitas ocasião alguma de queixa ou murmuração, e julga sempre melhor o que te diz o Superior ou, na falta deste, o que outros decidirem, desde que não seja pecado manifesto. E para o extermínio pleno da vontade própria, deves não só permanecer sujeita à obediência de um homem, mas também submeter-te a todas as criaturas por amor a Mim. Pois deves odiar a tua vontade própria a tal ponto que deves extingui-la, vivendo entre os homens como se não tivesses vontade própria, ou seja, como se tivesses anulado a tua capacidade de preferência e aceitasses com indiferença tudo o que te sucede, mas apenas com esta exceção: preferires a vontade do outro desde que não seja pecado, salvaguardando a honestidade e discrição devidas.

No que respeita somente a ti, aceita o parecer dos outros como se tivesses prometido obediência a todos os homens. Mais ainda, aonde quer que estejas, mesmo que estejas só, não faças a tua própria vontade, mas ordena toda a tua vida e todos os teus exercícios para negares a ti mesma. Este é melhor para ti que o Paraíso. E quando a Minha vontade se tornar manifesta, seja por inspiração interior, ou pela Sagrada Escritura, ou através do teu Superior, ou por meio de uma criatura, ou de outro modo qualquer, mal sintas que és admoestada, deixa de imediato todo o parecer, juízo, vontade, opinião, desejo ou inclinação próprios, abandona-te e segue a Minha vontade. Deves aprender a discernir sabiamente qual é a Minha vontade para que não penses que estejas a seguir o Meu espírito quando estás a seguir o teu espírito de erro e engano. Por isso, faz tudo segundo o juízo do teu Superior e submete-te inteiramente à sua vontade.

XXIII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XX

Sobre a indiferença ante os elogios, críticas e juízos dos homens; o que se deve fazer com eles e as características dos amigos de Deus

Não percas tempo ao estar preocupada com a opinião que os homens têm sobre ti e como te julgam. Se, segundo as tuas possibilidades, atuas sabiamente e não te tornas para eles um escândalo, que seria motivo de uma justa censura, não deves temer o seu juízo. Pois nem os elogios te tornam melhor, nem as críticas pior; tu és o que és aos Meus olhos. Por isso, não te exaltes com o elogio alheio, nem te entristeças com a crítica. Que te aproveita o elogio alheio? Absolutamente nada, pois na maioria das vezes o dano que te causa é maior, pois faz-te crer que és algo de especial e tua vaidade não tem limites. Pelo contrário, que mal te podem causar o desprezo, a injúria, a humilhação, a censura, a condenação e a perseguição por todos os homens? Nada, certamente. Muito pelo contrário, são-te altamente proveitosos porque te empurram para o conhecimento de ti mesma e contribuem um pouco na aquisição da humildade e emenda de vida e dos costumes. Deste modo, aprenderás a viver mais cauta e prudentemente entre os homens, e a não depositar a tua esperança neles, mas antes em Mim.

Portanto, os juízos dos homens não te devem preocupar, tanto aqueles que são feitos em tom elogioso, ou em tom de crítica. Deixa-os falar, deixa-os opinar. Dirige-te, antes, ao Meu coração, examina a tua consciência, e se não Me ofendestes, nada temas.

Se vês que me ofendestes, chora, mas não porque os homens te desprezam — pois tal deves suportar e desejar como algo merecido —, mas antes por Me teres ofendido e teres dado ocasião aos teus semelhantes de pecarem. Porém, se te elogiam ou criticam por uma ação inocente, recebe os elogios ou as críticas como se fossem dirigidos a outro. Se os homens te elogiam, considera que eles estão errados ou são benevolentes demais para contigo; se te acusam ou condenam, não estranhes isso. Que há de estranho se os homens censuram a tua vida, a desprezam e a condenam, quando condenaram a Minha vida inocente, limpa de toda a mancha, em que nada havia de repreensível, e desprezaram a Minha doutrina? Alegra-te, antes, de teres chegado ao caminho da humilhação e abjeção, e de sofrer perseguição por parte dos homens. Deixa-os maquinar o mal contra ti, que Eu o converterei em bem; limita-te a ser paciente e a guardar silêncio.

Em todas as coisas, procura agradar-Me e não aos homens. Se agradas aos homens, pensa que a sua opinião sobre ti é falsa, porque te não conhecem como Eu te conheço, mas antes te julgam pelas aparências e com ingenuidade. Se os desgostas, atribui-o aos teus deméritos e aproveita para te humilhar ainda mais. E se te desprezam pela tua insignificância, que sucederia se os homens te conhecessem verdadeiramente, se vissem os teus pecados e defeitos como Eu os vejo?

Ama, pois, de seres tida por vil e desprezível, e nunca julgues que és mais desprezada do que deverias ser. Deves, antes, considerar-te a mais miserável, a mais indigna, a mais ingrata de todas as criaturas e a mais necessitada da Minha graça e da Minha misericórdia; reconhece que, sem Mim, não és senão um puro nada e que todas as tuas obras carecem de valor. Pensa que não há ninguém tão mau que não seja melhor e mais digno do Céu que tu. Persuade-te que os outros realizam ações com mérito e que tu és tolerada por Mim apenas pela Minha misericórdia.  Por isso, não ouses a te comparar com ninguém, mas antes crê que és a mais pecadora de todos os homens, e a mais vil e ingrata a Mim; porque tudo o que vem de ti, ou não vale nada, ou é pecado.

Crer estar acima dos outros ou preferir-se a si próprio aos outros pelos dons que de Mim recebeu é próprio de uma soberba intolerável e insolente. Para te protegeres dela, retiro-te os dons mais sensíveis, pois não sabes fazer uso deles a não ser para te ensoberbeceres, quando nada deverias te atribuir, mas antes deverias tudo imputar a mim. Vela, pois, para que nada desejes por egoísmo, mas apenas por amor a Mim, de modo a evitar que, por soberba, Me sejas ingrata ou abominável pela tua negligência. Olha para o teu nada, e com que rapidez és vencida, pois se não te defendo, se não luto por ti, és incapaz de suportar a mais leve adversidade ou fazer frente à mais débil tentação, não podendo evitar de corromper com o teu pecado todo o bem.

És demasiado inclinada a criticar os outros, o que é indício seguro de arrogância, como se tu fosses melhor que aqueles que criticas. E, talvez, seja verdadeiro que não tens o vício do qual acusas os outros, mas tens outros. Por isso, de modo nenhum te consideres melhor que ninguém; mais ainda, te tornas muito mais detestável pela tua língua, que é sinal manifesto da tua arrogância invejosa. Os Meus verdadeiros amigos acusam-se a si mesmos e não olham para os pecados alheios, mas antes olham para os seus. Olham as suas obras e para eles mesmos com suspeita; não confiam em si mesmos, pois sabem por experiência que se têm enganado em muitas ocasiões. Temem sempre em não Me procurar com pureza absoluta; além disso, admiram e louvam as obras dos outros e negam-se a alimentar suspeitas sobre o próximo. Com essa mesma disposição, limita-te a louvar os outros ou dando desculpas por eles; ou, ao menos, guarda silêncio, tendo imediatamente presente a teus olhos a tua baixeza e ingratidão, admirando-te de não seres detestada e desprezada por todos os homens.

Filha Minha, não podes adquirir a humildade se não amas ser humilhada, pois a humilhação precede a humildade. Tudo aquilo que te acontece recebe-o da Minha mão como humilhação tua. Ama ser humilhada e desprezada pelos outros. Deixa que murmurem contra o teu bom nome. Permanece em silêncio e confia em Mim. Eu defenderei a tua honra melhor que tu. Se defenderes a ti mesma, não necessitarias da Minha proteção; se te calas humilde e pacientemente, Eu responderei por ti no momento oportuno. Não te antecipes a Mim, dando desculpas. Eu lutarei por ti, e tu guardarás silêncio.

XXII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

 

 

Capítulo XIX

Em que consiste a verdadeira humildade, e como se obtém;
quais são as causas da humildade e quão necessária ela é

 

Para obter a humildade, contempla a Minha majestade, omnipotência, sabedoria e bondade. Apenas Eu sou imortal imenso, infinito, inabarcável, inefável, incompreensível. De Mim, todas as criaturas recebem a sua existência. Com um gesto da Minha vontade, posso reduzi-las a nada com toda a máquina do universo, e de novo, com uma ordem Minha, restituiria à existência cada uma delas. Na Minha grandeza, não por necessidade ou indigência, mas antes por Meu amor e liberalidade, as criei criaturas racionais à Minha imagem, para cobri-las com a Minha bondade e dar-lhes a Minha beatitude. Por vós, que afastastes da Minha graça pelo pecado e tornastes indignos da vida eterna e réus do fogo do Inferno, encarnei e durante trinta anos padeci fome, sede, frio, calor, fatigas, penas, perseguições, desprezo, insultos, açoites, feridas, dor e, por fim, a cruz e a morte, tudo isto para vos resgatar da morte eterna.

Filha Minha, vivi na terra, não como Deus, não como um poderoso, não como um triunfador; vivi como o mais pobre, o mais vil, o último e o mais desprezível de todos os homens, exposto ao sofrimento e aos insultos, até que atingi o fim dos Meus dias com a morte mais desonrosa, da que o mundo me achou digno, como se a Minha vida e a Minha doutrina fossem para todos — tal era a opinião do mundo — uma forma de peste que tinha de ser apagada da memória dos homens; e tudo isso na presença de uma multidão que proferia insultos contra Mim.

Como a corça suspira pelas águas correntes[1], filha Minha, assim Eu corri para a morte, ébrio de amor por ti. Não Me poupei a nenhuma fadiga, dor ou pena. A nada Me poupei que fosse conveniente para ti, pois eras para Mim tão nobre, tão preciosa, que por ti ardia de desejo de entregar a Minha alma à morte e oferecer o Meu corpo às feridas. Além disso, como tinha uma sede ardente da tua salvação, quis derramar o Meu sangue até à última gota.

Que Me dás em troca disto, filha? Que Me ofereces em troca de tanto amor? Não és tu a mesma ingrata que Me despreza há tantos anos? Que tem aversão à Minha Palavra, que sente fastio de cantar os Meus louvores, que transgride os Meus mandamentos? Sendo tu tão arrogante para Mim, tão imunda e vil, tão suja e cheia de abominações, como te permites expulsar-Me do teu lado, desprezando as Minhas inspirações, prostituindo-te com as criaturas, e abusando dos Meus dons? Depois de te libertar tantas vezes dos teus pecados gravíssimos e até mesmo da condenação eterna, na qual justamente terias ardido há já muito tempo se a Minha misericórdia não tivesse intervindo; depois de te preservar ainda de tantos delitos e do abismo do pecado, porque Me desprezas e abandonas? Porque o fazes, sabendo que sem Mim não eras se não vil, miserável, um nada? Como te atreves a levantar o rosto para Mim, a quem tantas vezes ofendestes, e durante tanto tempo desprezastes? Digo-te isto para que te conheças a ti mesma.

Considera o quão vil e imundo está o teu corpo, quão suja está a tua alma e impuro o teu coração; enfim, quão indignas são as tuas obras, malvados os teus pensamentos, imundos e impuros os teus afetos. No entanto, ainda assim te suporto, ainda derramo sobre ti os Meus bens, ainda te amo. Porém, durante quanto tempo? Até quando aguentarei? Quando te conhecerás a ti mesma? Quanto mais tempo demorarás a voltar a Mim? Porque não te humilhas? Não vês que não posso manter por mais tempo a Minha misericórdia? Não vês onde te chamei, e onde te estabeleci? Onde estão os teus frutos? Não te dás conta de como dissimulo todas as tuas maldades e ingratidões? Porém, não te digo isto em tom de censura, mas antes como se morresse de amor por ti, como se tivesse falta de ti — apesar de nada precisar —, como se não pudesse viver sem ti. Apenas pela Minha bondade e Meu amor te convido a que correspondas com amor ao Meu amor. Deste modo, amando, sentirás o que és tu e o que Eu sou, o quanto Eu fiz por ti e com quanta ingratidão me tens pago.

Considera, ainda, que no Inferno há um sem número de almas que teriam merecido menos a condenação que tu se não tivesses sido prevenida pela Minha graça, pois se aquelas almas tivessem recebido uma graça igual à tua, te venceriam em gratidão. Se tornasses consciente da Minha majestade e da tua baixeza, se medisses a soberba com que exibes a tua baixeza e a humildade que há na Minha majestade — pois por humildade Me rebaixei por amor a ti —, seria-te menos penoso ser humilde. Se refletisses, insisto, em que estado de pobreza, abjeção e desprezo, Eu, sendo tão poderoso, rico e excelso, imenso em majestade e infinito em bondade, te servi, pobre e vil homenzinho, com tanto amor, fidelidade e desejo, nasceria no teu coração tal reverência por Mim e tal veneração à Minha majestade que não poderias expressar por palavras.

Além disso, nasceria em ti um desejo insaciável e uma sede ardente de honrar-Me, venerar-Me, exaltar-Me e, ao mesmo tempo, de te humilhares, te desprezares, e por amor a Mim, de te submeteres a todas as criaturas, suportando os insultos, o desprezo e as injúrias de todos. Por muito que te humilhasses, por muito que suportasses, estimarias em nada o teu sofrimento, devido à sede e ao desejo que terias de te humilhar e de Me exaltar; mais ainda, amarias de forma especial aqueles que mais te oprimem e desprezam, porque ao humilhar-te serviriam o teu desejo de humildade.

Filha Minha, se ainda não tens em ti estes sentimentos, reconhece quanta é a tua ingratidão perante Mim e quão longe estás da verdadeira humildade, que é uma profunda inclinação do coração ante a Minha divina majestade, a que segue o desprezo de si mesmo e o desejo de ser considerado como nada e de ser desprezado por todos.

Te exorto de novo, filha, a que fixes os teus olhos na Minha humildade e a tomes como modelo. Vê como o mundo desprezou, caluniou e reprovou a Minha vida e a Minha doutrina; como menosprezou as Minhas palavras; quantas injúrias, zombarias, desprezos e escárnios tive que suportar, como se fosse um malfeitor, por parte dos mais vis entre os homens e a favor das mais vis e ingratas criaturas; escarnecido e tratado como o opróbrio dos homens, não desprezei ninguém, não arranjei desculpas, não Me defendi. Vê também tu que eras digna de ser desprezada, pela tua dureza, negligência, pecado, ingratidão, inconstância, vileza e insignificância. Geme, chora, acusa-te antes com lágrimas constantes.

Todo o que te ocorra converte-o em humildade. Não te compadeças de ti mesma; pelo contrário, admira-te que possas agradar a alguém que te conheça bem. Dirige constantemente os olhos do teu coração ao teu não ser e ao teu não ter; considera que nada és, e o que deverias ser, não és; igualmente, que não tens e que não podes, quantas coisas te faltam e que longe estás da verdadeira e perfeita caridade e da perfeição dos santos, dos quais existe um abismo que te separa deles; considera também que nada tens de bom, mas antes que é de Mim que recebes todos os bens.

Além disso, isto é tudo o que podes esperar de ti: pecar, fazer o mal, desfalecer, passar necessidades, destruir e arruinar todos os Meus dons e os Meus bens. Pois há uma coisa certa: se eu abandonasse a natureza humana na sua liberdade e inclinações, nada de bom seria de esperar dela. E assim é, pois apesar das Minhas advertências e proibições, a mente humana se precipita para o mal. E o que é a natureza humana? Nada. Nada tem de si e ao nada tende. Se tivesses sempre presente este pensamento, bem te ajudaria a adquirires a virtude da humildade.

Apesar disso, deves ter uma humildade não menor por esses defeitos ocultos e desconhecidos para ti, que muitas vezes são graves, ainda que não os vejas. Por causa deles, atira-te aos pés da Minha misericórdia e chora, com o coração, a debilidade e a irrefreável inclinação ao pecado que há em ti. E não tenhas outro sentimento sobre ti a não ser o facto de estares coberta de pecado, sendo cega e a mais ingrata de todas as criaturas.

[1] – Sl 41, 2.

XXI. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XVIII

Sobre o dever de nos sentirmos humildes em relação a nós
próprios e de pedir a Deus a humildade antes de tudo

Aborrece-te e foge com a tua alma das honrarias e da glória em favor dos homens, e das demais adulações e lisonjarias do mundo. Pensa antes que és um homem soberbo, ingrato e irrespeitoso para coMigo; por isso, se eu te pagasse como tu mereces, serias odioso a todas as criaturas, pois que não és digna nem da terra nem do ar que respiras. Com estes sentimentos implora incessantemente a Minha misericórdia e a Minha graça. Não te apoies nas tuas obras e desconfia de outros méritos que não sejam os da Minha redenção e bondade. Pede-Me, com lágrimas e gemidos, uma humildade perfeita, pois somente por meio dela amarás a ser ignorada, desprezada e considerada como nada. Deseja, tanto quanto possível, a abraçar as coisas mais simples e humildes, e escolhe ter e fazer os que os outros recusam por parecer desprezível, julgando-te indigna e a mais vil que os mais vis. Não manifestes nem o mais pequeno vestígio de ostentação nem desejo de glória, nem nada que te faça parecer como alguém especial, a não ser que a necessidade ou o amor puro a Deus te o exijam. Nada ostentes, de nada te gabes. Não te irrites contra quem te ofende ou te despreza, nem mostres um rosto mais triste que o costume ou um coração menos benévolo. Antes, sim, admira-te que todas as criaturas não se conjugam contra ti por teres ofendido a Mim, que sou o teu Criador, e de todas as coisas.

XX. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XVII

Sobre a pobreza de Cristo; como deve ser meditada
e imitada; e que coisas há que se opõem a ela

Contempla agora mesmo a Minha pobreza e como sendo rico Me fiz pobre por ti[1]; como vim ao que era Meu, e os Meus não me receberam[2]; como fui estrangeiro e pobre sobre a terra; como a Minha mãe, desterrada em terra estranha, Me deu à luz num estábulo[3] e, ali recostado no feno, só a respiração dos animais me protegia do frio; fui redimido com a oferenda dos pobres[4], e quando ainda menino fui forçado ao exílio[5] e fui criado com o trabalho dos Meus pais; depois fui mantido por esmolas e não tinha casa nem morada própria. Várias vezes passei a noite nos montes[6]; na Minha Paixão fui despojado das Minhas roupas[7] e morri nu na cruz, sem que houvesse uma gota de água com que, na minha ardente sede, pudesse aliviar a secura da Minha língua[8]; depois da morte fui enterrado num sepulcro emprestado[9].

Além disso, quantas vezes crês que padeci de fome, sede, frio e outros desconfortos do corpo? Os alívios corporais, que a maioria julga indispensáveis, eu os recusei, escolhendo viver numa pobreza absoluta. Porém, tu que tens à tua disposição todas as coisas orgulhas-te de ser pobre; e tendo tudo, ainda te queixas quando te faltam algumas coisas que são mais supérfluas que necessárias. Por isso, contempla a Minha pobreza e deixa de te entristecer, deixa de te indignares se vês outro que é preferido a ti, ou que lhe é dado mais abundantemente. Porque não te entristeces antes—o que seria uma santa emulação—ao ver que há outro mais pobre que tu, como fazia São Francisco, ou quando ouves que algum é mais conforme que tu à Minha vida e à Minha pobreza, sentimento que deves ter de todos? Que santa emulação seria esta se não te afligisses pelo bem que tem o outro, não que seja melhor que tu, mas antes porque tu não és boa e que isso te sucede por tua culpa?

Por isso, alegra-te e recebe como sinal certo da Minha graça, como grande benefício e dom singular, se te carrego com uma enfermidade, pobreza, humilhação e desprezo. Todos estes são os meios que uso para te tornar mais semelhante a Mim. Alegra-te se te faltam as coisas necessárias ou se te abandonam, não te queixando de ninguém. Antes, com o coração tranquilo e silencioso abraça a cruz da Minha pobreza, negando-te a ti mesma e permanecendo silenciosa.

De que te serve, filha, ter deixado o mundo, riquezas e amigos, se por causa de uma agulha perdes a calma, por ainda não te teres libertado do amor ao que vale tão pouco? De que te serve se, por possuíres essas coisas de somenos importância, em vez de as deixares, guerreias, entristeces-te, discutes, não te importando com a paz e a caridade ao próximo? Por isso, escolhe já e propõe-te firmemente a desprezar tudo isso por amor a Mim, não querendo possuir nada a não ser o que seja estritamente necessário. Suporta com amor a pobreza, a humilhação e a penúria para que possas Me possuir, pois como sou melhor e mais útil que mil mundos, assim devo ser mais desejado.

Porque te demoras, filha? Conforta-te com o Meu exemplo, incendiando-te de amor por Mim e, em tudo o que a Mim respeite, guarda zelosamente a pobreza e a penúria de todas as coisas. Além disso, considera todos os homens dignos de consolo, como servos fiéis meus, melhores que tu e não tão ingratos como tu. E com o estímulo da caridade e urgência da compaixão, daquilo que de ti dependa, para que nada falte a ninguém, ajuda a todos com o teu trabalho, serviço e favor. Tudo o que tens considera como alheio, de forma a que não o possuas, ou que não sintas dor caso o percas. Considera que tudo o que tens te foi dado para o uso dos demais.

[1] Cf. 2 Cor 8, 9.

[2] Cf. Jo 1,11.

[3] Cf. Lc 2,7.

[4] “Quando terminar o tempo da sua purificação, para um filho ou para uma filha, [a mulher] apresentará ao sacerdote […] um cordeiro de um ano, como holocausto e uma pomba ou uma rola, como sacrifício pelo pecado. […] Se não tiver meios para oferecer um cordeiro, tomará duas rolas ou duas pombas, uma para o holocausto e outra para o sacrifício pelo pecado (Lev 12, 6-8). Cf. também Lc 2, 24.

[5] Cf. Mt 2, 13-15.

[6] Cf. Lc 6, 12.

[7] Cf. Mt 27,28.

[8] Cf. Jo 19, 28-29.

[9] Cf. Mt 27, 59-60.