XXII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

 

 

Capítulo XIX

Em que consiste a verdadeira humildade, e como se obtém;
quais são as causas da humildade e quão necessária ela é

 

Para obter a humildade, contempla a Minha majestade, omnipotência, sabedoria e bondade. Apenas Eu sou imortal imenso, infinito, inabarcável, inefável, incompreensível. De Mim, todas as criaturas recebem a sua existência. Com um gesto da Minha vontade, posso reduzi-las a nada com toda a máquina do universo, e de novo, com uma ordem Minha, restituiria à existência cada uma delas. Na Minha grandeza, não por necessidade ou indigência, mas antes por Meu amor e liberalidade, as criei criaturas racionais à Minha imagem, para cobri-las com a Minha bondade e dar-lhes a Minha beatitude. Por vós, que afastastes da Minha graça pelo pecado e tornastes indignos da vida eterna e réus do fogo do Inferno, encarnei e durante trinta anos padeci fome, sede, frio, calor, fatigas, penas, perseguições, desprezo, insultos, açoites, feridas, dor e, por fim, a cruz e a morte, tudo isto para vos resgatar da morte eterna.

Filha Minha, vivi na terra, não como Deus, não como um poderoso, não como um triunfador; vivi como o mais pobre, o mais vil, o último e o mais desprezível de todos os homens, exposto ao sofrimento e aos insultos, até que atingi o fim dos Meus dias com a morte mais desonrosa, da que o mundo me achou digno, como se a Minha vida e a Minha doutrina fossem para todos — tal era a opinião do mundo — uma forma de peste que tinha de ser apagada da memória dos homens; e tudo isso na presença de uma multidão que proferia insultos contra Mim.

Como a corça suspira pelas águas correntes[1], filha Minha, assim Eu corri para a morte, ébrio de amor por ti. Não Me poupei a nenhuma fadiga, dor ou pena. A nada Me poupei que fosse conveniente para ti, pois eras para Mim tão nobre, tão preciosa, que por ti ardia de desejo de entregar a Minha alma à morte e oferecer o Meu corpo às feridas. Além disso, como tinha uma sede ardente da tua salvação, quis derramar o Meu sangue até à última gota.

Que Me dás em troca disto, filha? Que Me ofereces em troca de tanto amor? Não és tu a mesma ingrata que Me despreza há tantos anos? Que tem aversão à Minha Palavra, que sente fastio de cantar os Meus louvores, que transgride os Meus mandamentos? Sendo tu tão arrogante para Mim, tão imunda e vil, tão suja e cheia de abominações, como te permites expulsar-Me do teu lado, desprezando as Minhas inspirações, prostituindo-te com as criaturas, e abusando dos Meus dons? Depois de te libertar tantas vezes dos teus pecados gravíssimos e até mesmo da condenação eterna, na qual justamente terias ardido há já muito tempo se a Minha misericórdia não tivesse intervindo; depois de te preservar ainda de tantos delitos e do abismo do pecado, porque Me desprezas e abandonas? Porque o fazes, sabendo que sem Mim não eras se não vil, miserável, um nada? Como te atreves a levantar o rosto para Mim, a quem tantas vezes ofendestes, e durante tanto tempo desprezastes? Digo-te isto para que te conheças a ti mesma.

Considera o quão vil e imundo está o teu corpo, quão suja está a tua alma e impuro o teu coração; enfim, quão indignas são as tuas obras, malvados os teus pensamentos, imundos e impuros os teus afetos. No entanto, ainda assim te suporto, ainda derramo sobre ti os Meus bens, ainda te amo. Porém, durante quanto tempo? Até quando aguentarei? Quando te conhecerás a ti mesma? Quanto mais tempo demorarás a voltar a Mim? Porque não te humilhas? Não vês que não posso manter por mais tempo a Minha misericórdia? Não vês onde te chamei, e onde te estabeleci? Onde estão os teus frutos? Não te dás conta de como dissimulo todas as tuas maldades e ingratidões? Porém, não te digo isto em tom de censura, mas antes como se morresse de amor por ti, como se tivesse falta de ti — apesar de nada precisar —, como se não pudesse viver sem ti. Apenas pela Minha bondade e Meu amor te convido a que correspondas com amor ao Meu amor. Deste modo, amando, sentirás o que és tu e o que Eu sou, o quanto Eu fiz por ti e com quanta ingratidão me tens pago.

Considera, ainda, que no Inferno há um sem número de almas que teriam merecido menos a condenação que tu se não tivesses sido prevenida pela Minha graça, pois se aquelas almas tivessem recebido uma graça igual à tua, te venceriam em gratidão. Se tornasses consciente da Minha majestade e da tua baixeza, se medisses a soberba com que exibes a tua baixeza e a humildade que há na Minha majestade — pois por humildade Me rebaixei por amor a ti —, seria-te menos penoso ser humilde. Se refletisses, insisto, em que estado de pobreza, abjeção e desprezo, Eu, sendo tão poderoso, rico e excelso, imenso em majestade e infinito em bondade, te servi, pobre e vil homenzinho, com tanto amor, fidelidade e desejo, nasceria no teu coração tal reverência por Mim e tal veneração à Minha majestade que não poderias expressar por palavras.

Além disso, nasceria em ti um desejo insaciável e uma sede ardente de honrar-Me, venerar-Me, exaltar-Me e, ao mesmo tempo, de te humilhares, te desprezares, e por amor a Mim, de te submeteres a todas as criaturas, suportando os insultos, o desprezo e as injúrias de todos. Por muito que te humilhasses, por muito que suportasses, estimarias em nada o teu sofrimento, devido à sede e ao desejo que terias de te humilhar e de Me exaltar; mais ainda, amarias de forma especial aqueles que mais te oprimem e desprezam, porque ao humilhar-te serviriam o teu desejo de humildade.

Filha Minha, se ainda não tens em ti estes sentimentos, reconhece quanta é a tua ingratidão perante Mim e quão longe estás da verdadeira humildade, que é uma profunda inclinação do coração ante a Minha divina majestade, a que segue o desprezo de si mesmo e o desejo de ser considerado como nada e de ser desprezado por todos.

Te exorto de novo, filha, a que fixes os teus olhos na Minha humildade e a tomes como modelo. Vê como o mundo desprezou, caluniou e reprovou a Minha vida e a Minha doutrina; como menosprezou as Minhas palavras; quantas injúrias, zombarias, desprezos e escárnios tive que suportar, como se fosse um malfeitor, por parte dos mais vis entre os homens e a favor das mais vis e ingratas criaturas; escarnecido e tratado como o opróbrio dos homens, não desprezei ninguém, não arranjei desculpas, não Me defendi. Vê também tu que eras digna de ser desprezada, pela tua dureza, negligência, pecado, ingratidão, inconstância, vileza e insignificância. Geme, chora, acusa-te antes com lágrimas constantes.

Todo o que te ocorra converte-o em humildade. Não te compadeças de ti mesma; pelo contrário, admira-te que possas agradar a alguém que te conheça bem. Dirige constantemente os olhos do teu coração ao teu não ser e ao teu não ter; considera que nada és, e o que deverias ser, não és; igualmente, que não tens e que não podes, quantas coisas te faltam e que longe estás da verdadeira e perfeita caridade e da perfeição dos santos, dos quais existe um abismo que te separa deles; considera também que nada tens de bom, mas antes que é de Mim que recebes todos os bens.

Além disso, isto é tudo o que podes esperar de ti: pecar, fazer o mal, desfalecer, passar necessidades, destruir e arruinar todos os Meus dons e os Meus bens. Pois há uma coisa certa: se eu abandonasse a natureza humana na sua liberdade e inclinações, nada de bom seria de esperar dela. E assim é, pois apesar das Minhas advertências e proibições, a mente humana se precipita para o mal. E o que é a natureza humana? Nada. Nada tem de si e ao nada tende. Se tivesses sempre presente este pensamento, bem te ajudaria a adquirires a virtude da humildade.

Apesar disso, deves ter uma humildade não menor por esses defeitos ocultos e desconhecidos para ti, que muitas vezes são graves, ainda que não os vejas. Por causa deles, atira-te aos pés da Minha misericórdia e chora, com o coração, a debilidade e a irrefreável inclinação ao pecado que há em ti. E não tenhas outro sentimento sobre ti a não ser o facto de estares coberta de pecado, sendo cega e a mais ingrata de todas as criaturas.

[1] – Sl 41, 2.

XXI. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XVIII

Sobre o dever de nos sentirmos humildes em relação a nós
próprios e de pedir a Deus a humildade antes de tudo

Aborrece-te e foge com a tua alma das honrarias e da glória em favor dos homens, e das demais adulações e lisonjarias do mundo. Pensa antes que és um homem soberbo, ingrato e irrespeitoso para coMigo; por isso, se eu te pagasse como tu mereces, serias odioso a todas as criaturas, pois que não és digna nem da terra nem do ar que respiras. Com estes sentimentos implora incessantemente a Minha misericórdia e a Minha graça. Não te apoies nas tuas obras e desconfia de outros méritos que não sejam os da Minha redenção e bondade. Pede-Me, com lágrimas e gemidos, uma humildade perfeita, pois somente por meio dela amarás a ser ignorada, desprezada e considerada como nada. Deseja, tanto quanto possível, a abraçar as coisas mais simples e humildes, e escolhe ter e fazer os que os outros recusam por parecer desprezível, julgando-te indigna e a mais vil que os mais vis. Não manifestes nem o mais pequeno vestígio de ostentação nem desejo de glória, nem nada que te faça parecer como alguém especial, a não ser que a necessidade ou o amor puro a Deus te o exijam. Nada ostentes, de nada te gabes. Não te irrites contra quem te ofende ou te despreza, nem mostres um rosto mais triste que o costume ou um coração menos benévolo. Antes, sim, admira-te que todas as criaturas não se conjugam contra ti por teres ofendido a Mim, que sou o teu Criador, e de todas as coisas.

XX. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XVII

Sobre a pobreza de Cristo; como deve ser meditada
e imitada; e que coisas há que se opõem a ela

Contempla agora mesmo a Minha pobreza e como sendo rico Me fiz pobre por ti[1]; como vim ao que era Meu, e os Meus não me receberam[2]; como fui estrangeiro e pobre sobre a terra; como a Minha mãe, desterrada em terra estranha, Me deu à luz num estábulo[3] e, ali recostado no feno, só a respiração dos animais me protegia do frio; fui redimido com a oferenda dos pobres[4], e quando ainda menino fui forçado ao exílio[5] e fui criado com o trabalho dos Meus pais; depois fui mantido por esmolas e não tinha casa nem morada própria. Várias vezes passei a noite nos montes[6]; na Minha Paixão fui despojado das Minhas roupas[7] e morri nu na cruz, sem que houvesse uma gota de água com que, na minha ardente sede, pudesse aliviar a secura da Minha língua[8]; depois da morte fui enterrado num sepulcro emprestado[9].

Além disso, quantas vezes crês que padeci de fome, sede, frio e outros desconfortos do corpo? Os alívios corporais, que a maioria julga indispensáveis, eu os recusei, escolhendo viver numa pobreza absoluta. Porém, tu que tens à tua disposição todas as coisas orgulhas-te de ser pobre; e tendo tudo, ainda te queixas quando te faltam algumas coisas que são mais supérfluas que necessárias. Por isso, contempla a Minha pobreza e deixa de te entristecer, deixa de te indignares se vês outro que é preferido a ti, ou que lhe é dado mais abundantemente. Porque não te entristeces antes—o que seria uma santa emulação—ao ver que há outro mais pobre que tu, como fazia São Francisco, ou quando ouves que algum é mais conforme que tu à Minha vida e à Minha pobreza, sentimento que deves ter de todos? Que santa emulação seria esta se não te afligisses pelo bem que tem o outro, não que seja melhor que tu, mas antes porque tu não és boa e que isso te sucede por tua culpa?

Por isso, alegra-te e recebe como sinal certo da Minha graça, como grande benefício e dom singular, se te carrego com uma enfermidade, pobreza, humilhação e desprezo. Todos estes são os meios que uso para te tornar mais semelhante a Mim. Alegra-te se te faltam as coisas necessárias ou se te abandonam, não te queixando de ninguém. Antes, com o coração tranquilo e silencioso abraça a cruz da Minha pobreza, negando-te a ti mesma e permanecendo silenciosa.

De que te serve, filha, ter deixado o mundo, riquezas e amigos, se por causa de uma agulha perdes a calma, por ainda não te teres libertado do amor ao que vale tão pouco? De que te serve se, por possuíres essas coisas de somenos importância, em vez de as deixares, guerreias, entristeces-te, discutes, não te importando com a paz e a caridade ao próximo? Por isso, escolhe já e propõe-te firmemente a desprezar tudo isso por amor a Mim, não querendo possuir nada a não ser o que seja estritamente necessário. Suporta com amor a pobreza, a humilhação e a penúria para que possas Me possuir, pois como sou melhor e mais útil que mil mundos, assim devo ser mais desejado.

Porque te demoras, filha? Conforta-te com o Meu exemplo, incendiando-te de amor por Mim e, em tudo o que a Mim respeite, guarda zelosamente a pobreza e a penúria de todas as coisas. Além disso, considera todos os homens dignos de consolo, como servos fiéis meus, melhores que tu e não tão ingratos como tu. E com o estímulo da caridade e urgência da compaixão, daquilo que de ti dependa, para que nada falte a ninguém, ajuda a todos com o teu trabalho, serviço e favor. Tudo o que tens considera como alheio, de forma a que não o possuas, ou que não sintas dor caso o percas. Considera que tudo o que tens te foi dado para o uso dos demais.

[1] Cf. 2 Cor 8, 9.

[2] Cf. Jo 1,11.

[3] Cf. Lc 2,7.

[4] “Quando terminar o tempo da sua purificação, para um filho ou para uma filha, [a mulher] apresentará ao sacerdote […] um cordeiro de um ano, como holocausto e uma pomba ou uma rola, como sacrifício pelo pecado. […] Se não tiver meios para oferecer um cordeiro, tomará duas rolas ou duas pombas, uma para o holocausto e outra para o sacrifício pelo pecado (Lev 12, 6-8). Cf. também Lc 2, 24.

[5] Cf. Mt 2, 13-15.

[6] Cf. Lc 6, 12.

[7] Cf. Mt 27,28.

[8] Cf. Jo 19, 28-29.

[9] Cf. Mt 27, 59-60.

XIX. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

 

Capítulo XVI

De que modo e em que coisas a esposa fiel deve
conformar-se a seu Esposo Jesus Cristo

A esposa fiel tem de amar tanto o seu esposo que nunca deseje estar sem Ele ou longe d’Ele. Em tudo deseja se conformar a seu esposo e é feliz quando se assemelha a Ele. Assim deves fazer também. Examina atentamente a Minha vida, os meus atos, as minhas virtudes, e aprende com eles, pois é o que amo e que me compraz em ti. Se queres ser a Minha esposa, ó alma, nada deves desejar tanto como Me agradares e conformares-te a Mim. Aonde que Eu vá, acompanha-Me; qualquer coisa que faça, esforça-te por a imitares; em qualquer coisa que tenha padecido, se a ocasião for propícia, alegra-te por te tornares conforme a Mim. Examina agora cada uma das Minhas virtudes, ou ao menos as principais, para estimular-te a imitá-las. Ao princípio, será árduo o labor de mortificar e extirpar tudo o que é contrário à Minha vida: os vícios, as más inclinações, os hábitos corruptos. Mas como te disse antes, com tenacidade e perseverança, conseguirás arrancar de raiz, como através de um leve sopro, o que poderias apenas apagar com uma lima de ferro.

XVIII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XV

Quão necessária é a discrição em todas as coisas;
como temos que fazer tudo de acordo com a discrição dos superiores;
com quanta discrição tem de ser governada toda a natureza e
como alguns, por falta de discrição, a destroem

Que a humildade e discrição dirijam e moderem todos os teus exercícios. Isto evitará que te condenes e te tornes inútil, e que não evites os melhores bens do espírito por outros exteriores, corporais ou menos nobres. Procura não prejudicar a caridade por te exercitares numa só virtude. Atende também a debilidade do teu corpo, ao esgotamento das tuas forças, e submete os teus projetos, afãs e exercícios à direção de alguém que seja temente a Deus, o do teu superior, deixando-os, diminuindo-os, aumentando-os ou moderando-os segundo o seu critério e vontade. Por isso, se o teu superior, que é o pastor da tua alma, atuar em Meu lugar e em Meu nome, te proibir de jejuar ou fazer qualquer outra coisa de sua vontade, desde que não seja pecado, obedece-o incondicionalmente, confiando em quem, por te conhecer, julga com retidão o que é nocivo ou necessário para a tua salvação. E se oito vezes ao dia te mandar comer, e tu lhe obedeceres, não Me ofendes. No entanto, que não diminua em ti o teu desejo de jejuar quando te seja permitido fazê-lo por tua própria vontade. E se comes por obediência, ao comer terás dupla recompensa; casos jejuasses, terias apenas recebido uma recompensa simples. Pois a vontade de jejuar e o fruto da boa vontade não se perdem, caso comas por obediência, enquanto que pela observância da obediência terás um duplo prémio: o da vontade e o da obediência. E o mesmo sucede em todas as coisas que se desejam de boa vontade, mas somente aquelas de que nos abstemos por obediência

Busca, ama, cumpre e promove, quando e onde possas, a Minha glória e a Minha graça. Não descuides nenhuma boa obra que possas fazer, mas antes esforça-te por progredir, crescer continuamente e aproveitar a vida do espírito. Mas no meio de todos estes esforços e desvelos, no meio das tuas boas obras, não fiques satisfeita nem te consoles a ti mesma como se tivesses, fosses ou pudesses fazer algo por teus próprios meios; fixa antes sempre os olhos na tua insignificância, atribuindo a Mim todo os bens.

Há quem não se conforme em suportar o que lhes imponho, mas antes se carregam com abstinências e penitências indiscretas, com as quais não só se tornam incapazes e débeis para Me obedecer e seguir o Meu caminho, e para afrontar a luta espiritual, mas também, fatigados e abatidos pela sua indiscrição, se vêm obrigados a interromper os exercícios que tinham empreendido para atender aos desejos da carne. Assim, pois, modera os teus exercícios e fatigas de acordo com as tuas forças, para que não te destruas a ti mesma ou te debilites em excesso.

Por este motivo, para que não te descuides o teu sustento, agrada-Me que cuides do teu corpo e restaures as tuas forças, não pelo desejo do prazer, mas, como te disse, para fortalecer a natureza e servires-Me nela. Deste modo, tornas-te num instrumento da Minha graça, estando apta para o Meu beneplácito e para o Meu serviço. No entanto, está sempre disposta a aceitar a abundância e a penúria, a saúde e a doença, segundo a Minha vontade.

Contudo, desde que a tua enfermidade não te obrigue, por discrição, a cuidar do teu corpo, vencida pela impaciência, a tibieza ou o amor próprio, não procures subterfúgios para te escapares ou te livrares das adversidades e das provas que te envio, mas antes abraça-as com alegria, suportando-as com paciência, sem queixas, sofrendo-as de ânimo constante e esperando-Me. Deixa tudo em minhas mãos para que a Minha graça opere algum bem por meio da tribulação que se tenha abatido em ti. Esta é bastante melhor e mais frutífera que aquela que te impões a ti mesma pela tua própria vontade. Quero te assegurar, filha Minha, que jamais permitirei que caia sobre ti tribulação alguma que não te trague algum bem e que te renove o espírito, sempre que tenhas confiança e te abandones em Mim, suportando-a em silêncio e esperando-Me pacientemente. Pois venho continuamente, não estando nunca longe de ti, mas antes estou muito próximo, sempre a teu lado e inclinado para ti. Por isso, procura não recusar o que te envio. Eu te dirigirei; confia na Minha direção e providência, e apoia-te em Mim e não na tua própria vontade. Deixa-te crucificar por Mim e pelos teus semelhantes; porém, não castigues em ti a carne, mas apenas os vícios e suporta com paciência tudo o que te acontece.

XVII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XIV

Com quanta devoção e reverência deve-se receber
o Sacramento da Eucaristia; da presença real de Cristo nela;
como os eleitos de Deus são provados acerca de isto

Quando te aproximares para receber o Sacramento da Eucaristia, não tenhas receio se não sentires uma devoção sensível, ainda que sejas assediada por tentações horríveis, sejas elas quais forem. A devoção sensível não é necessária, mas apenas a racional, a qual te proporciona uma fé clara acerca deste sacramento. Deste modo, apesar dos pensamentos blasfemos que acossam a tua mente, poderás mostrar a reverência devida, incluindo contra o que o teu coração sente, e encontrarás a tua vontade pronta a sujeitar-se a Mim, conforme à Minha graça. Filha minha, se tiveres uma devoção racional, pela qual o teu coração se arrepende dos seus pecados e se mostra firmemente disposto a não voltar a pecar e submeter-se em tudo à Minha vontade, então aproxima-te com confiança deste Sacramento, aproxima-te de Mim sem medo. Pois a devoção—seja racional ou sensível—, a virtude e a graça não se obtêm fugindo de Mim, mas aproximando-te de Mim.

Quanto mais triste e abatida te encontrares, incluindo no momento em que te dispões a confessar-te e a comungar, tanto maior deverá ser o teu empenho em acercares-te de Mim. Basta ter, como te tinha dito antes, a consciência limpa e uma boa vontade para te tornares mais forte, mais constante e mais fervorosa.

Não te inquietes se no instante da comunhão te invade um tal ataque de terror ou espanto que sejas incapaz de tomar a Hóstia e engoli-la, ou se sentes uma amargura como fel; não são estes os sinais seguros que te aproximastes do Sacramento indignamente. São a pusilanimidade e o medo arraigado em ti que dão origem a esta sugestão, que é muito forte nas mulheres. Sentes isso como se fosse real, mas que é apenas a consequência do teu medo. Porém, se afastares de ti essa pusilanimidade e essa agitação fantasiosa, desapareceriam a dificuldade e a opressão que te oprimem.

Eu poderia te libertar, sem dúvida, de todas estas tribulações, mas permito-as em ti e nalguns dos meus eleitos, porque sei que não há melhor maneira para os guardar da soberba—que é um vício muito comum nas mulheres—e mantê-los em humildade. Tem, pois, um ânimo forte e constante, afasta toda a pusilanimidade e as insinuações sibilinas da tua imaginação e, com a consciência tranquila e elevada a Mim, deseja-Me no Sacramento, procura-Me e recebe-Me como o amante mais bondoso, mais clemente, o mais misericordioso e o mais fiel; como protetor, redentor, libertador e salvador teu.

Para que em ti aumentem a veneração, o amor e o desejo, tem consciência que o Sacramento é o Meu corpo que te é dado a comer sob a forma de pão. Este é o Meu próprio corpo, o mesmo que possuo glorificado no Céu, não outro semelhante, mas o mesmo. E como não tenho um corpo sem sangue e sem alma, é necessário que neste corpo estejam a alma, o sangue, as graças e as minhas virtudes. E como a todas elas está unido o Verbo, isto é, uma Pessoa da Trindade, inseparável das outras duas, então podes concluir que toda a Trindade está presente neste Sacramento, não menos verdadeiramente que no Céu, ainda que escondida sob a espécie sacramental. O mesmo pensamento é verdade para o Sacramento do sangue.

Vê, pois, com quanto amor e devoção deves receber-Me neste Sacramento. Nele tens a verdadeira salvação e me possuis perfeitamente, fonte da tua felicidade; e Eu, para que um excessiva reverência ou o temor não te afastassem de Mim, ordenei-te que aproximasses e me tomasses em memória de Mim.[1] Eu disse que as minhas delícias é estar com os Homens[2], que a Minha alegria é lhes fazer o bem, e que chamo à porta do vosso coração e, entrando, cearei convosco[3] e vos fortalecerei, dando a Mim mesmo como alimento. Porque faço todas estas coisas se não para que tenhais esperança, confiança e desejo de vos aproximarem de Mim? Não quero que vos priveis do Sacramento tão rico e necessário, cujo fruto é infinito, por coisas que sentis contra a vossa vontade e, portanto, sem pecado.[4]

[1] – Cf. Lc 22, 19.

[2] – Prov. 8, 31.

[3] – Cf. Ap 3, 20.

[4] – Cf. Santo Agostinho, Da Verdadeira religião, PL 34 123.

XVI. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XIII

Finalidade da devoção sensível;
porque esta não torna ninguém mais santo;
qual é a devoção verdadeira e louvável.

Se não tens devoção sensível, não te entristeças nem te deixes abater; pelo contrário, persevera firme e, ainda que em aridez, faz tudo o que sabes e possas por amor a Mim.

Há muitas pessoas que pela sua facilidade em derramar lágrimas creem ter devoção ou doçura espiritual; porém, este tipo de devoção não as torna mais santas; além disso, tal pode acontecer com alguém que esteja em pecado mortal, pois tal não é mais que uma brandura natural do coração, como é frequente encontrar em homens e mulheres de temperamento sentimental. Por isso, não confies na devoção que não santifica. Vistes homens a chorar e a afligirem-se pela morte de um grande guerreiro após lerem sobre as suas nobres e valorosas façanhas, apesar de ter sido um pagão. Choram também quando leem um relato onde se narra a separação e a morte dos amantes. Assim sendo, não é de estranhar que chorem quando contemplam, no meu culto, pelo que sofri por eles na Minha paixão ou se comovam pela Minha glória. No entanto, esse pranto, que brota de uma emoção natural do coração, de nada serve aos que choram se eles não fizerem a Minha vontade.

Se te encontras sem esta devoção, com o coração duro e estéril, procura adquirir outra devoção mais autêntica, a qual consiste na vontade pronta a dedicar-se, de acordo com a razão, a tudo aquilo que serve ao Meu culto, glória e beneplácito. No que respeita à falta de devoção sensível, investiga a sua causa; talvez tenhas perdido essa devoção por desleixo, inconstância ou afeto desordenado, ou por uma preocupação excessiva pelas coisas terrenas, ou devido à soberba, à complacência ou a qualquer outro vício. Em todos estes casos, há mais razões para chorar pela causa da esterilidade do que pela devoção perdida. Procura permanecer-te unida a Mim, com boa vontade e com o entendimento a nu, sem descuidar o culto que me honra, nem o bem que deves fazer; suporta pacientemente o teu abandono e, confiada em Mim, aceita a Minha vontade. E ainda que alguma vez irrompa de repente, na sensualidade ou no homem exterior, algum movimento desordenado; ainda que sintas nascer em ti a perturbação ou a angústia; ainda que te ocupem sentimentos de pesar, resistência, ou tentações de murmuração, cuida-te ao menos que o homem interior conserve a paz e permaneça sujeito a Mim, amando e aceitando a Minha vontade.

XV. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

 

Capítulo XII

Porque Deus quis que Sua Mãe fosse venerada pelos homens;
como Ele A constituiu depositária de toda a graça;
quão severamente Ele castiga a desonra e o desapreço por Ela.

Venera a Minha Mãe com uma devoção especial, saudando-a a miúde com piedosas orações e imitando o ardor da sua vida e as suas virtudes. Eu a dei ao mundo como modelo de santidade, inocência e pureza, como singular advogada e eficacíssima protetora, para que fosse um refúgio de imunidade para todos os atribulados e aflitos. Que ninguém tenha medo d’Ela; que ninguém duvide, que ninguém hesite em pedir o seu auxílio. Pois Eu a cobri de tanta doçura, bondade e misericórdia, de tanta generosidade e clemência, que a ninguém pode mandar embora, nem dizer que não. Para todos tem aberto o regaço da sua piedade e jamais permitirá que alguém se retire triste e desconsolado da sua presença[1].

Eu também a fiz formosa, amável e maravilhosamente doce e suave, incluindo para os pecadores desesperados e obstinados. Por isso, ela é para mim a publicidade mais eficaz, o isco no anzol, para conquistar as almas, sobretudo as destes últimos.

Aos grandes pecadores, que rompem todas as redes e que por nenhum outro caminho posso atraí-los a Mim, os ganho por meio da veneração e devoção à Minha Mãe. Eu a torno muito doce aos seus corações e os instigo — pois são de coração duro — a que a honrem por meio de piedosos atos de veneração, devoção, confiança e invocação, para os tornar aptos e dignos da Minha graça e de uma maior iluminação, até que se corrijam e cheguem a uma vida mais santa.

Assim, pois, encomenda-te a Ela todos os dias para que por sua intercessão recebas de Mim uma maior graça e um trato mais íntimo. Eu lhe confiei todo o tesouro da Minha graça e da Minha misericórdia quando a encomendei a todos os Meus filhos, especialmente os pecadores por quem naquele momento sofria, na pessoa de João[2].  Ela não ignorou isto. Por isso, Ela é tão diligente e tão zelosa no cumprimento do seu ofício, não permitindo, no que dela dependa, que se perca algum daqueles que lhe foram confiados, especialmente aqueles que a invocam; pelo contrário, Ela os faz voltar a Mim, reconciliando-os coMigo.

Não crês, filha, que Eu escolhi a pessoa mais idónea para esta função? Acaso poderia ter Eu encontrado alguém mais apto para este ofício? Os tristes, os desolados, os que estão sobrecarregados com o peso dos seus pecados quereriam eles outro intercessor perante Mim, que Me fale em sua defesa com maior fidelidade e que os acolha com mais bondade que esta mulher, que esta virgem humilde, misericordiosa, serena, amorosa, modelo de piedade e doçura, a mais poderosa e grata a Mim, como Mãe Minha, isto é, daqu’Ele que deve ser aplacado? Que erro! Como se obstinam para a sua perdição aqueles que despreciam esta tesoureira das Minhas graças e se negam a reconhecê-la como advogada perante Mim, como Eu o sou perante o Pai Celeste! Não há um caminho mais curto para o Inferno que manter afastada de si aquela por cuja intercessão tantas vezes Eu perdoei o mundo, tantas vezes Eu adiei a Minha ira. Pois quando não houver ninguém que medeie a favor deles, nem detenha a Minha mão estendida para o castigo, quem impedirá que os fira? Que castigo há maior que este? Castigar neste mundo como filhos, ou antes os entregar à condenação para que ficando cegos não vejam para onde vão, até que se sintam presos e envoltos nas trevas e em intermináveis sofrimentos?

Te faço estas confidências como Minha esposa, para que nisto e em todas as coisas não te afastes dos ensinamentos da Minha Igreja, inspirada pelo Espírito Santo, nem permitas que te enganem aqueles que foram seduzidos pelo espírito maligno e que se chamam “evangélicos”.

[1]Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência, e reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado… (de uma antiga oração de S. Bernardo).

[2] Jo 19, 26.

XIV. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

Capítulo XI

Evita a peculiaridade.

Na tua conversação com os demais, não mostres um rosto triste ou tenso, mas sim sereno; assim não te converterás num fardo para o próximo.

Evita a peculiaridade em cerimónias, bem como em práticas e sinais de devoção desnecessários aos olhos dos outros. Porém, no que respeita ao que é necessário à tua alma, à exigência do teu estado e profissão cristã, ao que necessitas para adquirir as virtudes e evitar o pecado, nisso tudo não temas em ser peculiar. Se vês que os outros se descuidam da sua própria salvação, tu sê peculiar e não faças como eles. Além disso, pela tua salvação, para a aquisição das virtudes e aceitação do meu beneplácito, terás que suportar humilde e pacientemente enganos e perseguições.

XIII. Carta de Jesus Cristo à Alma Devota

 

Capítulo X

Precavem-te contra a inveja.

Sê especialmente diligente a evitar o pecado da inveja. Pela inveja deixas de ser amável com o próximo, o teu apreço por ele diminui, te consideras superior a ele, e te afliges e entristeces quando, pelos seus bens, honras, louvores e proveitos, ele é o preferido, em vez de ti.

Para vencer esta tentação, filha Minha, sê com ele mais afável e solícita, nunca fales dele na sua ausência, nem escutes o que os outros dizem. Que as tuas palavras, obras e gestos jamais tenham o odor da inveja ou nela tenham a sua origem.