Capítulo XIX
Em que consiste a verdadeira humildade, e como se obtém;
quais são as causas da humildade e quão necessária ela é
Para obter a humildade, contempla a Minha majestade, omnipotência, sabedoria e bondade. Apenas Eu sou imortal imenso, infinito, inabarcável, inefável, incompreensível. De Mim, todas as criaturas recebem a sua existência. Com um gesto da Minha vontade, posso reduzi-las a nada com toda a máquina do universo, e de novo, com uma ordem Minha, restituiria à existência cada uma delas. Na Minha grandeza, não por necessidade ou indigência, mas antes por Meu amor e liberalidade, as criei criaturas racionais à Minha imagem, para cobri-las com a Minha bondade e dar-lhes a Minha beatitude. Por vós, que afastastes da Minha graça pelo pecado e tornastes indignos da vida eterna e réus do fogo do Inferno, encarnei e durante trinta anos padeci fome, sede, frio, calor, fatigas, penas, perseguições, desprezo, insultos, açoites, feridas, dor e, por fim, a cruz e a morte, tudo isto para vos resgatar da morte eterna.
Filha Minha, vivi na terra, não como Deus, não como um poderoso, não como um triunfador; vivi como o mais pobre, o mais vil, o último e o mais desprezível de todos os homens, exposto ao sofrimento e aos insultos, até que atingi o fim dos Meus dias com a morte mais desonrosa, da que o mundo me achou digno, como se a Minha vida e a Minha doutrina fossem para todos — tal era a opinião do mundo — uma forma de peste que tinha de ser apagada da memória dos homens; e tudo isso na presença de uma multidão que proferia insultos contra Mim.
Como a corça suspira pelas águas correntes[1], filha Minha, assim Eu corri para a morte, ébrio de amor por ti. Não Me poupei a nenhuma fadiga, dor ou pena. A nada Me poupei que fosse conveniente para ti, pois eras para Mim tão nobre, tão preciosa, que por ti ardia de desejo de entregar a Minha alma à morte e oferecer o Meu corpo às feridas. Além disso, como tinha uma sede ardente da tua salvação, quis derramar o Meu sangue até à última gota.
Que Me dás em troca disto, filha? Que Me ofereces em troca de tanto amor? Não és tu a mesma ingrata que Me despreza há tantos anos? Que tem aversão à Minha Palavra, que sente fastio de cantar os Meus louvores, que transgride os Meus mandamentos? Sendo tu tão arrogante para Mim, tão imunda e vil, tão suja e cheia de abominações, como te permites expulsar-Me do teu lado, desprezando as Minhas inspirações, prostituindo-te com as criaturas, e abusando dos Meus dons? Depois de te libertar tantas vezes dos teus pecados gravíssimos e até mesmo da condenação eterna, na qual justamente terias ardido há já muito tempo se a Minha misericórdia não tivesse intervindo; depois de te preservar ainda de tantos delitos e do abismo do pecado, porque Me desprezas e abandonas? Porque o fazes, sabendo que sem Mim não eras se não vil, miserável, um nada? Como te atreves a levantar o rosto para Mim, a quem tantas vezes ofendestes, e durante tanto tempo desprezastes? Digo-te isto para que te conheças a ti mesma.
Considera o quão vil e imundo está o teu corpo, quão suja está a tua alma e impuro o teu coração; enfim, quão indignas são as tuas obras, malvados os teus pensamentos, imundos e impuros os teus afetos. No entanto, ainda assim te suporto, ainda derramo sobre ti os Meus bens, ainda te amo. Porém, durante quanto tempo? Até quando aguentarei? Quando te conhecerás a ti mesma? Quanto mais tempo demorarás a voltar a Mim? Porque não te humilhas? Não vês que não posso manter por mais tempo a Minha misericórdia? Não vês onde te chamei, e onde te estabeleci? Onde estão os teus frutos? Não te dás conta de como dissimulo todas as tuas maldades e ingratidões? Porém, não te digo isto em tom de censura, mas antes como se morresse de amor por ti, como se tivesse falta de ti — apesar de nada precisar —, como se não pudesse viver sem ti. Apenas pela Minha bondade e Meu amor te convido a que correspondas com amor ao Meu amor. Deste modo, amando, sentirás o que és tu e o que Eu sou, o quanto Eu fiz por ti e com quanta ingratidão me tens pago.
Considera, ainda, que no Inferno há um sem número de almas que teriam merecido menos a condenação que tu se não tivesses sido prevenida pela Minha graça, pois se aquelas almas tivessem recebido uma graça igual à tua, te venceriam em gratidão. Se tornasses consciente da Minha majestade e da tua baixeza, se medisses a soberba com que exibes a tua baixeza e a humildade que há na Minha majestade — pois por humildade Me rebaixei por amor a ti —, seria-te menos penoso ser humilde. Se refletisses, insisto, em que estado de pobreza, abjeção e desprezo, Eu, sendo tão poderoso, rico e excelso, imenso em majestade e infinito em bondade, te servi, pobre e vil homenzinho, com tanto amor, fidelidade e desejo, nasceria no teu coração tal reverência por Mim e tal veneração à Minha majestade que não poderias expressar por palavras.
Além disso, nasceria em ti um desejo insaciável e uma sede ardente de honrar-Me, venerar-Me, exaltar-Me e, ao mesmo tempo, de te humilhares, te desprezares, e por amor a Mim, de te submeteres a todas as criaturas, suportando os insultos, o desprezo e as injúrias de todos. Por muito que te humilhasses, por muito que suportasses, estimarias em nada o teu sofrimento, devido à sede e ao desejo que terias de te humilhar e de Me exaltar; mais ainda, amarias de forma especial aqueles que mais te oprimem e desprezam, porque ao humilhar-te serviriam o teu desejo de humildade.
Filha Minha, se ainda não tens em ti estes sentimentos, reconhece quanta é a tua ingratidão perante Mim e quão longe estás da verdadeira humildade, que é uma profunda inclinação do coração ante a Minha divina majestade, a que segue o desprezo de si mesmo e o desejo de ser considerado como nada e de ser desprezado por todos.
Te exorto de novo, filha, a que fixes os teus olhos na Minha humildade e a tomes como modelo. Vê como o mundo desprezou, caluniou e reprovou a Minha vida e a Minha doutrina; como menosprezou as Minhas palavras; quantas injúrias, zombarias, desprezos e escárnios tive que suportar, como se fosse um malfeitor, por parte dos mais vis entre os homens e a favor das mais vis e ingratas criaturas; escarnecido e tratado como o opróbrio dos homens, não desprezei ninguém, não arranjei desculpas, não Me defendi. Vê também tu que eras digna de ser desprezada, pela tua dureza, negligência, pecado, ingratidão, inconstância, vileza e insignificância. Geme, chora, acusa-te antes com lágrimas constantes.
Todo o que te ocorra converte-o em humildade. Não te compadeças de ti mesma; pelo contrário, admira-te que possas agradar a alguém que te conheça bem. Dirige constantemente os olhos do teu coração ao teu não ser e ao teu não ter; considera que nada és, e o que deverias ser, não és; igualmente, que não tens e que não podes, quantas coisas te faltam e que longe estás da verdadeira e perfeita caridade e da perfeição dos santos, dos quais existe um abismo que te separa deles; considera também que nada tens de bom, mas antes que é de Mim que recebes todos os bens.
Além disso, isto é tudo o que podes esperar de ti: pecar, fazer o mal, desfalecer, passar necessidades, destruir e arruinar todos os Meus dons e os Meus bens. Pois há uma coisa certa: se eu abandonasse a natureza humana na sua liberdade e inclinações, nada de bom seria de esperar dela. E assim é, pois apesar das Minhas advertências e proibições, a mente humana se precipita para o mal. E o que é a natureza humana? Nada. Nada tem de si e ao nada tende. Se tivesses sempre presente este pensamento, bem te ajudaria a adquirires a virtude da humildade.
Apesar disso, deves ter uma humildade não menor por esses defeitos ocultos e desconhecidos para ti, que muitas vezes são graves, ainda que não os vejas. Por causa deles, atira-te aos pés da Minha misericórdia e chora, com o coração, a debilidade e a irrefreável inclinação ao pecado que há em ti. E não tenhas outro sentimento sobre ti a não ser o facto de estares coberta de pecado, sendo cega e a mais ingrata de todas as criaturas.
[1] – Sl 41, 2.