Jesus Cristo, Salvador de todos os homens, Rei do céu e da terra, sempre disposto a acolher nos Seus paternais braços aqueles que suspiram pela Sua graça e verdade, à Sua esposa, a alma que O ama, pela qual, querendo fazê-la Sua, Se entregou à morte: FELICIDADE VERDADEIRA.
Amada filha, Eu te falo frequentemente ao coração por meio de secretas inspirações, mas tu te mostras surdas a elas. Por este motivo, como geralmente a tua reposta às minhas palavras é de uma fria indiferença, o grande amor que sinto por ti Me obriga a escrever esta carta para que, ao menos lendo-a, recebas a mensagem que não te dignas a escutar. Pois o mesmo amor que noutro tempo me levou a entregar-me totalmente por ti não me permite agora omitir nada que contribua para a tua salvação. E embora te mostres completamente indiferente ao meu amor—pois o teu coração está inclinado ao exterior, a tudo o que é caduco e passageiro, e excessivamente apegado às criaturas—, Eu, porém, não posso deixar de te manifestar o Meu amor, amor muito maior que o de todos os pais do mundo juntos. Eu não me limito a oferecer-te somente a Minha graça e a Minha amizade, mas desejo ter-te por esposa e prometo cobrir-te, todos os dias, caso o queiras, dos bens mais preciosos.
Porém, tu, Minha filha, não prestas atenção às Minhas visitas e fechas os teus ouvidos às Minhas inspirações interiores, pois vives numa constante extroversão. Este é o motivo por que não sentes o mal que fazes e sejas alheia a ti mesma. Por isso, quanto menos choras o teu estado, com mais veemência deves ser chorada.
Que posso dizer-te, filha? Tu deverias ser a mestra das almas e a tua vida um exemplo para os errantes; o aroma da tua virtude devia ser medicina para os enfermos; as tuas palavras, como fogo devorador, deveriam inflamar os corações dos que te escutam. Em vez disso, tu, definhando no meio de banalidades, ocupada com uma multitude de coisas e apanhada numa rede de paixões nocivas, tens o coração disperso e inundado de imagens alheias. O amor próprio, no entanto, tem profundas raízes em ti; porém, recorda bem isto: se não morreres para ele, nunca entrarás no meu tálamo. Vês? Tu mesma precisas de aprender o que deverias ter ensinado aos outros.
Não tomes as minhas palavras como um sinal de rejeição. Tudo o que pretendo ao te escrever é fazer-te ver o quanto tu te afastaste de Mim e a que perigos e males te expões. Esta carta não é apenas um convite a que regresses, mas também um aguilhão para a tua consciência.
Onde quer que estejas, faças o que faças, te ocultes onde queiras, os Meus olhos, que escutam e conhecem todos os projectos, todos os movimentos e todas as intenções do teu coração, não se apartam de ti, e se descubro alguma infidelidade em relação a Mim, que tão fiel te tenho sido, tenho todo o direito de me sentir ferido. Como não me deveria sentir assim, se por tua salvação sofri amorosa e pacientemente tantas injúrias, insultos, penas e tormentos? Diz-me, filha Minha, quem suportou por um amigo, não apenas cruéis tormentos, mas tantas incontáveis e profundas humilhações que suportei por ti? Quando ainda me tinhas inimizade e nada de bom tinhas feito; quando ainda não me amavas e não me conhecias; mais ainda, quando ainda nem sequer existias, Eu já te amava e sofria por ti penas sem limite. Diz-me: Porque então tu Me rejeitas? Porque buscas a paz fora de Mim? Eras débil e inconstante. Se te abandono, quem se interessaria por ti? Quem cuidará de ti? Minha filha, porque te empenhas em te destruir?
Procura em toda a parte, fixa o teu espírito no objecto que queiras; Eu te asseguro: não encontrarás a paz, nem gozo, nem descanso, senão em Mim. Os teus sentidos te confundem, os teus amantes são-te infiéis e até tu te enganas a ti própria. Desprezas o antídoto e amas o veneno. Ai, minha filha, esposa minha! Bem sei que tantas vezes a beleza artificial e a vã fascinação deste mundo, com o seu atractivo amargo—pois te prometem um amor e fidelidade fingidos—turvam os teus sentidos e captam os teus afectos. Também não me escapa a facilidade com que eles se impõem e te afastam de Mim.
Amada filha, recorda que és minha esposa e que o teu coração me pertence por inteiro e que não deverias ter outro desejo a não ser exibir a tua formusura perante o teu Esposo, comprazeres-te e deixares-te amar por Ele. Eu estou aqui, desejando-te e esperando-te. Volve o teu coração e vira as tuas costas à vaidade, transpira devoção e exercita-te na humildade para que eu te julgue digna dos meus íntimos colóquios e te visite com as mais puras delícias.
Não te peço que demonstres o teu amor com uma multitude de obras. Não se trata disso. Apenas pretendo de ti o que um esposo apaixonado espera da sua esposa: um coração casto, fiel e puro, que me busque a Mim e não a si mesmo. Eu desejo um amor sincero, uma devoção fervorosa, ou seja, uma vontade pronta para Me servir livremente, e uma intenção sincera e pura de Me agradar em todas as coisas. Eu desejo um coração puro e livre de todo o amor alheio. E se Me desses essa oportunidade, encher-te-ia de graças e consolos maiores dos que tu te atreverias a pedir ou poderias imaginar. Eu sou um Esposo tímido que não Se atreve a aproximar-Se de ti quando te encontra ocupada com assuntos alheios e inúteis. Por isso, é preciso que estejas só.
Vê como Me apresento diante de ti: débil, como um despojo humano, estou à tua porta e te chamo [1]. Tremo de frio e de medo, como pouco antes de ser libertado da coluna a que me ataram e na qual, por amor a ti, fui flagelado e ferido sem compaixão. E, ao adoptar esta atitude, não tenho outra intenção que não seja gravar as Minhas chagas no teu coração, fundir-Me a ti num abraço de amor e, finalmente, aquecer-te no fogo das Minhas feridas ainda ardentes de amor por ti.
Oh, se Me reconhecesses como Esposo, se de verdade Me amasses! Não abririas de imediato, ansiosa por me acolheres, as portas do teu coração? Não cobririas a Minha nudez com o melhor dos vestidos? Não Me darias calor, qual verme a tiritar de frio? Se o fizesses, tornar-te-ias digna de experimentar de novo a ternura dos Meus doces abraços e o sabor puríssimo do Meu espírito.
Como gostaria que tivesses uma firme e verdadeira confiança em Mim, e que desejasses estar comigo como Eu desejo estar contigo! As minhas delícias é estar com os filhos dos homens [2]. Deste modo, experimentarias como se aumenta em ti a fortaleza de espírito e a autêntica doçura da mente. Esta confiança, no entanto, só pode subsistir através da desconfiança de ti mesma, e ambas—a confiança em Mim e a desconfiança de ti—nascem da mais preciosa de todas as pérolas: a pobreza de espírito. Porém, sei o que te mantém afastada deste precioso bem.
O teu coração, corrompido pelo amor a este mundo, está tão frio que despreza o alimento da alma: o Verbo de Deus. E se queres avançar na virtude, se queres fortalecer o teu espírito, deverias comer este alimento, digeri-lO e fazê-lO parte de ti. Mas como estás saciada pelo frio manjar deste mundo, das suas conversas e suas vaidades, como terás fome da Minha justiça? Em tais condições, diz-Me: como poderás sentir atraída por algo que respire devoção e piedade?
A simplicidade é para ti um incómodo e a santa meditação, uma perda de tempo. Mas deves saber que uma alma entorpecida pela sua fixação no que é terreno não pode elevar-se a Mim, pois por mais estímulos que lhe sejam dados, voltará imediatamente aos seus gostos terrenos. E que ganhas com isso? Que as vigílias te sejam amargas e o sono inquieto. Como não poderia ser assim para quem tem um coração disperso, um espírito inconstante, uma mente errante e um afecto profundamente enraizado no que é terreno?
E, entretanto, filha, queixas-te que, sem o Meu consolo, te sentes árida e estéril. Se isso se passa contigo, não é por negligência tua, mas por disposição Minha, como aconteceu a muitos dos Meus amigos. Não te deves inquietar caso não sintas a minha graça sensível. Porém, agora, por causa da tua preguiça e negligência, definhas numa aridez estéril. Se desejas gozar da Minha presença e do Meu consolo, se desejas unir-te a Mim, é preciso que deixes de buscar a tua felicidade fora de mim, que te vaques apenas a Mim[3], sempre atenta a discernir o que Me agrada e qual é a Minha vontade perfeita[4]. Ama-a com todo o teu coração e com todas as tuas forças, e deseja que ela se cumpra em todas as criaturas. Apenas procures fazer a minha vontade e unir-te a Mim. Se o fizeres, sentirás mais frequentemente a minha presença, e ela, por vezes, te fará experimentar a ebriedade espiritual, a alegria da boa consciência, a paz do coração e o dulcíssimo sabor da contemplação.
Se entrasses uma só vez na Minha adega! Como desejarias voltar a ela para saciar a tua sede! Porém, ninguém pode entrar nela a não ser aquele para quem Eu sou o objecto mais desejado, mais amado, mais valioso; aquele para quem Eu sou tudo em todas as coisas[5]; aquele que não sente nenhum consolo fora de Mim e que, ao mesmo tempo, se julga indigno do meu consolo; mais ainda, aquele que não crê que tenha qualquer direito a receber um tratamento favorável e se mostra constante, tanto na adversidade, como na consolação; enfim, aquele para quem, fora de Mim, todo o gozo é tormento e que, por isso, põe nas Minhas mãos o seu espírito e só em Mim descansa.
Estes, filha minha, são os Meus verdadeiros amigos. Se soubesses como me agrada bater à porta dos seus corações! Assim que me a abrem, Eu entro e me apresento a eles alegremente e lhes revelo os Meus segredos. É frequente Eu Me manifestar a eles de diversas formas, conforme seja necessário para estimular a sua devoção e amor.
Às vezes apresento-Me em seus corações completamente coberto de chagas, nu, ferido em todos os Meus membros e, para maior consolo do seu amor, permito-lhes tocarem nas Minhas feridas, lavando-as, enxugando-as, beijando-as, e aliviando-as com o seu calor. Esta devoção parece ridícula para os amigos deste mundo, porque não a conhecem; no entanto, ela Me agrada de sobremaneira e para os Meus amigos é muito proveitosa, porque então Me esqueço dos pecados da Minha esposa e os padecimentos que sofri para redimi-la, e aplico o Meu espírito a consolá-la e a iluminá-la.
Apesar de nada necessitar, desejo intensamente descobrir que a fidelidade da Minha esposa é tão grande que Me ama mais que as minhas criaturas, incluindo mais que a si mesma. Porém, tal como a fidelidade Me é agradável, a ingratidão é-Me odiosa, sendo a pior de todas as coisas. A ingratidão, até onde seja possível, renova as dores da minha Paixão e a angústia da Minha alma, provocando em Mim o sentimento da inutilidade de todos os Meus trabalhos, feitos com imenso amor. Por isso, em todas as tuas tribulações, sejam exteriores ou interiores, não recorras a pequenos consolos humanos, mas sim refugia-te em Mim. Não demonstres a tua dor aos homens, mas apenas a Mim, pois que podem eles oferecer-te senão palavras? Se tens um director espiritual ou confessor, longe de Mim proibi-lo, recomendo-te que exponhas todos os segredos do teu coração a ele e te deixes guiar pelo seu conselho; porém, não procures consolo exterior nisso, vencida pela paixão da impaciência, nem tentes fingi-lo perante os outros. Diz-Me em silêncio as tuas queixas que desejas expressar perante os homens; tem confiança e deixa tudo nas Minhas mãos; sê livre e sem preocupações, confia em Mim e encontrarás a verdadeira paz—que não se encontra onde a procuras e onde crês—e o verdadeiro consolo. Deste modo conformarás a tua vontade à Minha.
Ai, minha filha! Se em todas as situações difíceis da vida te deixasses instruir pela experiência e te acostumasses a dirigir os teus olhos apenas para Mim, a refugiar-te em Mim, a esperar em Mim pacientemente, a apoiar-te em Mim e a compreender, ao mesmo tempo, que te envio essas adversidades com um coração de Pai que ama o seu filho e que quer para ele o melhor, aceitarias confiadamente todas as tribulações, sabendo que procedem das minhas mãos paternais, e as preferirias a toda a alegria, incluindo a todo o consolo espiritual. E ainda que a alma não tirasse outro proveito que não seja o sentir que a Minha vontade se cumpre nela, bastaria esse sentimento para fortalecê-la e a encheria de gozo. À alma fiel é sempre mais consolador o cumprimento da Minha vontade, que o seu próprio interesse, ainda que a minha vontade jamais se realize se não para o maior proveito da alma.
Se queres guardar a paz do coração no meio da adversidade, ser-te-á uma grande ajuda ter sempre ante os teus olhos os padecimentos da Minha vida terrena, e conservar viva a sua recordação em teu interior. Se levasses esta recordação gravada em ti, todo o amargo tornar-se-ia doce. Por isso, medita na minha paixão e pede-Me com insistência e grandes gemidos que as feridas e a memória da Minha paixão se gravem no teu coração tão poderosa e eficazmente, que sempre que possas contemplar-Me cravado na cruz e identificares-te com a Minha dor: e que esta imagem te expulse do teu coração todas as outras.
Se com esta prática recuperares o teu olhar interior; se contemplares dentro de ti os padecimentos da minha crucifixão; se coberto de opróbrio e amargura me ouves gritar Elí, Elí, e vês que Meu Pai não me responde, então inflamada pela virtude da Minha paixão, conceberás o desejo de imitar-Me, sofrer por Mim e, privada de todo o consolo, servir-Me no desprezo e abandono. Queres saber quais são os Meus amigos mais fiéis, os Meus eleitos? Aqueles que Me servem com esse espírito de desprendimento, unindo-se a Mim por pura e simples caridade e perseveram na fidelidade com o único desejo de agradar-Me e que a Minha vontade se cumpra neles plenamente. E ainda que às vezes pareça que estejam no meio da mais absoluta aridez, assaltados por violentas tentações, inclusive desprezados e abandonados por Mim, é, no entanto, precisamente nessa altura que são verdadeiramente Meus, porque lutam por Mim sem receber salário, por puro amor, e não retrocedem ainda que os golpeie.
Porém, nem sempre os deixo neste abandono. E é pelo facto deles se terem despojados de seus afectos, por terem renunciado por Mim a todos os seus desejos e se terem renunciado por completo a si mesmos para entregarem-se a Mim, submetendo-se ao meu beneplácito, Eu não posso deixar de derramar nas suas almas e enchê-los da Minha presença, cuidando-os e infundindo-os com o meu consolo, o qual é cem vezes melhor, mais puro e mais suave que o consolo deste mundo, que eles desprezaram por amor a Mim. Isto—como te disse várias vezes e não me canso de recordar—não pode ser percebido por aqueles que buscam e recebem fora de Mim outros consolos distintos dos Meus. O Meu consolo é muito delicado e não se concede a quem admite outros. O Meu consolo é, de igual forma, puríssimo e, por isso, não pode misturar-se com os consolos que procuram as criaturas.
No entanto, porque te repito tantas vezes a mesma ideia? Para que sejas mais prudente, mais vigilante, mais circunspecta; para que não te deixes seduzir pelos corruptos prazeres terrenos; para que não te esqueças de Mim. Eu, porém, não posso esquecer-Me de ti, apesar de não ser Eu que necessite de ti, mas seres tu que precisas de Mim.
Desejo que estejas comigo e que desfrutes na minha companhia a felicidade plena. Porque não o faço—perguntar-Me-ias—se está em Meu alcance conceder-te essa graça para sempre? Respondo-te que é para teu próprio bem, para que cresças em virtude e em méritos, para maior proveito da tua alma e para que te tornes digna de uma glória maior. Com a ajuda da Minha graça, todas as ocasiões são oportunidades para crescer e enriquecer-te de méritos.
Que cegos e dignos de compaixão são aqueles que não empregam o tempo tão precioso da graça para honra minha e seu proveito, desperdiçando a sua vida e agravando a sua própria condenação! Se soubesses o quanto tu poderias crescer no espírito e quantos méritos poderias acumular a qualquer hora com a ajuda da minha graça! Se soubesses quão precioso é o tempo e quão condenável é o seu desperdício, estou seguro que o empregarias bem melhor, evitando que ele passe em vão sem qualquer fruto. Cada novo dia, até ao pôr-do-sol, experimentarias um gozo renovado perante a oportunidade que te é dada para Me prestares culto.
Assim, pensa a todo o momento e diz a ti mesma: «O Senhor, no Seu amor por mim, me concedeu esta hora, este momento. Prolongou até agora a minha vida para que, ao menos a partir deste instante, comece a converter-me a Ele e me esforce para O agradar.»
Filha minha, tem sempre a convicção que não fizestes mais que começar e que tudo o que fizestes até agora foi um puro nada. Todas as ocasiões, todas as ocupações, todo o tempo livre, qualquer circunstância que se apresente a ti são momentos únicos que podes empregar para glória Minha e proveito da tua alma.
Isto é suficiente. Até aqui te tenho exortado a renunciar às vaidades humanas, a fechar as portas dos sentidos, a recolher-te no teu interior e a virares-te para Mim. Não me resta mais que acrescentar mais uma regra de vida espiritual, regra que tu tens desejado muito por inspiração Minha.
Até ao dia de hoje conservas esse pudor que Me agrada e que te leva a ruborizar perante as tuas debilidades, quedas e negligências, assim como a sentir um profundo arrependimento por ter usurpado indignamente, durante tanto tempo, o nome de minha esposa. Porém, como vejo em ti um propósito sincero de recuperar a Minha graça, deves saber que é precisamente isso o que mais desejo. Pois que outra coisa poderia causar-Me maior alegria que conceder a minha graça aos pecadores? E quanto mais desejarei Eu recuperar a Minha esposa, apesar de se ter extraviado por entre suspeitas e receios? A Minha sede de te possuir é tão grande que Me digno a mostrar-te o caminho que deves seguir até à Minha morada. Vem a Mim, então, e dá-Me uma nova alegria com o teu regresso.
[1] Cf. Apóc. 3, 20.
[2] Prov. 8, 31.
[3] A expressão latina vacare Deo, “vacar a Deus”, denota uma atenção e uma entrega absoluta a Deus; estar vazio de tudo para dedicar-se “ao que é necessário” (cf. Lc 10, 42): a união com Deus (N. do Trad.).
[4] Cf. Rom 12, 2.
[5] Cf. Col. 3, 11.